Janeiro se abre como uma nova porta: é início de um novo ano, tempo de expectativas, promessas silenciosas e desejos de renovação. Na liturgia, esse nascer simbólico se encontra com uma manifestação ainda mais abençoada: a Epifania do Senhor, a festa da luz que rompe a escuridão e revela ao mundo o rosto misericordioso do Pai.
As palavras do profeta Isaías ressoam com particular força neste início de 2026: “Levanta-te, sê radiosa, eis a tua luz! A glória do Senhor se levanta sobre ti” (60,1). É um convite, ou talvez um despertar, para reconhecer que a verdadeira claridade que guia nossos passos não nasce de nossas certezas ou planejamentos, mas da presença do Senhor que se levanta sobre nós. Mesmo quando “a noite cobre a Terra”, Deus faz despontar uma aurora que nenhuma sombra consegue apagar.
Essa luz, que em Belém brilhou de forma tão humilde e desarmada, continua a atrair todos os povos. São Paulo recorda aos Efésios que o mistério outrora oculto é revelado: todos, judeus e pagãos, são chamados a participar da mesma promessa. A Epifania é, portanto, a festa da universalidade da graça, o anúncio de que ninguém está excluído da ternura de Deus.
São Mateus nos apresenta os magos, homens de busca, atentos aos sinais do Céu e disponíveis para partir. Eles deixam suas terras, seus esquemas e suas seguranças para seguir uma estrela. Talvez seja essa a grande mensagem para o início deste novo ano: somente quem se põe a caminho encontra Cristo; somente quem aceita percorrer “outro caminho”, como fizeram os magos ao voltarem para sua terra, é capaz de deixar-se transformar pela luz de Deus.
Enquanto os pastores ofereceram aquilo que tinham, os magos ofereceram ouro, incenso e mirra. Deus acolheu a todos. Assim também conosco: não importa se oferecemos muito ou pouco, Ele vê o coração. Neste 2026 que começa, cada um de nós é convidado a apresentar ao Senhor os seus dons, sua história, suas fragilidades e seus desejos, com a confiança de que Ele recebe tudo com amor.
Janeiro traz também outras celebrações que completam esse horizonte de luz: a Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus, que inaugura o mês recordando-nos que a primeira a acolher a Luz foi a mãe que a trouxe ao mundo; a Festa do Batismo do Senhor, na qual o Pai manifesta sua voz sobre Jesus e sobre nós, seus filhos; e ainda a Conversão de São Paulo, sinal de que a luz do Cristo pode transformar completamente uma vida, mesmo quando parece distante.
O início do ano costuma trazer planos, resoluções, expectativas, mas a liturgia deste tempo nos recorda que a verdadeira novidade vem de Deus. A Epifania não é apenas um episódio antigo, mas uma dinâmica sempre atual: Deus continua a manifestar-se, a enviar estrelas, a abrir caminhos inesperados. Cabe a nós levantar os olhos, como pede Isaías, e deixar-nos iluminar.
Que a luz de Cristo, luz que não ofusca, mas guia, não invade, mas convida, brilhe sobre nossas famílias, nossas comunidades e sobre cada passo de 2026. Que este novo ano seja para todos nós como a estrela para os magos: um sinal que aponta sempre para o Cristo, para que possamos encontrá-lo, adorá-lo e nos transformar, seguindo “um caminho novo” construído pela esperança, pela paz e pela fraternidade.
NOTAS MARIANAS
Sinal da cruz
Fazemos o sinal da cruz para lembrar que fomos salvos pela cruz de Cristo (cf. 1Jo 3,5; 4,10) e batizados em nome do Deus Trino: Pai, Filho e Espírito Santo (cf. Mt 28,19). É uma prática muita antiga da Igreja, pois já no século II Tertuliano recomendava: “Quando nos pomos a caminhar, quando saímos e entramos, quando nos vestimos, quando nos lavamos, quando iniciamos as refeições, quando vamos nos deitar, quando nos sentamos, nessas ocasiões e em todas as nossas demais atividades, persignamo-nos a testa com o sinal da cruz” (160-220 d.C.).