O sopro que nos faz um

O ar entra e sai dos pulmões involuntariamente. É um processo mecânico da vida no corpo, independente do estado de espírito: não há corpo vivo sem respiração. Nossas emoções influenciam muito a forma como respiramos, mas nenhuma emoção pode escolher entre respirar ou não. Quando a respiração cessa, não há mais emoção alguma, sinal de que não há mais vida. Já se dizia antigamente que a pessoa “expirou” ao se dar uma notícia de falecimento, ou seja, o processo de vida do corpo foi encerrado.

Também a relação do cantar com a vida é tão direta, corporal, biológica, material e química e envolve o desejo do ser que canta. Por que o desejo? Porque é o único lugar onde o portador de pulmões pode sentir a relação entre corpo e alma, entre matéria e espírito, entre química e psique. O desejo é um lugar solitário, uma solidão que é o abandono de tudo o que não sou eu. O desejo é o lugar onde o eu pode encontrar Deus de fato.

O que é comunhão? É ser portador do mesmo processo do qual ninguém escapa ou escolhe. É onde ninguém muda. Se respirar é condição de vida, cantar em comunidade é respirar o mesmo ar que todos, é estar unido em torno do mesmo propósito, é sentir o encontro do meu desejo com o desejo do outro.

A comunhão é a soma de desejos solitários. A comunhão é a única forma de amar de verdade e de sentir-se amado pelo outro, em que as feridas narcísicas cedem ao nascimento de um novo eu: o eu daquele que canta o canto novo. O canto novo é resultado de solidão e comunhão.

Na comunhão, o canto é sempre novo, porque o amor é infinito: sopra onde quer, é a respiração da alma que jamais sentirá a morte. Desse modo, o cantar se torna vida plena e o verdadeiro coro se faz presente na caridade.

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