É chegado o mês de junho num momento de muitas definições. Enquanto nossas praças se iluminam com as fogueiras de São João e o aconchego das festas populares, o cenário global e nacional nos desafia a olhar além da superfície. Vivemos tempos de buscas intensas: por paz em meio a conflitos persistentes, por equilíbrio ambiental e por uma justiça que não seja apenas letra fria, mas carne viva na vida dos mais pobres. Para nós, leitores da Revista Ave Maria, este mês não é apenas uma sucessão de dias, mas um caminho espiritual que nos arranca da inércia e nos lança ao centro do Reino de Deus.
A liturgia deste mês, reabrindo o Tempo Comum, é um convite à autenticidade. Iniciamos com o alerta da parábola dos vinhateiros: a pedra rejeitada tornou-se a angular. Quantas vezes, na construção da nossa sociedade atual, rejeitamos os valores do Evangelho em nome de eficiências temporais? Jesus, ao enfrentar fariseus e herodianos com a máxima “Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” (Mt 22,21), estabelece a bússola para o cristão hoje: vivemos no mundo, cumprimos nossos deveres civis, mas nossas almas e nossa ética pertencem exclusivamente ao Senhor.
Junho é marcado pelo mistério da unidade. Ao celebrarmos a Solenidade de Corpus Christi, reafirmamos que o “pão vivo descido do Céu” (Jo 6,51) é o alimento que sustenta nossa luta por um mundo menos desigual. Não podemos comungar o corpo do Senhor e ignorar o corpo do irmão que padece fome ou indiferença. Essa unidade se aprofunda na contemplação dos corações de Jesus e de Maria. Num mundo muitas vezes enfraquecido e abatido “como ovelhas sem pastor” (Mt 9,36), o sagrado coração nos oferece repouso e nos ensina a mansidão e a humildade, virtudes raras em tempos de polarizações e invectivas da multidão, como sofria o profeta Jeremias (cf. Jr 20,10).
Não nos esqueçamos das palavras de Mateus em seu Evangelho, que nos acompanham, apresentando o Sermão da Montanha como o verdadeiro projeto de vida. Ser sal da Terra e luz do mundo em 2026 exige a coragem de Mateus, o cobrador de impostos, que deixou tudo para seguir a divina misericórdia. Exige a radicalidade de não apenas amar os amigos, mas orar pelos que nos perseguem, quebrando a espiral de violência do “olho por olho”.
Finalmente, com a Natividade de São João Batista e a Solenidade de Pedro e Paulo, somos lembrados de que a fé não é um porto seguro de comodismo, mas uma “casa edificada sobre a rocha” (Mt 7,24). São Pedro e São Paulo nos ensinam que, mesmo nas prisões das nossas limitações ou das perseguições externas, a Igreja “ora sem cessar”. Que esta edição da Revista Ave Maria seja um chamado: que nossas boas obras brilhem diante dos homens não para nossa glória, mas para que o mundo reconheça a presença viva de Deus em nossa história.
NOTAS MARIANAS
Sinal da cruz
Fazemos o sinal da cruz para lembrar que fomos salvos pela cruz de Cristo (cf. 1Jo 3,5; 4,10) e batizados em nome do Deus Trino: Pai, Filho e Espírito Santo (cf. Mt 28,19). É uma prática muita antiga da Igreja, pois já no século II Tertuliano (160-220 d.C.) recomendava: “Quando nos pomos a caminhar, quando saímos e entramos, quando nos vestimos, quando nos lavamos, quando iniciamos as refeições, quando vamos nos deitar, quando nos sentamos, nessas ocasiões e em todas as nossas demais atividades, persignamo-nos a testa com o sinal da cruz”.