27 de setembro
Sacerdote e fundador dos lazaristas (1581–1660)
“Não conseguir ver uma pessoa sofrer sem que se sofra com ela; vê-la chorar sem chorar com ela… É um ato do amor que faz compenetrar os corações um dentro do outro e sentir aquilo que o outro sente, bem diferente do agir dos homens que não experimentam sentimento algum ao ver o tormento dos aflitos e o sofrimento dos pobres. (…) Ser cristão e ver o próprio irmão sofrer sem sofrer com ele, sem estar doente com ele, significa não ter piedade, ser cristão apenas de nome” (SÃO VICENTE DE PAULO apud LUBICH, 1994, p. 92–93).
O carisma deste gigante da caridade é o amor concreto que enfrenta os problemas e os resolve, não por espírito de filantropia, mas porque vê em quem sofre o próprio Jesus que lhe repete: “Tive fome e me destes de comer; tive sede e me destes de beber…” (Mateus 25,31ss).
Vicente nasceu no dia 24 de abril do ano de 1581, perto de Pouy, na Gasconha, de uma família de pobres camponeses. Embora dotado de uma grande inteligência, até os 15 anos não fez outra coisa senão conduzir à pastagem as poucas ovelhas e os poucos porquinhos para ajudar a família a ir levando a vida.
Um advogado da região de Dax, impressionado com o talento do jovem, falou com os pais, dizendo-lhes que era um pecado não fazê-lo estudar e ofereceu-se para pagar-lhe as despesas. Uma providência inesperada e uma grande esperança para o futuro da família. Vicente, por sua vez, não esperava outra coisa e lançou-se sobre os livros com todo o empenho.
Naqueles tempos e naquela região, estudar significava encaminhar-se para a carreira eclesiástica, na esperança de agarrar-se o mais rápido possível em uma boa renda.
Vicente estudou durante três anos no colégio dos padres franciscanos de Dax; depois tornou-se clérigo e, com a ajuda de seu patrono e com a venda de um par de bois da parte do pai, inscreveu-se na universidade de Toulouse.
Aos 19 anos, conseguiu fazer-se ordenar sacerdote pelo bispo de Périgueux e continuou os estudos até tornar-se bacharel em teologia.
Esperava obter um bom ganho tornando-se pároco, mas não o conseguiu.
No entretempo, perdeu o pai e, para ajudar a família, abriu uma escola particular sem grande sucesso; ao contrário, sobrecarregou-se de dívidas.
Nesse período, inseriu-se a história, por ele mesmo narrada: enquanto viajava de Marseille a Narbonne, foi aprisionado por piratas turcos e foi vendido como escravo em Tunis, tornando-se servo de um frade que por amor ao dinheiro se fez muçulmano. Vicente o convenceu a voltar atrás e juntos fugiram em uma embarcação leve para a França. Em Avignon, o frade fez sua abjuração nas mãos do delegado pontifício, Pedro Montório, e os três partiram para Roma.
Na realidade, o bravo clérigo, segundo alguns, havia administrado de modo falimentar um pensionato que lhe foi confiado em Toulouse e havia fugido carregado de dívidas, dilapidando a herança de uma rica senhora e vendendo um cavalo que tomou como empréstimo. A comovente história africana, sempre
de acordo com esta versão, servia para fazer-lhe perdoar os débitos e permitir-lhe, após ter ficado dois anos escondido, tentar um novo trabalho.
Como a carta em que Vicente narra essa aventura é autógrafa, outros historiadores autorizados consideram-na verdadeira. Certamente, até este momento, Vicente não era uma relíquia de santo e o demonstra o fato de que, após um ano de permanência em Roma, voltou a Paris em busca de fortuna.
Com efeito, conseguiu alistar-se entre os capelães da corte, porém com um estipêndio de fome, que apenas lhe permitia sobreviver sem poder ajudar sua pobre mãe, que se tornara viúva. Finalmente, em 1612, foi nomeado pároco nas proximidades de Paris.
Contava já com 31 anos de idade e, impressionado com a vida de oração de alguns de seus paroquianos, deixou de lado as preocupações materiais e de carreira, e começou a ensinar o catecismo, a visitar os doentes e a ajudar os pobres. O contato com a vida real reabriu-lhe o coração à oração e à meditação da palavra de Deus. Se os paroquianos foram seus primeiros mestres com sua vida, o instrumento de que a providência se serviu para operar nele uma profunda transformação foi Pedro de Bérulle que, o acolhendo em seu Oratório, o formou em uma profunda espiritualidade.
