Revista Ave Maria

Artigos da revista › 01/01/2020

São João Bosco

31 DE JANEIRO
FUNDADOR DA FAMÍLIA SALESIANA
(1815-1888)

“A educação é coisa do coração e só Deus é o dono dele, não poderemos conseguir nada se Deus não nos puser na mão a chave dos corações.”

Corria o ano de 1858 e Dom Bosco, já conhecido nos ambientes eclesiásticos e políticos italianos, estava em audiência com o Papa Pio IX para lhe apresentar seu projeto de fundação de uma congregação moderna que se dedicasse à educação da juventude. O Papa ouviu-o por um longo tempo e com muito interesse. Quis saber como ele tinha chegado àquela decisão e, no fim, depois de ter dado o seu pleno consentimento, exortou-o a escrever tudo o que lhe havia contado.

Alguns anos se passaram e, em 1867, Dom Bosco foi novamente falar com o Papa;  quando este lhe perguntou se ele já havia escrito sua autobiografia, teve de responder que não, por causa do muito trabalho. “Bem!” – disse o Papa – “se é assim, deixe todas as outras ocupações e comece a escrevê-la. Pois agora não se trata somente de um conselho, é uma ordem”. E Dom Bosco finalmente resolveu escrever as suas Memórias, uma autobiografia que vai até a idade de 40 anos, pois não conseguiu terminá-la como era seu desejo diante do pedido do Papa. Porém, temos o suficiente para compreender como ele se deixou guiar por Deus na construção de sua obra.

Nasceu aos 16 de agosto de 1815 em Becchi, Castelnuovo d’Asti, Itália. O pai, Francisco, era casado em segundas núpcias com Margarida Occhiena e o deixou órfão com a idade de 2 anos. Mesmo entre dificuldades econômicas, a mãe viúva, com três rapazes, dentre os quais um era do primeiro casamento do marido, não quis casar novamente para poder se dedicar a eles inteiramente.

UM SONHO INESQUECÍVEL

O pequeno João tinha apenas 9 anos quando viu, em sonho, no campo em frente da casa uma turma de rapazes que estava brigando entre gritos e blasfêmias. Horrorizado, atirou-se sobre eles, dando murros naqueles que podia alcançar. De repente, apareceu-lhe um homem de um semblante brilhante que lhe disse: “Deverás torná-los amigos com bondade e caridade, não batendo neles…”. Perguntou-lhe quem era ele, ao que o homem respondeu: “Eu sou o filho daquela que tua mãe te ensinou a saudar três vezes ao dia”.

“Naquele momento” – conta dom Bosco – “vi, próxima dele, uma senhora majestosa, vestida com um manto que brilhava em todas as direções, como se cada ponto fosse uma estrela muito brilhante”. A senhora fez sinal para que ele se aproximasse, pegou-o pela mão e convidou-o a olhar para o jardim. Então, ele não viu mais os rapazes de antes, mas, em seu lugar, uma quantidade enorme de cabritos, cães, gatos, ursos e muitos outros animais.
“Eis o teu campo” – disse a senhora – “o lugar onde deves trabalhar. Cresce humilde, forte e robusto, e isto que vês acontecer a estes animais, tu o deverás fazer pelos meus filhos”.

“Olhei ainda” – conta Dom Bosco – “e eis que no lugar dos animais ferozes apareceram outros tantos cordeiros mansos, que saltavam, corriam, baliam, faziam festa ao redor daquele homem e daquela senhora. Naquele ponto, no sonho, comecei a chorar. Falei com a senhora que não entendia todas aquelas coisas. Ela, então, colocou a sua mão sobre a minha cabeça e me disse: ‘No tempo certo, compreenderás tudo’. Tinha apenas dito estas palavras e um barulho me acordou. Tudo havia desaparecido”.

O ORATÓRIO E AS PRIMEIRAS OPOSIÇÕES

Durante aquele período, exatamente a 8 de dezembro de 1841, Dom Bosco iniciou oficialmente o oratório. A balbúrdia que os jovens faziam não foi bem aceita pelos “bem comportados”, por isso ele teve continuamente de ir de um lugar para o outro, à procura de uma sede, até que em Valdocco pôde, aos poucos, em meio a dificuldades, implantar a sua obra: o oratório festivo, o internato para estudantes e artesãos, a igreja etc… Mas, antes de chegar a esse ponto é bom conhecer algumas das dificuldades pelas quais passou.

