Vivemos hoje uma realidade mundial extremamente diversificada em todas as suas dimensões. Não é possível permanecer à margem desse mundo, pois fazemos parte dele. Surgem inúmeros desafios que tentam ofuscar a verdade do Reino, relativizando tudo. No entanto, cabe aos cristãos, por meio do testemunho, fortalecer sua convicção no Reino, porque somente assim ele pode tornar-se uma realidade possível.
Para compreender a profundidade do testemunho do Reino, é necessário considerar a sociedade atual e seus desafios, sobretudo a pobreza e a injustiça. O testemunho do Reino de Deus se fundamenta essencialmente no exemplo narrado nos Atos dos Apóstolos: “Esse Jesus, oriundo de Nazaré, sabeis como Deus lhe conferiu a unção do Espírito Santo e do poder; ele passou por toda parte fazendo o bem e curando todos os que o diabo mantinha escravizados, pois Deus estava com ele” (At 10,38).
Assim como Jesus se dedicou a todos sem distinção, aqueles que continuam o seu legado devem enfrentar essas três realidades – pobreza, injustiça e exploração – pois elas ferem de modo radical a dignidade humana. É certo, porém, que tais situações estão longe de serem eliminadas. Por isso, é missão dos cristãos, conscientes de seus compromissos, humanizá-las. O desafio é grande, já que essas estruturas estão profundamente enraizadas na vida das minorias sociais.
As Bem-Aventuranças, relatadas por Mateus e Lucas, mostram que é possível superar essa realidade. Nos seus ensinamentos, Jesus sempre lança uma palavra de esperança diante das situações mais duras: “Felizes vós, os pobres: o Reino de Deus é vosso” (Lc 6,20b); “Felizes os que têm fome e sede de justiça: eles serão saciados” (Mt 5,6); “Felizes vós que agora chorais: havereis de rir” (Lc 6,21b). Mas Ele também é firme com aqueles que ignoram o sofrimento do povo: “Mas ai de vós, ricos: já tendes a vossa consolação. Ai de vós que agora estais saciados: tereis fome. Ai de vós que agora rides: estareis de luto e chorareis” (Lc 6,24-25).
Ao observar essas sentenças, especialmente as que começam com “ai de vós”, percebe-se que elas revelam situações desumanas que ferem diretamente a dignidade humana. Vivemos em uma estrutura social que possui riquezas, mas que não são distribuídas de forma justa: alguns têm muito, outros têm pouco e muitos não têm nada.
Dom Helder Câmara expressa bem essa tensão ao afirmar: “Quando dou comida aos pobres, chamam-me de bom; quando pergunto por que falta o pão na mesa dos pobres, chamam-me de comunista.” A pobreza extrema destrói a dignidade da pessoa. Como recorda o Papa Francisco: “Cada cristão e cada comunidade são chamados a ser instrumentos de Deus a serviço da libertação e promoção dos pobres, para que possam integrar-se plenamente na sociedade; isso supõe estar docilmente atentos para ouvir o clamor do pobre e socorrê-lo.” A luta contra a pobreza parece não ter fim, mas a esperança cristã deve iluminar as ações diante dessa realidade tão presente no cotidiano dos mais vulneráveis, aqueles que não têm garantidos direitos básicos.
Por fim, ao testemunhar o Reino nesse contexto, cabe à Igreja assumir para si o compromisso de enfrentar a pobreza e lutar para que, ao menos, o alimento esteja presente na mesa dos que nada têm. A Igreja não é a salvadora do problema, mas, consciente do que Jesus Cristo realizou, busca no seu agir cotidiano tornar a vida plena uma possibilidade concreta.