Estava dando os primeiros passos nesta nova vida, quando de Bérulle o aconselhou a aceitar o encargo de preceptor junto à família de Filipe Emanuel dei Gondi, general das galeras régias. Vicente aceitou e foram quatro anos difíceis, tendo de lutar duramente para perseverar em uma escolha de vida verdadeiramente evangélica. Abriam-se diante dele dois caminhos: o da carreira, com a possibilidade de ganhar dinheiro e fazer seu pé-de-meia, e a do serviço aos pobres, com uma vida cada vez mais semelhante à do Mestre.
Vivendo no castelo de seus senhores, foi-lhe possível verificar com os próprios olhos que havia na França dois estilos de vida: o dos ricos, que gozavam neste mundo dos bens da terra e esperavam gozar no outro os bens celestes; e o dos pobres que, depois de uma vida infeliz neste vale de lágrimas, imaginavam encontrar interceptada também a porta do céu, devido à sua ignorância e aos vícios em que muitas vezes a miséria os afundava.
A senhora Gondi também compartilhava as preocupações do seu capelão e ofereceu uma soma de dinheiro àqueles religiosos que, a cada cinco anos, quisessem pregar uma missão às massas camponesas de suas terras. Ninguém se apresentou e Vicente, assustado com uma tarefa tão desmedida, abandonou o castelo sem tampouco avisar os patrões.
Os oratorianos de Bérulle, que alimentavam uma grande confiança nesse padre inquieto, ofereceram-lhe a possibilidade de exercer o seu ministério em
uma nova paróquia do campo em Châtillon-les-Dombes. Aí começou a revelar-se o carisma vicentino. Ele próprio gostava de contar este humilde começo.
Certo domingo, enquanto me vestia para celebrar a missa, vieram me dizer que em uma casa isolada das outras, a um quarto de légua de lá, estavam todos doentes, e em estado de necessidade indescritível. Fui com isso dolorosamente atingido e na pregação não deixei de recomendá-los com afeto… Depois das vésperas, tomei comigo um bom homem, burguês da cidade, e nos pusemos juntos a caminho para ir lá. Pela estrada, encontramos mulheres que nos ultrapassavam, outras que voltavam atrás… Havia tantas que me faziam pensar em uma procissão…. (SÃO VICENTE DE PAULO apud BARGELLINI, 1988, p. 541)
Vicente fez então esta consideração: “Hoje estes pobrezinhos terão mais que o necessário; dentro de alguns dias, estarão novamente em necessidade!”. O que fazer? “Eu propus” – continua o santo – “a todas aquelas boas pessoas, que a caridade havia inspirado, que cada qual se encarregasse de um dia, para trabalhar pela vida também de quem isso viesse acontecer depois” (SÃO VICENTE DE PAULO apud BARGELLINI, 1988, p. 541).
A caridade organizada! Caridade, porque tudo deve partir daquele amor que faz ver em todo pobre a presença viva de Jesus; organizada, porque os cristãos são tais somente quando se moverem conscientes de formar um só corpo, como na primeira comunidade de Jerusalém. E se deu conta de que, para alcançar o escopo, não era preciso nem mesmo serem ricos, bastava serem frequentemente solidários.
Seu apelo foi imediatamente acolhido e surgiu o primeiro grupo de pessoas dispostas a servir os necessitados. Ele os chamou Caridade e deu às associadas o nome de “servas dos pobres”. Em três meses, a instituição possuía um regulamento próprio, aprovado pelo bispo, mas, acima de tudo, produzia seus frutos.
A senhora Gondi não se conformava com o fato de haver perdido seu capelão e conseguiu fazê-lo retornar às suas terras. Vicente aceitou, com uma condição: de poder morar não no castelo, mas no campo, e dedicar-se ao cuidado espiritual e material dos camponeses. As condições foram imediatamente aceitas e ele começou a fundar as Caridades em todas as aldeias, agregando a elas não somente mulheres, mas também homens. Era seu desejo que umas e outros trabalhassem juntos, mas devido à mentalidade do tempo não foi possível e somente as Caridades das mulheres permaneceram em ação.
Mais tarde, em 1833, sua ideia seria retomada por Emmanuel Bailly, em Paris, que, juntamente com Frederico Ozanam, faria florescer as Conferências de São Vicente de Paulo.
A miséria, porém, não habitava somente nos campos; tinha a sua sede também na capital e em todas as grandes cidades, onde muitas vezes mostrava uma feição ainda mais dolorosa. Em Paris, em 1629, as servas dos pobres receberam o nome de damas da caridade, permitindo assim que também as mulheres nobres tomassem parte sem provocar reações desproporcionadas em seu ambiente e permitindo à nobreza parisiense colocar à disposição do santo seus recursos materiais que, de outro modo, teriam sido consumidos nas vaidades. Entre as damas, havia personalidades de destaque, como Luísa Maria de Gonzaga, futura rainha da Polônia, e a duquesa de Aiguillon, sobrinha do cardeal Richelieu.