O governo liberal-maçônico do Piemonte não via com bons olhos aquele sacerdote rodeado de mais de quatrocentos jovens, quase todos eles de condição humilde, que o seguiam com entusiasmo e obedeciam prontamente a cada aceno seu. Pessoas influentes procuraram convencê-lo a dissolver o oratório, mas foi em vão. Outros usaram métodos mais desumanos, organizando emboscadas anônimas e espancando-o. Tudo em vão. Interveio o chefe da polícia, um certo Michel, pai do famoso Camillo Benso, conde de Cavour, para emitir ordem de fechamento do oratório por motivos de ordem pública. Mas também dessa vez a providência veio em sua ajuda por meio do próprio rei Carlos Alberto que, conhecendo pessoalmente Dom Bosco e estimando-o pelo que fazia entre os jovens, não o permitiu.

Os adversários não se renderam: passaram a intimidar os jovens, controlando suas atividades dentro e fora da igreja, mas o resultado foi que os guardas faziam também fila entre os jovens para se confessar com Dom Bosco.

As dificuldades mais dolorosas lhe vieram dos párocos de Turim, que o culparam de lhes tirar os jovens das paróquias. Dom Bosco respondeu: “A maior parte destes jovens que recolho são forasteiros. Seus pais vieram para a cidade à procura de trabalho. Não o tendo encontrado, foram embora e os deixaram aqui. Ou então são jovens vindos sozinhos para a cidade à procura de ocupação. São saboianos, suíços, valdostanos, bielesos, novareses, lombardos”.

Por sorte, Dom Bosco encontrou o apoio de alguns sacerdotes mais abertos à novidade do Espírito, como Cafasso e Borel, e, sobretudo, teve o apoio decisivo do Arcebispo Fransoni. Ele aprovou o oratório como a paróquia dos jovens sem paróquia.

ASPECTOS DE UMA ESPIRITUALIDADE MODERNA

Ele escolheu para si e para os jovens uma espiritualidade moderna e a completou com algumas características próprias. Antes de tudo, a convicção de que todo trabalho, feito de acordo com a vontade de Deus e para o bem do próximo, por si é uma oração. O dito dos antigos monges “Ora et labora” (“Reza e trabalha”), foi substituído pelo seu: “O trabalho é oração”. Abria, assim, um novo caminho para a santidade de todos os leigos, também daqueles que exercem profissões consideradas mais humildes.

Uma segunda característica é a alegria. Ele colheu o aspecto alegre da fé e dele fez o ambiente normal para formar seus rapazes e jovens. A alegria se exprimia também na festa exterior com tudo aquilo que esta comporta, sobretudo num ambiente juvenil, mas para Dom Bosco era algo mais profundo: era a alegria espontânea e genuína que jorra do interior de quem está com Deus e com o coração puro. Por isso inculcava a seus jovens a confissão e a comunhão frequente e uma profunda devoção a Maria.

Uma terceira característica era a fidelidade ao Papa. Num tempo de grandes agitações sociopolíticas – juntamente com a queda do poder temporal do Papa se anunciava também a extinção do próprio papado –, Dom Bosco deixou aos seus filhos o compromisso de fidelidade a toda prova ao carisma de Pedro.

Sobre essas bases, a família salesiana foi tomando consistência e crescendo. Em 1859, nasceu oficialmente a Pia Sociedade Salesiana, o ramo masculino de sua obra;  em 1872, nasceu também o das Filhas de Maria Auxiliadora; em 1875, começavam as missões salesianas na América Latina; no ano seguinte, constituía-se a Pia União dos Cooperadores salesianos; em 1877, iniciava-se a impressão do Boletim Salesiano.

Dom Bosco havia publicado muitos livros e alguns deles, como a A história sagrada, foram por muito tempo verdadeiros best-sellers. Fundou também uma tipografia e uma editora que se tornaram depois famosas.

Quando, em 1887, inaugurou em Roma a Basílica do Sagrado Coração, construída por vontade do Papa, encheu-se de alegria, pois todos os seus sonhos tinham sido realizados. No dia 31 de janeiro do ano seguinte, faleceu, mas sua obra já havia sido difundida.

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