“Sou eu, Senhor?” (Mt 26,22)

Abril é o mês em que a liturgia nos conduz ao centro da fé: a entrega de Cristo e a vida nova da ressurreição. Entramos na Semana Santa sentados à mesa com Jesus e os doze. O anúncio da traição não é apenas lembrança histórica, é espelho: “Sou eu, Senhor?” (Mt 26,22). Judas cedeu ao dinheiro e à ocasião “favorável”, mas o Evangelho também mostra um detalhe consolador: Jesus não fecha a porta, chama-o de “amigo” e espera o arrependimento. Quando a amizade com Deus é ferida pelos nossos pecados, Ele não se afasta; acompanha e aguarda a volta.

Na Quinta-feira Santa, o Senhor une o dom maior ao gesto mais humilde. Na mesma noite em que nos deixa a Eucaristia, ajoelha-se e lava os pés. Como se dissesse que quem recebe o pão do Céu precisa aprender o caminho do chão. “Dei-vos o exemplo” não é conselho opcional, é a medida da vida cristã. A comunhão verdadeira pede coração simples, disposto a servir sem alarde, sem superioridade, sem dureza.

Na Sexta-feira Santa, contemplamos o Crucificado ao lado de Maria. Ele carrega a cruz e cumpre as Escrituras por amor. “Tenho sede” (Jo 19,28) e “Tudo está consumado” (Jo 19,30) revelam um amor levado até o fim. Não é a dor pela dor, mas a fidelidade que salva. E a mãe, silenciosa, ensina-nos a permanecer, a não fugir na hora decisiva, a aprender a dar a vida no serviço dos irmãos.

A Vigília Pascal rompe a noite com um anúncio que muda tudo: “Não está aqui: ressuscitou” (Lc 24,6). As mulheres, movidas pela fé que se traduz em amor, recebem a missão de levar coragem aos discípulos fechados pelo medo. A Páscoa, então, prolonga-se: Tomé passa da dúvida à confissão – “Meu Senhor e meu Deus!” (Jo 20,28); Emaús recorda que Cristo caminha conosco mesmo quando não o reconhecemos; e a Igreja primitiva persevera “na doutrina, na fração do pão e nas orações”. Eis o ponto: a alegria pascal precisa virar perseverança.

Este novo mês nos chama a recomeçar: renunciar ao mal com seriedade, amar a verdade, buscar “as coisas do alto” e testemunhar o Ressuscitado com gestos concretos. Se Cristo vive, a fé não pode ser apenas palavras. Que este novo mês nos encontre menos distraídos e mais fiéis: na oração, na Eucaristia, na comunidade e, sobretudo, no amor que se faz serviço.

NOTAS MARIANAS

Sinal da cruz

Fazemos o sinal da cruz para lembrar que fomos salvos pela cruz de Cristo (cf. 1Jo 3,5; 4,10) e batizados em nome do Deus Trino: Pai, Filho e Espírito Santo (cf. Mt 28,19). É uma prática muita antiga da Igreja, pois já no século II Tertuliano (160-220 d.C.) recomendava: “Quando nos pomos a caminhar, quando saímos e entramos, quando nos vestimos, quando nos lavamos, quando iniciamos as refeições, quando vamos nos deitar, quando nos sentamos, nessas ocasiões e em todas as nossas demais atividades, persignamo-nos a testa com o sinal da cruz”.

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