O apostolado de Vicente nas aldeias rurais obteve tal sucesso que outros sacerdotes se uniram a ele, compartilhando seu ideal de serviço aos pobres e, no final, se encontrou com um excelente grupo de missionários rurais. Não somente os senhores Gondi, que proviam a suas necessidades materiais, mas também o arcebispo de Paris deu o seu apoio. Em Paris, eles receberam uma casa, primeiramente no antigo colégio dos Bons-Enfants, na rua Saint Victor, e depois no priorado de São Lázaro. Daí o nome de lazaristas dado a esses missionários.
O grupo dos sacerdotes reunia-se em congregação religiosa sem votos, empenhava-se em não buscar dignidades eclesiásticas e a pregar somente nos campos e nas galeras. No verão, quando os camponeses estão ocupados nos trabalhos dos campos, os missionários dirigiam-se às paróquias da cidade para ensinar o catecismo.
Em seguida, Vicente aceitou que seus lazaristas se dedicassem à formação dos sacerdotes, dirigindo seminários e aceitando também missões no exterior, como em Madagascar.
Com as missões dos lazaristas, refloresceu nos campos a vida cristã e muitas jovens, trabalhando nas Caridades, sentiam o chamado a consagrar-se inteiramente ao serviço de Cristo nos pobres. Vicente, sempre atento aos planos de Deus, confiou-as a uma mulher excepcional, Luísa de Marillac, que compartilhava plenamente seu ideal, para que as formasse. O povo chamou estas jovens “filhas da caridade”, e Vicente e Marillac não quiseram que se tornassem religiosas com o perigo de perderem o frescor de seu carisma porque, como havia acontecido com as visitandinas de são Francisco de Sales, teriam sido forçadas a fechar-se em um convento.
O santo dizia-lhes: “Vós tendes por mosteiro somente as casas dos doentes e a da superiora; por cela, um aposento de aluguel, por capela, a igreja paroquial, por claustro as ruas da cidade, por clausura a obediência… por grade o temor de Deus, por véu a santa modéstia!” (SÃO VICENTE DE PAULO apud BIBLIOTHECA SANCTORUM, 1990, v. 12, p. 1160). Eram permitidos os votos, mas somente privados e anuais, para que todas desenvolvessem sua missão na mais plena liberdade e por puro amor.
O arcebispo de Paris acompanhava com simpatia a obra apostólica de Vicente e dos seus padres, e desejaria que todas as dioceses da França tivessem padres tão bem formados por doutrina e virtude. Começou por mandar os seus passarem quinze dias entre os lazaristas antes de serem ordenados. Em seguida, muitos retornavam para renovar-se no espírito e surgiram as Conferências da terça-feira. Todas as semanas, naquele dia, muitos sacerdotes se encontravam juntos em uma casa dos missionários e em comunhão fraterna renovavam sua vida à luz do evangelho.
A experiência começou a expandir-se como mancha de óleo e homens eminentes se consideraram honrados por poder tomar parte nela. Entre os primeiros, encontramos Olier, fundador dos sulpicianos, e Brandon e, em seguida, Bossuet e Rancé.
Richelieu, ao tomar conhecimento do espírito que animava esses padres, quis ter os nomes daqueles que ele pudesse promover a bispos. Também o rei pediu a mesma lista a Vicente e quando este foi chamado junto ao rei moribundo ouviu dizer-lhe que, se fosse curado, teria feito de modo que todos os bispos franceses passassem três anos de formação na casa dos lazaristas.
Dos padres aos seminaristas, a passagem foi rápida e muitas dioceses queriam que seus futuros párocos fossem formados pelos lazaristas. Quando da morte do santo, já dirigiam doze seminários.
Se Vicente possuía um carisma para formar os padres e os futuros bispos, por que não chamá-lo a fazer parte do Conselho de Consciência, onde se decidia exatamente a nomeação dos bispos? A rainha Ana da Áustria impôs a sua escolha e a do príncipe de Condée de outros dois bispos, mas quem presidia o Conselho era o cardeal Mazarino, político requintado e sem escrúpulos.
Suas indicações e as de Vicente eram bem diferentes: o santo preocupava-se em fornecer nomes de ótimos pastores, ao passo que Mazarino queria homens ligados à sua linha política.
Vicente de Paulo não resistiu por muito tempo e sugeriu à rainha que afastasse o cardeal da corte, para o bem da França. Não o dissesse nunca!
Quando Mazarino soube disso, agiu com toda a fúria, e a rainha, que comandava apenas por modo de falar, teve de dobrar-se a contragosto à vontade do cardeal e afastar Vicente para sempre do Conselho.
Se algo existia que estava em contradição com a espiritualidade vicentina era o jansenismo. O pensamento reformista de Cornélio Jansênio foi propagado na França por João du Vergier de Hauranne, conhecido como Saint-Ciran, que tinha sido colega e amigo de Vicente em Bérulle. Quando, porém, ele se opôs ao magistério da Igreja, Vicente dissociou-se formalmente e usou de seu prestígio junto aos bispos para impedir que eles o apoiassem.
