Amizade e namoro: um caminho para o matrimônio e para o céu
Para muitos jovens, o namoro é visto apenas como uma fase passageira ou uma experiência marcada pela rapidez das relações modernas; para os casais católicos, porém, ele pode representar muito mais: um caminho de amadurecimento, amizade, discernimento e preparação para o Matrimônio. A partir da convivência, da fé e da construção diária do amor, o relacionamento se torna uma vocação orientada não apenas para a felicidade na Terra, mas também para o Céu.
Esse é o caso dos casais cariocas Julia Gabriela Meira Cosme e Luan Maurício Souza de Paula, além de Aline e João Paulino. Ambos testemunham que a amizade foi o alicerce para uma caminhada construída com perseverança, diálogo e espiritualidade. No caso de Julia e Luan, a amizade se iniciou na pré-adolescência. Moradores do mesmo condomínio no Rio de Janeiro (RJ), começaram a se aproximar por meio de amigos em comum. O namoro, entretanto, não começou imediatamente. “Do primeiro beijo até a oficialização do namoro foi quase um ano. Éramos muito novos, então, embora tivesse sido pedida em namoro em ocasiões anteriores, tinha receio de aceitar. O pedido e o ‘sim’ só vieram numa comemoração de família em que fomos ‘intimados’ a assumir o compromisso”, conta Julia, entre risos, relembrando que tinham 13 e 16 anos, respectivamente.
Hoje, depois de dez anos de namoro, três anos de noivado e outros três anos de casamento, eles enxergam a trajetória como uma construção paciente guiada pela providência divina. “Passamos juntos pelo colégio, faculdade, primeiro emprego… Tivemos que ter muita perseverança e paciência para respeitar cada fase um do outro. Hoje conseguimos ver que tudo aconteceu no tempo de Deus”, afirmam.
Numa cultura que valoriza relações rápidas, manter o foco no relacionamento comprometido avessos à pressões é algo que Julia e Luan prezam diariamente. “Entendemos que o Matrimônio não é como um contrato que pode ser desfeito diante do primeiro obstáculo. É um compromisso para toda a vida e nós somos diariamente responsáveis por renovar nosso amor um pelo outro”, explicam.
“Na época da adolescência é que sentíamos uma pressão maior, mas hoje em dia não somos tão afetados pelo modus operandi da maior parte da sociedade”, contam.
Frequentadores do Santuário de Nossa Senhora de Fátima, no Recreio dos Bandeirantes, zona oeste do Rio de Janeiro, e da Paróquia Nossa Senhora do Montserrat, em Vargem Pequena, Julia e Luan fazem parte das Equipes de Nossa Senhora (ENS), um movimento internacional de espiritualidade conjugal. “Acreditamos que depois de tantos desafios nossa união só se concretizou e se sustenta pela vontade de Deus em nossas vidas. Por meio das Equipes de Nossa Senhora entendemos a importância de ter uma relação a três: nós dois e Jesus. Sem isso, nenhum Matrimônio se mantém de pé. Isso também significa estar a serviço do outro, esforçar-se diariamente para fazer o casamento dar certo. Cultivamos os dons da nossa vocação matrimonial com os recursos que o movimento nos proporciona”, explicam.
Para eles, algumas atitudes são fundamentais para fortalecer o vínculo entre o casal desde o namoro até o Matrimônio: “Manter sempre o diálogo ativo, alinhar objetivos e expectativas para o futuro mantendo a mesma direção, ter tempo a dois e colocar Cristo como centro do relacionamento”. A busca pelo Sacramento da Confissão também auxilia na autorreflexão: “A Eucaristia nos permite estar em comunhão com Cristo e nos alimenta espiritualmente a cada domingo”.
Julia e Luan acreditam que o maior testemunho é a história construída por eles: “É o que demonstra quanto fomos perseverantes ao longo desses dezessete anos. Construímos degrau por degrau e nosso alicerce sempre foi a misericórdia divina. O amor mútuo no dia a dia do casamento também pode ser um bom exemplo para outros jovens”, aconselham.
