“A Igreja vietnamita com os seus mártires e mediante o seu testemunho pôde proclamar a sua vontade e o seu empenho de não repelir as tradições culturais e institucionais legais do país; ao contrário, declarou e demonstrou que quer encarnar-se nelas, contribuindo com fidelidade para a verdadeira edificação da pátria¹.”
O atual Vietnã abrange três antigas regiões: Tonquim, no norte; Anam, no centro; e Cochinchina, no sul. O primeiro anúncio do cristianismo chegou à Cochinchina por obra dos missionários portugueses e espanhóis no início do século XVI, mas só no século seguinte começou a tomar consistência.
Uma história gloriosa
Um dos missionários, Alexandre de Rhodes, é considerado o apóstolo fundador dessa jovem Igreja asiática. Foi ele que contribuiu para a codificação do alfabeto da língua vietnamita e fundou as famosas “casas de Deus”, onde acolhia e educava os jovens que desejavam dedicar toda a sua vida à difusão do Evangelho em sua terra, assumindo, por esse motivo, o voto de castidade. O seu trabalho revelou-se preciosíssimo, sobretudo quando sobrevieram as perseguições. Em 1645, o Padre de Rhodes foi expulso, mas seus discípulos continuaram a obra evangelizadora.
Em 1669, os jesuítas retornaram e permaneceram no país até a supressão da Companhia de Jesus, em 1773. Com eles vieram também os padres dominicanos da província de Manila, nas Filipinas, e os sacerdotes das Missões Estrangeiras de Paris.
A comunidade cristã havia crescido e a Santa Sé constituiu dois vicariatos apostólicos em Tonquim: um na parte ocidental, confiado às Missões Estrangeiras de Paris, e outro na parte oriental, confiado aos padres dominicanos.
Os sacerdotes das Missões Estrangeiras assumiram o cuidado particular das “casas de Deus”, fundaram uma congregação feminina, as Amantes da Cruz, e iniciaram com sucesso a formação do clero local.
Tudo isso acontecia em meio às perseguições. Entre 1625 e 1886 foram promulgados por volta de 53 editos contra os cristãos, com a morte de aproximadamente 130 mil fiéis. Desses, 117 foram canonizados por João Paulo II.
Durante o reinado de Gia-Long (1802-1820), que reuniu em um só Estado Tonquim e Cochinchina, os cristãos tiveram um período de paz. Quando o poder passou para as mãos de seu filho, Minh-Manh, a perseguição tornou-se impiedosa, condenando à morte até quem ousasse esconder os cristãos. Dos 117 mártires canonizados, 58 foram condenados por Minh-Manh.
Outro rei particularmente contrário aos cristãos foi Tuc-Duc, que reinou de 1847 a 1883. Por causa da política colonial francesa, ele nutria uma profunda aversão a tudo o que fosse europeu. Não conseguindo distinguir a fé cristã da política ocidental, propôs-se a exterminar de seu reino o estrangeiro e sua religião.
A perseguição de Tuc-Duc
Tuc-Duc estabeleceu que quem colaborasse para a captura de um missionário receberia uma recompensa de trezentas onças de prata. O missionário deveria ser atirado no rio depois de ter o crânio destroçado.
Os sacerdotes locais e os catequistas estrangeiros eram degolados, enquanto os catequistas do lugar recebiam no rosto a marca “ta dao”, que significa “falsa religião”, sendo assim expostos ao desprezo público. Os demais cristãos, se quisessem salvar suas vidas, deveriam renegar a fé, pisando a cruz diante dos juízes.
No edito desse rei, lê-se: “A doutrina de Jesus vem dos europeus; ela proíbe o culto dos antepassados e a adoração dos espíritos. Para enganar o coração dos homens e fascinar os adeptos, ela fala do Céu e de uma água santa. Aqueles que pregam essa má doutrina, sabendo que a lei do reino não pode tolerar semelhantes erros, representam aos olhos do povo a imagem do suplício de Jesus, seu chefe, para seduzir os ignorantes e fazê-los enfrentar a morte sem arrependimento… Quando os cristãos são denunciados são punidos sem misericórdia, mas esses imbecis estão tão profundamente cegos que um grande número permanece ainda agarrado a esta má doutrina²”.
Diante da firmeza dos cristãos, Tuc-Duc decretou a dispersão dos católicos, separando os maridos das mulheres e os filhos dos pais, mandando-os para regiões distantes, entre os pagãos, e confiscando todos os seus bens. Além disso, fazia estampar na face direita do rosto as letras “ta dao” e, na face esquerda, os nomes da região para onde eram enviados.
Calcula-se que, naquele período, desapareceram cerca de 50 mil cristãos, embora o decreto não tenha sido aplicado ao pé da letra em todas as províncias do reino.
O testemunho dos mártires
Dos 117 mártires canonizados, oito são bispos, cinquenta são sacerdotes e 59 são leigos. Quanto à nacionalidade, 96 são vietnamitas, onze são espanhóis e dez são franceses.
Entre os leigos, encontram-se muitos pais de família, uma mãe, dezesseis catequistas, vários chefes de comunidade, quatro médicos e seis militares. A seguir, algumas notícias sobre suas vidas.
