“Aquele que deseja estar sempre com Deus deve orar e ler continuamente [a Sagrada Escritura]. Quando oramos estamos falando com o próprio Deus; quando lemos, ao contrário, é Deus quem fala conosco. (…) O bom leitor não se preocupa tanto com aquilo que lê, mas antes em colocá-lo em prática”: estas são palavras atribuídas a Isidoro de Sevilha.
Isidoro nasceu em uma família afortunada, ainda que marcada pela dor. Seu pai, Severiano, prefeito de Cartagena, na Espanha, vivia feliz com sua mulher e os três filhos – Leandro, Fulgêncio e Florentina – quando soube que chegavam como um furacão os godos. Além dos danos materiais, por onde eles passavam traziam consigo a heresia ariana. Para um prefeito cristão como ele, a melhor coisa que tinha a fazer era emigrar para um lugar mais seguro. Mudou-se para Sevilha: estava menos rico, mas assegurava a educação cristã dos filhos.
INFÂNCIA E JUVENTUDE
Lá, Isidoro nasceu aproximadamente em 560 e, ainda criança, ficou órfão. Para sua felicidade, a família era muito unida e o irmão Leandro logo assumiu o lugar do pai e Florentina, o da mãe. Ao menino não faltou nada: nem o afeto da família nem os professores para os estudos na escola episcopal ou monástica.
Em casa, já se respirava pela tradição um ar puro e erudito dos ambientes eclesiais e era tal a preparação humana e cristã de seus membros que, com o tempo, Fulgêncio se tornou bispo de Astigi (Ecija); Leandro, arcebispo de Sevilha; e Florentina, uma importantíssima monja em um mosteiro onde abadessa parecia ser antes a governanta de sua casa.
O ESTUDIOSO
Quanto a Isidoro, parecia que tinha nascido para os estudos, pois não chegava um livro em suas mãos que não fosse logo devorado como uma refeição saborosa. Qual seu método de estudo? Ouçamos o que ele escreverá mais tarde: “Aquele que lê procura em primeiro lugar compreender aquilo que lê. Em seguida tenta exprimir da maneira mais conveniente aquilo que aprendeu”.
Naqueles tempos, os estudos – mesmo quando eram sobre ciências profanas – eram todos direcionados para a Teologia ou mais exatamente para as páginas sagradas, isto é, para compreender e colocar em prática as Sagradas Escrituras. Isidoro estudava com paixão nessa direção e tinha o dom de harmonizar dentro de si tudo quanto estudava e de transmiti-lo a todos numa linguagem bem acessível.
Pesquisador incansável de toda a sabedoria antiga, grega, romana e cristã, escreveu pelo menos dezessete obras e se tornou incontestavelmente um verdadeiro mestre em sua época. Sua obra mais famosa foi o Libro delle etimologie, dividido em vinte volumes pelo seu discípulo São Bráulio, bispo de Saragoça. É considerada a primeira verdadeira enciclopédia cristã, estudada em todas as melhores escolas teológicas medievais, tanto que fez Dante dizer que o mundo do saber estava todo “sob a ardente inspiração de Isidoro”.
Das outras obras citamos somente algumas: Storia dei goti; Uffici divini, em que explica a antiga liturgia espanhola; Regola dei monaci para reavivar a observância da autêntica disciplina monástica.
O DOUTOR DA FÉ
Isidoro não foi só um fiel transmissor da fé dos padres da Igreja, mas também um obstinado defensor de sua pureza. Na Espanha de seu tempo, o rei visigodo Leovigildo apoiava a heresia ariana, mais por interesse político que por motivos religiosos, colocando em perigo a autêntica fé em toda a península Ibérica.
Quando seu filho Hermenegildo se converteu à verdadeira fé foi um lampejo de esperança e Leandro, já bispo de Sevilha, foi enviado a Constantinopla para tratar com o imperador sobre essa questão. Lá teve a oportunidade de estreitar profunda amizade com o apocrisário, o representante oficial do pontífice romano junto ao imperador, que se tornou depois o Papa Gregório Magno.
Infelizmente, nesse meio tempo, o partido contrário a Hermenegildo convenceu o rei a assassinar seu filho com intenção de obrigar o povo a aceitar a heresia, ao passo que Leandro era exilado.
Em seu leito de morte, o rei atormentado por remorsos pediu perdão pelo seu delito e suplicou ao seu sucessor, Recaredo, que reparasse o mal feito, levando o seu povo para a verdadeira Igreja, a de Leandro.
