O rosto de Jesus no Evangelista João

O quarto Evangelho, sem mencionar sequer uma vez o nome de João, fornece-nos, contudo, algumas notícias sobre sua pessoa. Deve ter sido João o discípulo que, junto com André, seguia o Batista e passou a acompanhar Jesus quando este foi designado pelo Precursor como “Cordeiro de Deus” (Jo 1,35-37).

Do capítulo 13 em diante encontramos diversas vezes a expressão “discípulo que Jesus amava” (cf. Jo 13,23; 19,26; 20,2; 21,7), a qual certamente designa o autor do Evangelho.

Ele foi o único discípulo que presenciou a morte de Jesus no Calvário e, junto com Pedro, foi o primeiro a saber da ressurreição do Mestre.

Conforme diz a primeira conclusão de seu Evangelho, João escreveu para alimentar a fé dos primeiros cristãos, essa fé que conduz à vida eterna em seu nome (cf. Jo 20,31).

Pelos sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas) é-nos bem conhecida a figura de João, o pescador filho de Zebedeu, chamado ao apostolado com seu irmão Tiago Maior (cf. Jo Mt 4,21). Esses dois, com Pedro, formavam o grupo dos três mais íntimos discípulos do Mestre (cf. Jo Mt 17,1; Mc 5,37; Mt 26,37). 

A estrutura do Evangelho de João é a seguinte:

  • Prólogo, ou abertura: a Palavra de Deus se torna existência humana (“carne”): Jesus Cristo (cf. 1,1-18);
  • Os “sinais” de Jesus: é uma coleção de sete obras poderosas que João chama de “sinais” por causa de seu valor profético e que colocam os que os veem diante da decisão de crer ou não crer (cf. 1,19–12,50). Eis os sete sinais, que os sinóticos chamam de “milagres”: transformação da água em vinho nas bodas de Caná (cf. 2,1-11), a cura do filho do oficial de Cafarnaum (cf. 4,46-54), o paralítico na piscina de Bezata (cf. 5,1-9), a multiplicação dos pães (cf. 6,5-15), Jesus caminha sobre o mar (cf. 6,16-25), a cura do cego da nascença (cf. 9,1-7) e a ressurreição de Lázaro (cf. 11,1-45);
  • A “hora” de Jesus: sua “exaltação” em dois sentidos, na cruz e na glória (cf. 13-20). Nesta parte o público é dividido. O primeiro momento (cf. 13-17) se desenrola na intimidade daqueles que creem, os discípulos. Despedindo-se deles, Jesus revela o sentido profundo de sua obra. No segundo momento (cf. 18-20), João evoca a paradoxal “vitória” de Jesus sobre o mundo incrédulo, sua “exaltação” na cruz e na glória da ressurreição;
  • No capítulo 21 há uma segunda conclusão quando Jesus, após a sua ressurreição, apresenta-se à sua comunidade na Galileia e a confia à responsabilidade de Pedro.

Vejam-se, a seguir, alguns temas específicos do Evangelho de João:

  • A Palavra de Deus na carne humana (cf. 1,18);
  • Sinais e símbolos. A linguagem de João é altamente simbólica: Jesus se apresenta como luz (cf. 8,12; 9,5), ressurreição e vida (cf. 11,25), caminho, verdade e vida (cf. 14,6), pastor (cf. 10,11), porta (cf. 10,7.9), pão da vida (cf. 6,35), pão vivo (cf. 6,51). Essas declarações solenes começam com “eu sou”, que lembra o nome divino revelado a Moisés, “Eu sou aquele que sou” (Ex 3,14);
  • A hora de Jesus. João chama “a hora de Jesus” esse momento em que Jesus é, ao mesmo tempo, elevado à cruz e na glória, pois em seu morrer transparece a glória do Pai, que é amor e fidelidade até o fim (cf. 17,1);
  • O Espírito Paráclito e a “memória” de Jesus. Ao despedir-se do mundo, Jesus promete o Paráclito para recordar sua obra e ensinamento e para conduzir a comunidade na verdade plena (cf. 14,15-17; 16,1-15);
  • A mãe de Jesus e as personagens femininas. João menciona a mãe apenas em duas cenas, porém, muito significativas: no primeiro dos “sinais” (cf. 2,1-5) e ao pé da cruz (cf. 19,25-27). Em Caná, a presença ativa de Maria leva os discípulos a acreditarem em Jesus e na cruz Maria se torna mãe da Igreja, representada pelo “discípulo amado”.

As outras personagens femininas são descritas com fina sensibilidade: a samaritana, Marta, Maria de Betânia e, sobretudo, Maria Madalena, presente ao pé da cruz e a primeira a ver o Ressuscitado e a anunciar a ressurreição.

Estas breves, e certamente incompletas, considerações podem nos ajudar a entender a extraordinária riqueza do Evangelho de João.

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