Santo André Dung-Lac
André Dung-Lac nasceu no norte do país em 1795. Tornou-se catequista e, depois, sacerdote. Foi martirizado em 1839 e encabeça a lista no calendário litúrgico tanto pela veneração de que desfruta em seu país quanto pelo exemplo luminoso que deu durante toda a vida.
São Paulo Lê-Bao-Thin
Depois de estudar no seminário, Paulo Lê-Bao-Thin foi enviado, ainda antes de ser sacerdote, como missionário ao vizinho Laos.
Em 1841 foi aprisionado e condenado ao estrangulamento, mas a sentença foi revogada devido a uma anistia geral. Seu bispo ordenou-o sacerdote e lhe confiou o seminário de Vinh-Tri. Nesse período, escreveu dois livros: as Homilias para uso dos sacerdotes e o Compêndio da doutrina cristã para uso dos catequistas.
Aprisionado novamente em 1857 foi decapitado depois de um breve processo. Em uma carta aos seminaristas de Ke-Vinh, escrita durante seu aprisionamento, testemunhou: “Eu, Paulo, prisioneiro pelo nome de Cristo, quero fazer-vos conhecer as tribulações nas quais cotidianamente estou imerso para que, inflamados pelo amor divino, eleveis comigo os vossos louvores a Deus (…). Este cárcere é verdadeiramente a imagem do inferno: aos cruéis suplícios de todo gênero, como os cepos, as cadeias de ferro, as cordas, acrescentam-se o ódio, as vinganças, as calúnias, as palavras obscenas, as acusações falsas, maldades, juramentos iníquos, maldições e finalmente angústia e tristeza (…). No meio destes tormentos (…), pela graça de Deus, estou cheio de alegria e de júbilo, porque não estou sozinho, mas Cristo está comigo (…). Eu vos escrevo tudo isso para que a vossa e a minha fé formem uma só coisa. Enquanto se enfurece a tempestade atiro a âncora até o trono de Deus: esperança viva, que reside no meu coração³”.
Santa Inês Lê-Thi-Than
Mulher de um agricultor e mãe de seis filhos, todos educados na fé cristã, Inês Lê-Thi-Than foi encarcerada porque hospedava em sua casa os missionários que visitavam os cristãos do vilarejo. Quando a polícia chegava, ela os escondia em uma cisterna vazia.
Separada do marido e dos filhos foi torturada várias vezes, mas não renegou a fé. Morreu no cárcere em 12 de julho de 1841, depois de uma grave doença.
Santos Domingos Dinh-Dat, Agostinho Huy e Nicolau Thê
Particularmente significativa é a história de três militares da província de Nam-Dinh, no tempo do rei Minh-Manh: Domingos Dinh-Dat, Agostinho Huy e Nicolau Thê.
Acusados de serem cristãos, não negaram sua fé e foram colocados na prisão. Durante um ano inteiro foram submetidos a frequentes torturas para que renunciassem ao cristianismo. Como não conseguiram fazê-los abandonar a fé, os torturadores recorreram a um engano, dando-lhes uma bebida com uma substância entorpecente.
Sob o efeito da droga, os três assinaram, sem perceber, uma declaração de renúncia à fé. Cada um recebeu uma soma de dinheiro e foi libertado. Ao chegarem a suas casas, tomaram conhecimento do engano.
Agostinho e Nicolau foram a Huê, a capital, relataram o ocorrido, devolveram o dinheiro ao rei e pediram para ser julgados segundo as leis do Estado.
Encarcerados, receberam duas folhas: uma com uma série de injúrias contra Jesus e a promessa de libertação e outra com uma lista de acusações e a condenação à morte. Os dois soldados não hesitaram e assinaram a folha de condenação.
Conduzidos ao alto-mar foram mortos e lançados à água em 13 de junho de 1839.
Domingos não pôde acompanhar seus companheiros porque foi retido à força em casa pelos parentes. Assim que conseguiu, apresentou-se às autoridades locais, devolveu o dinheiro e professou sua fé. Também foi condenado à morte.
Fidelidade à fé e à própria cultura
Na homilia da canonização dos mártires vietnamitas, João Paulo II destacou uma característica particularmente significativa da experiência dessa Igreja: “Os mártires vietnamitas (…) semeando entre as lágrimas, na realidade iniciaram um diálogo profundo e libertador com a população e com a cultura da sua nação… (Eles) afirmaram com vigor sua vontade de lealdade às autoridades do país, sem contrariar tudo o que era justo e reto; ensinaram a respeitar e a venerar os antepassados, segundo os costumes da sua terra, à luz do mistério da ressurreição”.
Referências bibliográficas
¹JOÃO PAULO II. Homilia da canonização dos mártires vietnamitas. Citado em: LODI, E. I santi del calendario romano. Cinisello Balsamo: Ed. Paoline, 1990. p. 627.
²PETTINATO, G. I santi canonizzati del giorno. v. XI. Udine: Edizione Segno, 1991. pp. 283-284.
³PAULO LÊ-BAO-THIN. Carta aos seus seminaristas. In: Liturgia das horas.