Lucas não conheceu diretamente a Jesus, mas teve contato com os apóstolos, particularmente com Paulo. Escreveu seu Evangelho com a intenção de dirigir-se particularmente aos pagãos, mostrando a eles que Jesus é o Salvador de todos.
O tema da salvação é fundamental nesse Evangelho. A salvação, para Lucas, realiza-se com a vinda de Jesus de Nazaré. Ele veio para concluir o “tempo de Israel” e começar o “tempo da Igreja”. Nesse sentido, não podemos esquecer que Lucas, além do Evangelho, escreveu o Livro dos Atos dos Apóstolos, que apresenta a experiência da Igreja primitiva, testemunhando Jesus “em Jerusalém, em toda a Judeia, na Samaria e até os confins da Terra” (At 1,8). Eis porque o biblista Carlo Maria Martini fala de Lucas como sendo o evangelista missionário.
Jesus é a salvação de Deus, sobretudo porque Ele perdoa. O tema do “perdão” em Lucas é particularmente desenvolvido. Como não lembrar, a esse respeito, o perdão da pecadora (cf. 7,36-50), as parábolas do filho pródigo (cf. 15,11-32) e o perdão ao “bom ladrão” (cf. 23,39-43)?
A salvação de Deus, em Jesus, gera muita alegria. O Evangelho de Lucas, do começo ao fim, é testemunha da alegria dos que acreditam em Jesus: João Batista “saltou de alegria no seio de Isabel”(1,44), Maria “alegra-se intensamente em Deus Salvador”(1,47); o anúncio do nascimento de Jesus é de “grande alegria para todo o povo”(2,10); os 72 discípulos voltaram “alegres” depois de sua missão (cf. 10,17); Zaqueu recebeu em sua casa Jesus “com muita alegria” (19,6); a multidão de discípulos recebeu Jesus, no Domingo de Ramos, “cheia de alegria” (19,37); e os discípulos voltaram a Jerusalém, depois da ascensão de Jesus, “cheios de alegria” (24,52).
A salvação de Jesus é universal, mas Lucas mostra uma predileção de Jesus para com os pobres, os desprezados, os marginalizados em geral (cf. 6,20-23): pense-se, por exemplo, como ele valoriza os samaritanos (cf. 10,25-37; 17,18), que, na época, eram desprezados como estrangeiros e pagãos.
Antes de concluir, é bom lembrar outros temas desenvolvidos por Lucas: a importância do Espírito Santo que age na vida de Jesus e dos cristãos (cf. 1,15.35.41.67; 2,25; 3,22; 4,1; 10,21; 12,10; 24,49), a importância dada às mulheres (cf. 1,26-45; 2,36-38; 7,11-17; 8,1-3; 10,38-42; 23,27-31.55-56; 24,1-10), a oração de Jesus e dos discípulos (cf. 3,21; 6,12; 10,21-23; 11,1-4; 18,1-8), o templo e a cidade de Jerusalém. De fato, Lucas começa e termina seu Evangelho no templo de Jerusalém e orienta tudo para essa cidade (cf. 9,53; 13,22.33; 18,31).
Mais dois temas: o hoje e a pressa. O termo “hoje” (“sèmeron”, em grego) é central e aparece várias vezes para indicar que a salvação não é um evento distante no futuro, mas uma realidade presente e atuante por meio da pessoa e da obra de Jesus (cf. 2,11; 4,21; 5,26; 13,32.33; 19,5.9; 23,43).
A “pressa” no Evangelho de Lucas não é tratada como ansiedade negativa, mas como um tema teológico fundamental que aponta para a urgência da missão, a rapidez da graça de Deus e a prontidão na resposta ao chamado (cf. 1,39; 2,16; 14,21 15,22; 19,5-6; 24,33).
Em grandes linhas, o plano de Lucas é o mesmo de Marcos, baseado em critérios de ordem geográfica. Conforme os lugares evangelizados por Jesus, o Evangelho começa na Galileia (cf. 4,14-9.50) e termina em Jerusalém (19,28-24.53), para onde Jesus se encaminha numa longa jornada (cf. 9,51–19,27).
Estas breves considerações nos podem ajudar a entender a grande riqueza do Evangelho de Lucas.