Isidoro, voltando para casa, não perdeu tempo e falou abertamente em defesa da verdadeira fé aos bispos e príncipes, propondo a celebração do terceiro concílio de Toledo para pacificar de novo toda a península.
O concílio, de fato, aconteceu no ano de 589 e foi presidido por Leandro. Naquela ocasião, Isidoro pronunciou um memorável discurso sobre a unidade da fé. Também os godos seguiram em massa o exemplo do novo rei e desapareceu o perigo ariano na Espanha.
O PASTOR
Leandro, o metropolita de Sevilha, morreu no ano de 601 e Isidoro foi eleito para assumir o seu lugar. O homem dos livros se tornou pastor de almas.
Embora cumprindo com zelo o novo trabalho, seus horizontes moviam-se para além dos limites da sua diocese, pois muitos bispos e mesmo reis sempre pediam a sua intervenção para dirimir questões eclesiásticas e civis e para promover sínodos e concílios. Precisou resolver a questão de Gregório, um bispo que professava a heresia monofisita e que, perseguido na Síria, refugiou-se na Espanha, onde estava criando um pouco de confusão. Isidoro aproximou-se dele e o convenceu a se emendar.
A obra mais preciosa de Isidoro, depois da suas Cartas, é sem dúvida o quarto concílio de Toledo no ano de 633. Nele foi conseguido entre os bispos um acordo pela uniformidade litúrgica em toda a península. Nesse acontecimento, Santo Isidoro de Sevilha foi muito importante, pois se sabe como as diversidades litúrgicas sempre foram motivo de discórdias doutrinais. Exortou-se, portanto, cada diocese a instituir uma escola de formação para o clero a exemplo daquela que ele há alguns anos levava adiante com tanto sucesso em Sevilha, de onde saíam homens preparados não só na doutrina, mas também espiritualmente; isso possibilitou um clero celibatário que tinha acabado com tantos abusos na Igreja. Dessa forma, o concílio reafirmava a validade do celibato não só para os bispos, mas também para os presbíteros.
Tratou-se até mesmo de questões políticas para manter a unidade da população da península. Naquele momento, todos reconheceram como rei Sisenando, mas, depois de sua morte, o rei seria eleito democraticamente por uma assembleia, formada pelos príncipes do reino e dos bispos. Legislou-se também sobre os judeus, numerosos no território. O concílio estabeleceu que eles não podiam ser obrigados a se tornar cristãos.
Depois de todo esse esforço e daquele concílio que deu frutos duradouros também fora do território ibérico, Isidoro viveu ainda três anos.
OS ÚLTIMOS DIAS
São Bráulio descreve assim a morte de seu amado mestre: “Percebendo que se aproximava o fim, duplicou as esmolas com tal profusão que, durante os últimos seis meses de sua vida, de todas as partes se via chegar a sua casa uma multidão de pobres da manhã até a noite. Alguns dias antes da morte pediu aos bispos João e Epárquio que fossem ao seu encontro. Permaneceu com eles na Igreja, juntamente com uma numerosa parte do clero e do povo. Quando chegou ao meio do coro, um dos bispos colocou-lhe um cilício e outro, cinzas. Ele, então, levantando as mãos para o céu, orou e pediu em alta voz perdão de seus pecados. Depois, recebeu das mãos dos bispos o corpo e o sangue de Cristo, pediu as orações dos presentes, perdoou os seus devedores e distribuiu aos pobres todo o dinheiro que lhe restava. Tendo voltado para casa, lá morreu em paz no dia 4 de abril de 636. Isidoro edificou a Igreja com o exemplo e a palavra, escrita e falada, sem confiar em si mesmo, mas agindo sob a ação do Espírito Santo, convencido de que ‘Se a doutrina não for sustentada pela graça, mesmo que entre pelos ouvidos, não consegue chegar até o coração. Faz barulho externo, mas não serve para nada. A Palavra de Deus só chega até aos ouvidos e ao fundo do coração quando há intervenção da graça, agindo intimamente e levando à conversão’”.
Somente nesse caso a compreensão não pode ser separada da conversão, pois, “após ter conhecido, devemos sentir a necessidade de colocar em prática as coisas boas que aprendemos”.
No dia 25 de abril de 1722, Gregório XIII o proclamou doutor universal.