Este é um mês que nos acolhe em um tempo de graça e de travessia, em que a Igreja, com sabedoria materna, conduz-nos pelos passos da Quaresma até a Semana Santa. Não se trata apenas de cumprir um calendário religioso, mas de permitir que Deus nos eduque por dentro, purificando desejos, intenções e escolhas. Nesse caminho, a liturgia nos recorda que a fé autêntica nunca é apenas sentimento: ela se torna decisão, como a de Abraão, que parte confiando na Palavra, e se torna escuta, como no Tabor, quando o Pai nos aponta o essencial: “Ouvi-o”.
Ao longo das semanas, a Palavra nos chama a uma conversão concreta, marcada pela misericórdia, pelo perdão e pelo serviço humilde. Somos chamados a abandonar a religião das aparências e a entrar na verdade do coração. Jesus desmascara a incoerência de “dizer e não fazer” e nos recorda que o maior, no Reino, é aquele que se faz servo. Em tempos de julgamentos rápidos e durezas justificadas, o Evangelho nos pede a coragem da caridade: não condenar, perdoar de todo o coração, repartir. A Quaresma, assim, deixa de ser um esforço isolado e passa a ser um modo novo de viver: mais fraterno, mais simples, mais fiel.
Nesse percurso, ressoa com força o tema da sede: a sede do povo no deserto e a sede da samaritana. Cristo apresenta-se como água viva, capaz de saciar o que o mundo não alcança. Ele toca as áreas cansadas da nossa história e nos chama a uma confiança madura, que crê mesmo sem ver “sinais”. A fé cristã não nega as tribulações, mas nelas aprende a dizer “Deus está comigo”. A cada cura, a cada reencontro, a cada convite à vida nova, o Senhor nos mostra que o seu amor não é teoria, é presença que restaura.
Caminhamos também sob uma luz particularmente querida à Revista Ave Maria: a luz de Maria, a mulher da escuta e do “sim”. Na anunciação, contemplamos a mãe que acolhe o mistério com responsabilidade e confiança: “Faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1,38). Com ela aprendemos que a fé não elimina perguntas, mas transforma perguntas em entrega. Ao lado de São José, guardião da Sagrada Família e patrono da Igreja, vemos a espiritualidade do cotidiano: servir sem ruído, proteger sem impor, conduzir sem ocupar o centro.
Às portas da Semana Santa, a liturgia nos coloca diante do essencial: Cristo não veio condenar, mas salvar; não veio esmagar, mas levantar. Ele chora por Lázaro e chama à vida; diante da acusação, responde com misericórdia; no Domingo de Ramos, entra na cidade não com violência, mas com a força silenciosa do amor obediente. A Quaresma termina onde começa a esperança: na entrega do Filho e na fidelidade do Pai.
Que este mês de março nos encontre e nos renove como Igreja em saída, pastoralmente atenta às dores do povo e interiormente disponível à graça. Com Maria, caminhemos rumo à Páscoa com corações mais livres, mais misericordiosos e mais firmes na fé. Quando a caminhada pesar, repitamos com simplicidade filial: “Deus proverá”.
NOTAS MARIANAS
Sinal da cruz
Fazemos o sinal da cruz para lembrar que fomos salvos pela cruz de Cristo (cf. 1Jo 3,5; 4,10) e batizados em nome do Deus Trino: Pai, Filho e Espírito Santo (cf. Mt 28,19). É uma prática muita antiga da Igreja, pois já no século II Tertuliano (160-220 d.C.) recomendava: “Quando nos pomos a caminhar, quando saímos e entramos, quando nos vestimos, quando nos lavamos, quando iniciamos as refeições, quando vamos nos deitar, quando nos sentamos, nessas ocasiões e em todas as nossas demais atividades, persignamo-nos a testa com o sinal da cruz”.