Estimado leitor(a) da Revista Ave Maria, começo nossa reflexão mensal de abril convidando você e sua família a uma experiência evangélica do poder do amor como caminho de salvação.
Recordemos o que Jesus disse no Evangelho de São Marcos: “O primeiro de todos os mandamentos é este: Ouve, Israel, o Senhor nosso Deus é o único Senhor; amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu espírito e de todas as tuas forças. Eis aqui o segundo: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Outro mandamento maior do que este não existe.” (Mc 12, 29-31). Assim como Jesus resumiu os três primeiros mandamentos da Lei de Moisés, Ele também fez com que os sete mandamentos seguintes fossem verificados através do segundo maior mandamento de todos: “Amarás ao teu próximo como a ti mesmo”. Os três primeiros mandamentos têm o foco em Deus e os sete seguintes, o foco em sua criação, ou seja, o relacionamento entre todos nós, irmãos e irmãs, filhos e filhas de Deus.
Perceba que temos dois mandamentos, mas, curiosamente, três pontos para amar: Deus, a si mesmo e ao próximo, sobretudo nossas famílias, que compartilham o melhor de nós e o pior de nós todos os dias. Portanto, o amor de Jesus é salvação. Assim também deve ser o nosso amor para com nossos familiares, um amor capaz de salvar da indiferença, do ódio, da mágoa, dos vícios e de tantos outros pecados. Isso porque, se fomos criados à imagem e semelhança de Deus (cf. Gn 1, 26), também devemos ser amados. Como já refletimos bastante sobre todos os mandamentos, vamos agora dar foco nesse ponto muito importante, que pode até passar despercebido: “como a ti mesmo”.
Santo Agostinho, questionando-se sobre a diferença entre esses três pontos para amar, oferece uma resposta valiosa e ensina com qual medida deve o homem amar-se a si mesmo:
“Mas, se há três pontos do nosso amor, por que há apenas dois mandamentos? Vou dizer-te: Deus não julgou necessário encarregar-te de te amares a ti próprio porque não há ninguém que não se ame a si mesmo. Mas muita gente se perde porque se ama mal. Ao mandar-te amá-Lo com todo o teu ser, Deus deu-te a regra segundo a qual deves amar. Queres amar-te? Então ama a Deus com todo o teu ser. Com efeito, é n’Ele que te encontrarás, evitando assim perderes-te em ti. […] Deste modo, é-te dada a regra segundo a qual deves amar-te: ama Aquele que é maior do que tu e amar-te-ás a ti mesmo.” (Santo Agostinho, Sermão inédito sobre a carta de São Tiago).
Como, então, amar a si mesmo da maneira correta? “Queres amar-te? Então ama a Deus com todo o teu ser”. Nesta terra, o que de mais valioso o ser humano possui é a sua alma; e a vontade de Deus, que é “que todos se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade” (1 Tm 2, 4), é a única que pode nos salvar de nós mesmos. Afinal, temos um corpo carnal, que é fraco e limitado, e necessita de cuidados (cf. Mt 26,40-41).
São Paulo nos adverte: “Não sabeis que sois o Templo de Deus, e que o Espírito de Deus habita em vós? Se alguém destruir o Templo de Deus, Deus o destruirá. Porque o Templo de Deus é sagrado – e isto sois vós.” (1 Cr 3,16-17). Não podemos, conscientemente, atentar contra nossa própria vida, ou seja, precisamos cuidar de nós mesmos de forma física, mental e espiritual. E isso não somente para nosso próprio bem-estar, mas sim para obedecermos ao mandamento de amar o próximo. Afinal, se meu corpo está fraco, doente e fatigado, como vou amar o próximo com os cuidados físicos que ele venha a necessitar? Se estou sem fé, descrente e desanimado com a vida, distante da Eucaristia e da Palavra de Deus, como vou amar o próximo dando a ele uma palavra de conforto, fé e esperança em Jesus Cristo, visto que “a boca fala daquilo de que o coração está cheio” (Mt 6,45).
Irmãos e irmãs, é preciso nos mantermos fortes, pois, quando damos um passo para a mudança de vida para Deus, seja ela física, mental ou espiritual, muitos entraves e tentações virão junto, pois o inimigo quer destruir o Templo de Deus, ou seja, nós. Por isso, não deixemos nunca de vigiar e sermos firmes e fortes na fé, para que em tudo prevaleça sempre a caridade (cf. 1 Cr 16,13-14).
Ora, a família é realmente esse ambiente eclesial fértil para iniciarmos amizades no Senhor e para podermos cultivá-las, renovando sempre nossa entrega de vida uns pelos outros. Por essa razão, precisamos fortalecer a vida de vínculos de amizade e fraternidade cristã na família. Isso é possível quando certos valores da vida comunitária nos moldam e nos guiam. A família, mais do que um grupo de compromisso religioso, é uma real igreja doméstica e, portanto, precisa ser guiada por valores antes de práticas.