Para Aline e João Paulino, a amizade também nasceu dentro da vivência da fé. Ela tradutora, ele economista, construíram uma trajetória até a chegada ao Matrimônio com um ano de namoro, um ano e quatro meses de noivado e agora somam três anos de casados. Eles se conheceram nas Equipes de Jovens de Nossa Senhora (movimento para jovens, instagram.com/ejnsbrasil/) no Rio de Janeiro. Apesar de equipes diferentes eram do mesmo setor e se conheciam de vista até que duas amigas em comum acharam que os dois combinavam e atuaram como “cupidos”. João foi quem tomou a iniciativa de iniciar a conversa e tempos depois fez o pedido de namoro após uma celebração na Paróquia São Marcos, na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, local frequentado até hoje por eles. Desde o início, o casal compreendia o namoro como preparação para algo maior. “Já conversávamos sobre como o namoro deve ser orientado ao Matrimônio, como uma fase de conhecimento que culmina na união matrimonial”, explica Aline.
Na busca por manter o foco em um relacionamento duradouro, relembrar as promessas e o significado do dia do Matrimônio é essencial. “Entendemos que alguns percalços e faltas de entendimento são normais, já que somos pessoas de realidades, criações e hábitos diferentes, o que pode gerar algum atrito eventual, mas nada disso deve ser maior do que a nossa promessa matrimonial. A união do casal deve ficar acima de tudo”, acredita Aline, de 31 anos.
Aline e João entendem que os pilares fundamentais para fortalecer o vínculo são, principalmente, o diálogo e a transparência entre o casal. “Além disso, é importante ter o coração orientado para a doação, a renúncia, o sacrifício. Por fim, consideramos essencial a busca por uma vida de oração em conjunto”, refletem.
Um desafio que o casal destaca e que talvez seja mais um paradigma a ser superado hoje em dia é o medo que os jovens têm de assumir relacionamentos e se envolver, especialmente considerando que o Matrimônio, na visão católica, é um compromisso para a vida inteira: “Notamos que muitos casais de namorados acabam protelando essa decisão, esperando ter a ‘vida arrumada’ e com estabilidade financeira quando, na verdade, a nossa experiência foi a de construir tudo juntos”.
A importância da Eucaristia e da Confissão foi um dos fatores que uniu o casal: “Dentro do casamento, essa vivência se mantém como algo fundamental. Frequentamos a Missa juntos todos os domingos, sendo esse um compromisso inadiável e a maior prioridade do nosso fim de semana”, reforçam.
Tanto João quanto Aline tiveram a criação católica por meio de sólida base familiar. “Desde pequeno, tenho lembrança de sempre ir às missas, fazer catequese e servir na igreja como coroinha. Meus pais também eram frequentadores e participar de grupos da igreja e servir em eventos já fazia parte da minha rotina. O fato de ter crescido nesse ambiente de vida pastoral foi fundamental para mim”, revela João, de 30 anos.
Aline também vem de uma família que professa a fé católica. Ainda assim, o despertar para uma vivência de fé surgiu, de fato, no fim da adolescência, ao participar do Encontro de Adolescentes com Cristo (EAC) e ser voluntária da Jornada Mundial da Juventude (JMJ) em 2013. “Comecei a construir uma caminhada na fé e busquei entender e viver o Evangelho e a doutrina católica, o que certamente foi fundamental para definir meus valores e visão sobre o casamento. A semente da fé, plantada pela minha família na infância, também teve um papel essencial nesse percurso”, analisa ela.
O casal acredita que o significado prático de viver a fé no Matrimônio é encarar a vida a dois como a união de um só corpo em todos os aspectos e isso envolve algumas renúncias. “Penso que, à luz dos ensinamentos da Igreja, essa entrega nos conduz a uma felicidade aqui na Terra, livrando-nos do egoísmo, e colabora para a felicidade eterna no Céu, pois aspiramos à santidade enquanto caminhamos juntos com Deus por meio da vocação que Ele nos conferiu”, ressaltam.
Se pudessem aconselhar jovens católicos em início de namoro, a dica de Aline e João é simples: para eles, uma boa e constante conversa, conhecer o outro, e compartilhar as vivências são atitudes que ajudam na caminhada a dois. “Vivam a castidade, pois ela é uma grande educadora e orienta o casal para o verdadeiro bem. Além disso é essencial entregar tudo a Deus sempre, incluindo a vocação. Não vivam um relacionamento superficial, inclinado para os prazeres passageiros e rasos, e não tenham medo de se comprometer”, aconselha Aline.