Dizer o bem que este homem fez à França e à Igreja em geral é impossível.
Não houve categoria de miseráveis que ele não socorresse. Falando dos galeotas, dos quais tornou-se capelão, dizia: “Quando elogiei sua resignação, quando compartilhei seus sofrimentos… quando beijei seus grilhões… então me ouviram”. A seu serviço, ele colocou seus missionários, as Damas e as Filhas da Caridade.
Ele se empenhou em resgatar os escravos cristãos das mãos dos turcos, levando para a França cerca de mil e duzentos.
Outra obra, fruto do seu amor, foi a de garantir uma casa para as crianças abandonadas. Segundo uma indicação dada pelo santo em 1657, suas obras davam assistência a cerca de trezentas e noventa e cinco crianças na cidade de Paris.
Durante a tremenda guerra dos Trinta Anos, que destruiu regiões inteiras, semeando por toda parte a fome, foram os seus filhos que levaram socorro onde quer que fosse preciso com os meios então disponíveis, organizando a Obra das Sopas. Em uma única paróquia distribuíam cerca de 5 mil refeições.
Diz-se que Vicente recebia uma quantidade extraordinária de meios para suas obras e administrava um balanço que superava o de sua terra natal, com a não pequena diferença que suas moedas eram todas aplicadas a serviço dos pobres e as do Estado serviam muitas vezes para satisfazer as ambições de quem nunca tinha experimentado a fome.
De onde, no entanto, hauria este homem tanta vitalidade para entusiasmar a si mesmo e a seus filhos e filhas? O segredo do seu carisma era a caridade concreta. Ele havia harmonizado em seu espírito a espiritualidade de Bérulle, a de são Francisco de Sales e a de santo Inácio de Loyola. Do primeiro havia assimilado acima de tudo o espírito de oração que o mantinha unido a Deus também em meio às ocupações materiais mais envolventes; do segundo, havia apreendido o humanismo cristão que lhe permitia levar a santidade para dentro do mundo civil sem necessidade dos muros protetores do convento; por meio do terceiro, havia concentrado a fidelidade à Igreja que o impulsionava a servi-la especialmente naqueles setores onde a presença dos cristãos era mais carente.
A nota característica da espiritualidade vicentina nós a encontramos expressa de maneira quase comovente nestas palavras do santo, extraídas das suas Cartas e Conferências:
O serviço dos pobres deve ser preferido a tudo. Não deve haver atrasos. Se na hora da oração tiverdes de levar um remédio ou um socorro a um pobre, ide tranquilamente. Oferecei a Deus a vossa ação, unindo a ela a intenção da oração.
Não vos deveis preocupar e acreditar que haveis falhado, se pelo serviço dos pobres haveis deixado a oração. Não é deixar Deus, quando se deixa Deus por Deus, ou seja, deixar uma obra de Deus para fazer uma outra. Se deixardes a oração para dar assistência a um pobre, sabei que fazer isto é servir a Deus. A caridade é superior a todas as regras, e tudo deve referir-se a ela. É uma grande senhora: é preciso fazer o que ela manda. Todos aqueles que amarem os pobres em vida, não terão temor algum da morte. Sirvamos, portanto, os pobres com renovado amor e procuremos os mais abandonados. Eles são os nossos senhores e patrões. (SÃO VICENTE DE PAULO, 1985, carta 2.546)
Vicente concluiu a sua viagem terrena na manhã do dia 27 de setembro de 1660, atraindo a seu funeral uma multidão imensa composta de personalidades influentes e pessoas humildes. O calor da sua caridade havia unido muitos membros das duas classes sociais tão distantes entre si, despertando em todos a consciência da dignidade comum de filhos de Deus.
Diz-se, às vezes, que Vicente criou apenas “enfermarias para os pobres”, sem efetuar uma “mudança nas estruturas”. À parte o fato de que a história tem seus tempos sempre longos, sem estas “enfermarias”, milhões de pobres teriam desaparecido desta terra sem nunca sentir junto deles o calor de um coração humano e talvez as estruturas teriam se tornado ainda mais desumanas.
Vicente de Paulo foi declarado bem-aventurado em 1729 e santo em 1737.
Referências
BARGELLINI, Piero. Mille santi del giorno. Firenze: Vallecchi Editore, 1988.
BIBLIOTHECA SANCTORUM. Roma: Città Nuova Editrice, 1990. v. 12.
LUBICH, Chiara. Cristo dispiegato nei secoli. Roma: Città Nuova Editrice, 1994.
SÃO VICENTE DE PAULO. Cartas e conferências espirituais. Petrópolis: Vozes, 1985.