Entre as muitas tradições que enriquecem a vida da Igreja, existe uma que permanece pouco conhecida fora dos mosteiros e conventos: a troca de peixes e azeite entre franciscanos e beneditinos. Trata-se de um gesto simples, mas carregado de história, gratidão e espiritualidade, cujas raízes remontam ao próprio São Francisco de Assis.
Quando Francisco iniciou sua experiência de vida evangélica, por volta de 1210, procurava um lugar onde pudesse reunir os primeiros irmãos. Dirigiu-se inicialmente ao bispo de Assis e aos cônegos de São Rufino, pedindo uma pequena igreja para acolher a nascente fraternidade. Não obteve sucesso. Foi então ao encontro do abade beneditino Dom Teobaldo, que, sensibilizado pelo testemunho daquele jovem convertido, apresentou o pedido à comunidade monástica.
Os monges concordaram em ceder a pequena igreja de Santa Maria dos Anjos, conhecida como Porciúncula. O local, pertencente aos beneditinos do Monte Subásio, tornar-se-ia o coração da espiritualidade franciscana. Ali, Francisco compreendeu sua vocação, acolheu novos irmãos, recebeu Santa Clara e viveu alguns dos momentos mais marcantes de sua trajetória.
A única condição apresentada pelos monges era que, se a fraternidade crescesse, a Porciúncula permanecesse para sempre como casa-mãe da Ordem. O pedido foi fielmente cumprido.
Na Primeira Vida de São Francisco, de Tomás de Celano (1Cel 106), encontra-se o amor de Francisco pela Porciúncula: “Cuidai, filhos, para nunca deixardes este lugar. Se fordes expulsos por uma parte, entrai de novo por outra; pois este lugar é verdadeiramente santo e habitação de Deus. Aqui, quando éramos poucos, o Altíssimo nos aumentou; aqui, com a luz de sua sabedoria, ele iluminou os corações de seus pobres; aqui, como fogo de seu amor, inflamou as nossas vontades”. Assim, ainda hoje, para os franciscanos de todo o mundo, aquele pequeno santuário é o lugar das origens, onde tudo começou.
Outro vínculo importante entre as duas famílias religiosas surgiu com Santa Clara. Após deixar a casa paterna para seguir o ideal evangélico de Francisco, ela e sua irmã Inês foram acolhidas pelas monjas beneditinas da Abadia de São Paulo. Antes mesmo da fundação definitiva de São Damião, as beneditinas ofereceram proteção e apoio às primeiras clarissas.
As Fontes Franciscanas revelam o profundo amor de Francisco pelos lugares sagrados. Em seu Testamento, ele escreve: “O Senhor me deu tal fé nas igrejas que eu simplesmente orava e dizia: Nós vos adoramos, Senhor Jesus Cristo, aqui e em todas as vossas igrejas que estão no mundo inteiro, e vos bendizemos, porque pela vossa santa cruz remistes o mundo” (TEST 4). Essa fé também se manifestou na gratidão para com aqueles que acolheram sua vocação e seus irmãos.
Como sinal desse reconhecimento, nasceu o costume de os franciscanos oferecerem peixes aos beneditinos. A tradição recorda que o próprio São Francisco enviava anualmente um cesto de peixes aos monges, em agradecimento pela Porciúncula. Em retribuição, os beneditinos presenteavam os frades com azeite, símbolo bíblico da bênção, da luz e da alegria.
“E, embora o abade e os monges tivessem concedido livremente ao bem-aventurado Francisco e a seus frades aquela igreja, sem nenhuma exigência ou pagamento anual, todavia o bem-aventurado Francisco, como um bom e experimentado mestre que quis edificar sua casa sobre a pedra firme, isto é, a sua congregação sobre a grande pobreza, mandava todos os anos ele mesmo um cestinho cheio de peixinhos chamados lascas como sinal da maior humildade e pobreza” (Compilação de Assis, 56).
Ainda hoje, em diversas comunidades, especialmente na festa de São Bento, em 11 de julho, e na festa de São Francisco, em 4 de outubro, esse gesto continua sendo realizado. Mais do que uma troca de presentes, trata-se de uma celebração da fraternidade entre dois grandes carismas da Igreja.
Em tempos marcados pelo individualismo e pela competição, o peixe oferecido pelos franciscanos e o azeite oferecido pelos beneditinos continuam a proclamar uma verdade profundamente evangélica: a gratidão preserva a memória, fortalece a fraternidade e faz florescer a obra de Deus na história.
São Bento e São Francisco, rogai por nós!