O nono mandamento, que trata de não desejar a mulher do próximo, caminha lado a lado com o sexto mandamento, que orienta a não pecar contra a castidade. Para evitar que esses pecados sejam cometidos, é preciso que a pessoa tenha clareza sobre seus sentimentos, a fim de ordená-los adequadamente.
Muitos adolescentes, quando chegam à puberdade, ficam assustados com as mudanças que ocorrem em seu corpo e com o despertar da consciência sexual. É nessa fase que precisam receber dos pais uma orientação segura e sem tabus, para que aprendam a controlar seus impulsos. Isso requer pureza de coração, tanto da parte dos pais, ao orientá-los, quanto da parte dos filhos, ao acolherem essas orientações.
A pureza de coração implica abordar essas realidades sem recorrer a termos pejorativos, isto é, sem vulgarizá-las, mantendo a serenidade e a seriedade. O Catecismo da Igreja Católica, no número 2519, assegura:
Aos “puros de coração” é prometido que verão a Deus face a face e serão semelhantes a Ele. A pureza do coração é condição prévia para a visão. Já desde agora, permite-nos ver segundo Deus, aceitar o outro como um “próximo” e compreender o corpo humano, o nosso e o do próximo, como um templo do Espírito Santo, uma manifestação da beleza divina.
Sabiamente, a Igreja ensina isso porque a pureza de coração é uma condição necessária para uma vida casta.
Quem é puro de coração busca enxergar tudo com pureza, inclusive a dimensão sexual. Não tem medo de se reconhecer como um ser sexuado, que possui impulsos, mas é capaz de controlá-los. Por exemplo, imagine que um homem casado conheça uma mulher também casada e sinta atração por ela. No entanto, imediatamente, decide não estabelecer uma relação de proximidade, preservando a integridade de ambos. Nesse caso, esse homem pecou apenas por ter sentido atração? De forma alguma. Ele sentiu, mas não consentiu, ou seja, sentiu atração, mas não a alimentou. Afastou-se daquilo que poderia levá-los a pecar e não permitiu que esse sentimento se prolongasse.
Em outro caso, um rapaz tem uma namorada, com quem vive um namoro santo, e vê outra jovem passando pela rua. Ela chama sua atenção, mas, para não pecar contra a castidade, ele desvia o olhar. Assim como no exemplo anterior, ele não pecou. Também sentiu, mas não consentiu. Esses casos demonstram o que significa ser uma pessoa conduzida pela pureza de coração.
Diante desses exemplos, compreende-se que o problema não está em sentir o desejo, mas em alimentá-lo. O Catecismo Jovem da Igreja Católica, no número 462, afirma:
O nono Mandamento dirige-se não contra o desejo em si, mas contra uma apetência desordenada. A “avidez” de que a Sagrada Escritura previne é o domínio dos instintos sobre o espírito, a dominação dos impulsos sobre a totalidade da pessoa e a pecaminosidade daí suscitada.
Talvez algum jovem se pergunte: como alcançar essa pureza de coração, de modo a não se deixar conduzir por uma apetência desordenada? Com muita clareza, a Igreja responde:
A pureza de coração, necessária para o amor, atinge-se, em primeiro lugar, pela união com Deus, na oração. Quando a graça de Deus nos toca, surge um caminho para o amor humano puro e indiviso. Uma pessoa casta pode amar com um coração sincero e inteiro. Quando nos dedicamos a Deus com intuito puro, Ele transforma o nosso coração. Ele dá-nos a força para corresponder à Sua vontade e para afastar pensamentos, fantasias e desejos impuros (Catecismo Jovem da Igreja Católica, n. 463).
Sendo assim, é necessário que os pais orientem adequadamente seus filhos a respeito da sexualidade, para que eles cresçam de maneira equilibrada e aprendam a ordenar seus impulsos. Desse modo, quando sentirem algum desejo desordenado, não o alimentarão. Conviverão em paz consigo mesmos e com as pessoas que não lhes pertencem afetivamente, permanecendo em comunhão com Deus por meio do cumprimento dos mandamentos divinos.
Vale lembrar, por fim, que os sentimentos podem ser cultivados no contexto de um namoro santo, isto é, casto e orientado para a aliança matrimonial. Nesse caso, o relacionamento estará de acordo com o plano de Deus, e esse amor deverá ser alimentado diariamente.