Novembro chega devagar, com leve clarão de velas acesas e a lembrança dos que já se foram. No primeiro dia, a Igreja nos faz erguer os olhos para o Céu: a Festa de Todos os Santos nos mostra uma multidão que ninguém pode contar, “de toda nação, tribo, povo e língua” (Ap 7,9), de pé diante do trono do Cordeiro. Não são apenas os nomes famosos dos altares, são avós que rezavam em silêncio, mães que trabalhavam sem reclamar, homens e mulheres comuns que um dia entenderam que a salvação “é obra de nosso Deus” (cf. Ap 7,10) e não mérito de ninguém. No dia seguinte, visitamos os cemitérios; não para chorar como quem não tem esperança, mas para agradecer o que partilhamos e lembrar que a morte, para quem ama é porta, não muro.
É bonito pensar que o mês que começa com essa memória termina com uma espera. Novembro é quando o ano litúrgico se despede e o Advento bate à porta. Nas últimas semanas, a Palavra insiste num único apelo: “vigiai”. As dez virgens esperam o esposo com as lâmpadas acesas (cf. Mt 25,1-13); os servos recebem talentos e são convidados a fazê-los render (cf. Mt 25,14-30); no fim, Cristo Rei nos ensina que o juízo não se mede por grandes discursos, mas por gestos pequenos: “Tive fome e me destes de comer; tive sede e me destes de beber” (Mt 25,35). Tudo o que fizemos a um pequenino foi a Ele que fizemos. Vigiar não é ficar de braços cruzados esperando o futuro, é encontrar o Senhor no grito do pobre, no doente que espera nossa visita, em casa, na voz de quem nos pede atenção.
Vivemos um tempo que corre, que enche os dias de ruído e de pressa. As preocupações da vida pesam no coração (cf. Lc 21,34). A gente se ocupa, distrai, esquece do essencial. O silêncio assusta, então, corremos para as telas, para o barulho, para qualquer coisa que nos impeça de parar e pensar.
O Senhor não vem com estardalhaço, não anuncia sua chegada nos jornais ou no time das redes sociais. Ele chega devagar, como quem bate à porta, e espera encontrar a casa em ordem e o coração desperto.
No meio desse caminho, a Igreja nos mostra Maria. No dia 21, celebramos a apresentação da Virgem no templo. Ela, que guardava tudo no coração, ensina a nós que o mais importante não são os laços de sangue, mas fazer a vontade do Pai (cf. Mt 12,50). Maria é quem melhor soube esperar. Foi ela quem preparou, em silêncio, a manjedoura onde o mundo receberia o Salvador.
Advento é isso: parar, limpar o coração, preparar o caminho. Que a chegada do Natal nos encontre vigilantes e de coração aberto, prontos para acolher aquele que veio salvar o que estava perdido (cf. Lc 19,10).
NOTAS MARIANAS
O Rosário de Nossa Senhora
“O Rosário é, por natureza, uma prece orientada para a paz, precisamente porque consiste na contemplação de Cristo, Príncipe da paz e “nossa paz” (Ef 2,14). Quem assimila o mistério de Cristo – e o Rosário visa a isso mesmo – apreende o segredo da paz e dele faz um projeto de vida. Além disso, devido ao seu caráter meditativo com a serena sucessão das ave-marias, exerce uma ação pacificadora sobre quem o reza, predispondo-o a receber e experimentar no mais fundo de si e a espalhar ao seu redor aquela paz verdadeira que é um dom especial do Ressuscitado (cf. Jo 14,27; 20,21).” (João Paulo II, Rosarium Virginis Mariae [RVM], 40)