Um traço bem característico do Evangelho de Mateus é a maneira como ele organiza o seu relato. Depois de narrar a infância de Jesus, o autor passa a apresentar sua atuação em torno de cinco grandes discursos.
Há quem veja nisso mais do que uma simples forma de organizar o texto. Essa divisão pode lembrar, de modo simbólico, os cinco livros do Pentateuco. Nesse sentido, Mateus parece apresentar Jesus como um novo Moisés, alguém que revela plenamente a vontade de Deus e conduz o povo a compreender melhor a lei.
No Evangelho de Mateus, um dos cinco grandes discursos é o chamado Discurso Missionário, no capítulo 10. Ali, Jesus envia os doze e fala de modo bem direto sobre o que eles devem fazer: anunciar que o Reino de Deus está próximo. Ele também indica como essa missão deve ser vivida. Pede confiança em Deus, desprendimento em relação aos bens e coragem para enfrentar as dificuldades e perseguições que certamente viriam. Esse ensinamento não fica preso apenas àquele primeiro envio. Ele continua sendo uma referência para entender a missão cristã ao longo do tempo, dentro da vida da Igreja.
O discurso inicia-se com o chamado dos doze discípulos e a concessão de autoridade para expulsar espíritos impuros e curar enfermidades (cf. Mt 10,1). Essa autoridade revela que a missão dos apóstolos não é autônoma, mas participação na própria missão de Cristo. Os apóstolos foram escolhidos por Jesus para permanecer com Ele e para serem enviados a anunciar o Evangelho, tornando-se fundamento da missão da Igreja (cf. Catecismo da Igreja Católica, 2000).
O núcleo da missão aparece de forma simples: anunciar que o Reino dos Céus está próximo (cf. Mt 10,7). Isso não fica só nas palavras: esse anúncio ganha forma em gestos concretos de libertação e misericórdia.
As curas, a purificação dos leprosos e a expulsão dos demônios mostram, na prática, a ação salvadora de Deus no meio do povo.
Outro aspecto fundamental do discurso é o convite à confiança plena na providência divina. Jesus orienta os discípulos a não levarem ouro, prata ou provisões para o caminho (cf. Mt 10,9-10). Essa recomendação destaca que a eficácia da missão não depende principalmente de recursos materiais, mas da fidelidade a Deus e da abertura daqueles que acolhem a mensagem do Evangelho. O desprendimento material torna-se, assim, um sinal da confiança no cuidado divino.
Ao mesmo tempo, Jesus prepara os discípulos para enfrentar dificuldades e perseguições. Ao afirmar que os envia como ovelhas no meio de lobos (cf. Mt 10,16), Cristo reconhece que o anúncio do Evangelho encontrará resistência, contudo, os missionários são chamados a permanecer firmes, confiando na assistência do Espírito Santo, que lhes concederá sabedoria e coragem diante das adversidades.
CONCLUSÃO
O Discurso Missionário apresentado no capítulo 10 do Evangelho de Mateus oferece orientações essenciais para compreender a natureza e a dinâmica da missão cristã. Ao enviar os doze, Jesus não apenas inaugura uma etapa importante de sua ação evangelizadora, mas também estabelece princípios que orientariam, ao longo da história, a missão da Igreja. O envio dos discípulos revela que a evangelização nasce da iniciativa de Cristo, que chama, forma e envia aqueles que escolhe para participar de sua obra de salvação.
Nesse contexto, o discurso aponta atitudes essenciais para quem assume a missão: confiar na providência de Deus, viver com desapego dos bens e ter coragem diante das dificuldades e perseguições que podem surgir ao anunciar o Evangelho.
Essas orientações deixam claro que a missão não se apoia apenas em esforços humanos, ela nasce da fidelidade ao chamado de Deus e é sustentada pela ação do Espírito Santo, que fortalece quem é enviado.
Ao longo dos séculos, a Igreja não deixou de assumir esse envio, procurando anunciar o Evangelho nas mais diversas realidades culturais e sociais, por isso o ensinamento de Jesus continua atual. Ele convida cada cristão a perceber que também faz parte dessa missão. Dentro da própria vocação e das circunstâncias em que vive, cada fiel é chamado a dar testemunho do Reino de Deus – seja pela palavra, pelo serviço ou pela caridade – e, assim, tornar presente no mundo a esperança e a salvação anunciadas por Cristo.
Referências
CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA. Catecismo da Igreja Católica. São Paulo: Loyola, 2000.
FRANCISCO. Evangelii Gaudium: exortação apostólica sobre o anúncio do Evangelho no mundo atual. São Paulo: Paulinas, 2014.
RATZINGER, Joseph. Jesus de Nazaré. São Paulo: Planeta, 2007.