Você vive ou apenas se expõe? Os malefícios da superexposição da vida nas mídias

Ter uma rede social e postar fotos já virou algo extremamente comum nos dias de hoje, tanto é que alguém que não tem um perfil nessas plataformas mais famosas é visto como alguém estranho, alheio ao mundo. Precisamos primeiro entender que a realidade à qual pertencemos foi construída, o que é comum hoje seria altamente estranho se voltássemos algumas décadas atrás, por isso, podemos nos perguntar se essa realidade atual nos faz bem ou não ou qual a medida saudável da exposição nas redes.

Para refletir sobre o assunto eu deixo outra pergunta: quando uma experiência se torna válida para você? O interessante sobre analisar isso é que para a imensa maioria seria impensável visitar um local turístico e não postar que ao menos esteve por lá. Fica uma sensação estranha de que para concretizar essa vivência é preciso colocar nas redes sociais, afinal, ficará só para mim o que eu vivi?

O filósofo francês Guy Debord explora de maneira quase premonitória, ainda nos 1960, que viveríamos o que ele chama de “sociedade do espetáculo”. Deixamos de ser para ter e agora deixamos de ter para apenas parecer. A vida torna-se um produto de consumo visual, ou seja, em vez de você simplesmente curtir um pôr do sol, você o reproduz em suas redes, abrindo o espetáculo aos outros. Qual o problema disso? A necessidade de expor, na maioria dos casos, rouba a presença.

A presença, por mais simples que for seu conceito, é a grande parcela que nos faz seres humanos, no entanto, a superexposição nas mídias, o consumo desenfreado de conteúdo curto ao longo do dia, a necessidade de manter o perfil atualizado, responder a comentários e projetar sucesso nos hiperestimula. Isso gera um esgotamento psíquico, pois a vida privada (o “interior”) perde seu espaço de refúgio e torna-se vitrine. A superexposição é uma forma de trabalho voluntário, como menciona Byung-Chul Han, não havendo, assim, espaço para o descanso.

Estamos submersos em tantas tarefas diárias, necessidades vãs de postar ou consumir conteúdos que vamos nos assemelhando aos animais ou. como diria Han, “animal laborans”, mencionado em Sociedade do cansaço (2017). O animal na selva precisa comer, vigiar a prole e cuidar dos predadores simultaneamente, ele nunca pode mergulhar na contemplação. Para contemplar é preciso de presença, verdadeira e devota no agora, sem validação, performance ou lucro, somente a experiência pela experiência.

Praticar essa presença contemplativa é a chave para atingir esse equilíbrio com as mídias de maneira geral. Procure vivenciar as experiências de forma ingênua, buscando o que há ali, no coração do momento. Caso faça sentido, sem perturbar sua vida, poste nas redes como um acréscimo da sua experiência e não para provar ou validar sua vida.

*Francisco Medeiros Andrade é psicólogo clínico e atende de maneira on-line. Para mais informações e conteúdo, acesse o Instagram @psicologofrancisco.

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