O fruto da sabedoria gera o desejo de justiça e de paz. É nesse sentido que a proposta do Reino vai se consolidando.
No transcurso da história do povo de Deus, nem sempre a justiça e paz aconteciam, pois os relatos bíblicos transmitem muita violência e injustiça, muitos conflitos por terra, por um espaço, e é possível ver também nesses relatos que Deus tem um papel de justiceiro, vingador, um Deus sanguinário; esse Deus, conforme os relatos, está com o seu “povo escolhido”. Não se pode ficar preso a tais relatos, pois, como já mencionado, isso foi a história de um povo que lutava por seus objetivos, tinha seus motivos; não se pode condená-lo, mas também não se deve concordar, deve-se respeitar a experiência da história do povo de Israel.
Observando o contexto da vida do povo de Israel é possível perceber o desejo de uma vida justa e fraterna. A experiência que o povo tem de Deus é que Ele estará sempre presente na vida de seu povo: “Vou firmar uma aliança. Diante de todo o teu povo, realizarei maravilhas, tais como não foram criadas em nenhuma parte sobre a terra e em nenhuma nação” (Ex 34,10). Iahweh criou um povo do nada e o libertou do poder egípcio, agora o recriará e o resgatará de seu desterro. Isso é possível e certo porque Ele é o Todo-Poderoso, o Criador dos Céus e da Terra, assim como cumpridor de sua promessa e o sustentador de sua aliança (cf. Is 40,22-28; 42,5-6; 44,24-26; 51,9-11). Com essa perspectiva pode-se projetar um reino de justiça e de paz, pois o Senhor Deus está com o povo protegendo e sendo fiel à sua aliança.
Para que esse reino chegue é preciso compreender todo o processo histórico, não se pode negá-lo, pois é a base, um mergulho na história e faz relembrar a experiência que o povo teve. Nessa memorização, destacam-se duas categorias que concretizam o Reino: a promessa e a aliança. É por meio delas que o povo de Israel construiu a sua vida de fé, acreditando na promessa feita por Deus aos seus antepassados.
No transcurso da história humana, percebe-se concretamente a fé no Deus de Israel se universalizando e, na mesma sequência, a esperança no Reino é para todos os povos. Esse é o Reino de Deus esboçado no Antigo Testamento e clareado no Novo Testamento. O Reino que é, em última instância, um dom de Deus, fonte de todos os demais bens. Isso se consolida quando percebemos que, dotados de alma racional e criados à imagem de Deus, todos os homens têm a mesma natureza; deve-se, portanto, reconhecer cada vez mais a igualdade fundamental entre todos.
O Reino não é algo definitivo, pronto, ele é construído gradativamente na história do povo de Deus. É moldado gradualmente, não cai do céu, visto que é nessa perspectiva que o povo de Deus vive a sua fé, criando assim expectativas do reino prometido onde todos têm vida digna, justiça e paz.
Sendo assim, o processo histórico, mesmo que de forma elementar, apresenta marcos essenciais para a compreensão do Reino como dom. A inspiração do Reino sempre vem de Deus, senão seria apenas uma mera instituição, por isso, o Reino de Deus também é força humana, ou seja, toda ação de Deus requer uma reação humana. No entanto, Deus se revela por amor gratuito, não como resposta à ação dos homens. O Reino de Deus, dessa forma, exige conversão, reação, comprometimento e resposta: os pobres precisam lutar contra a opressão.
Por fim, o Reino de Deus é realidade dialógica: para acontecer deve o homem, livre e responsável pela história, acolhê-lo gratuitamente, comprometendo-se com esse dom, engajando-se social e politicamente, isto é, em sua totalidade, para que o Reino se torne a Boa-Nova: provocando alegria, confiança e esperança.
*Padre Flávio José, sjc é sacerdote religioso da Sociedade Joseleitos de Cristo. Atua como vigário paroquial da Paróquia Nossa Senhora de Fátima, na cidade-satélite do Gama (DF), e é assessor executivo das Novas Gerações e da Missão Jovem na Amazônia, da Conferência dos Religiosos do Brasil (CRB).