A contemporaneidade tem sido marcada por uma profunda crise de vínculos, na qual a fragmentação das relações humanas e sociais se intensifica sob a lógica da descartabilidade. A experiência comunitária, que outrora sustentava o sentido de pertença e identidade, cede lugar a formas frágeis de convivência, muitas vezes mediadas pela funcionalidade e pelo imediatismo (Bauman, 2001).
Nesse contexto, a própria experiência religiosa não permanece imune. A ação pastoral, em diversos ambientes eclesiais, corre o risco de se reduzir a práticas operacionais, centradas na execução de atividades, com perda progressiva da dimensão relacional, afetiva e existencial da fé.
Tal cenário evidencia uma tensão interna na vida da Igreja: de um lado, sua vocação essencial de ser sinal e instrumento da comunhão de Deus com a humanidade; de outro, a tentação constante de assumir um modelo organizacional que privilegia a eficiência em detrimento do cuidado e da experiência de fé. Ao perder sua dimensão materna do cuidado, a Igreja corre o risco de se tornar incapaz de responder às feridas do tempo presente, especialmente no que se refere às situações de vulnerabilidade, sofrimento, perda de sentido e exclusão. Recordemos continuamente as palavras do saudoso papa Francisco, ao pedir uma Igreja que fosse “hospital de campanha”, para que jamais se esquecesse de sua função de ser, no mundo, sinal do cuidado de Deus pela humanidade.
É precisamente neste ponto que a reflexão mariológica se revela fecunda. A tradição teológica reconhece em Maria não apenas uma figura devocional, mas um verdadeiro paradigma eclesial. Conforme afirma o Concílio Vaticano II, “a Mãe de Deus é o tipo e a figura da Igreja, na ordem da fé, da caridade e da perfeita união com Cristo” (Lumen Gentium, n. 63). Tal afirmação não se limita a um dado doutrinal, mas aponta para uma dimensão existencial: a Igreja encontra em Maria o modelo de seu próprio modo de ser no mundo, como nos recorda a encíclica Redemptoris Mater.
Nesse horizonte, o símbolo do coração assume centralidade. Na tradição bíblica, o coração não designa apenas a esfera afetiva, mas o núcleo da pessoa, onde se articulam inteligência, vontade e emoção, constituindo o lugar da escuta e da resposta a Deus (Orso, 2016). Em Maria, esse coração revela-se como espaço de acolhimento do mistério, de discernimento e de fidelidade, como testemunha o evangelista Lucas ao afirmar que ela “guardava todas estas coisas, meditando-as no seu coração” (Lc 2,51).
O Coração de Maria manifesta uma forma específica de relação com Deus e com a história: uma relação marcada pela escuta, pela interioridade e pela capacidade de gerar vida a partir do acolhimento da Palavra. Tal dinâmica não permanece circunscrita à experiência pessoal de Maria, mas projeta-se como princípio inspirador para a própria identidade e missão da Igreja.
Diante disso, apresenta-se, neste texto, a discussão sobre o Coração de Maria como um “lugar” revelador de um modelo de Igreja que não se limita a evangelizar em termos funcionais, mas se configura como uma realidade viva que cuida, acompanha processos, protege a vida e gera comunhão.
O Coração de Maria: lugar de escuta, oração e ação
À luz da tradição bíblica, da reflexão teológica contemporânea e do Magistério da Igreja, o Coração de Maria apresenta-se como o lugar paradigmático da interioridade crente. Na antropologia bíblica, o coração constitui o centro da pessoa, onde se articulam inteligência, vontade e afeto, sendo o espaço da escuta e da decisão diante de Deus (Orso, 2016). Em Maria, essa realidade atinge sua expressão mais plena, tornando-se modelo de uma existência totalmente aberta à ação divina.
O primeiro movimento desse coração é a escuta, que se traduz em resposta livre. O fiat da Anunciação, “Faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1,38), manifesta uma adesão consciente ao projeto de Deus. Como ensina o Magistério da Igreja, Maria cooperou com livre fé e obediência na obra da salvação (Lumen Gentium, n. 56). Tal afirmação é decisiva, pois evidencia que a fé não é passividade, mas resposta ativa e responsável.
A escuta de Maria ao convite de Deus para que fosse Mãe do Salvador não se esgota no momento inicial. Ela se prolonga como atitude permanente de interiorização. O evangelista Lucas afirma que Maria “guardava todas estas coisas, meditando-as no seu coração” (Lc 2,19; 2,51). Trata-se de uma memória ativa, na qual os acontecimentos são acolhidos, alicerçados na Palavra e amadurecidos ao longo do tempo.
Essa dimensão revela Maria como mulher do discernimento. Sua fé constrói-se na fidelidade ao longo do tempo. O próprio texto bíblico reconhece que “não compreenderam” certos acontecimentos (Lc 2,50), o que indica que sua experiência incluiu incertezas durante o caminho. O Concílio Vaticano II expressa essa dinâmica ao afirmar que Maria “avançou na peregrinação da fé” (Lumen Gentium, n. 58), sublinhando o caráter processual de sua relação com Deus.
Nesse sentido, García Paredes aprofunda a compreensão dessa interioridade ao indicar que o essencial da missão nasce do “porquê”, isto é, do coração onde Deus age e de onde brota a resposta humana. “Descobrir o coração da missão é penetrar no fundo secreto do qual tudo nasce” (García Paredes, 2019). Maria é, por excelência, essa mulher da profundidade, da interioridade onde a Palavra se faz vida.
O Coração de Maria não é apenas espaço de interioridade espiritual, mas também lugar de leitura da realidade. Ele integra fé e história, contemplação e compromisso, silêncio e ação. Aqui se rompe definitivamente qualquer dicotomia entre espiritualidade e vida concreta.
Maternidade de Maria: da dimensão biológica à dimensão salvífica
A maternidade de Maria constitui o eixo fundante da mariologia e o ponto de convergência entre cristologia e eclesiologia. Não se limita a um dado biológico, mas expressa uma realidade de densidade salvífica, inserida no mistério da encarnação e na economia da redenção. Nesse horizonte, o título Theotokos (“Mãe de Deus”) afirma que, em seu seio, o Verbo assumiu plenamente a condição humana, revelando a centralidade de Maria no desígnio salvífico (cf. Redemptoris Mater, n. 4).
A maternidade divina de Maria não pode ser compreendida de forma isolada, mas sempre em relação intrínseca com o mistério de Cristo. Trata-se de uma maternidade inteiramente a serviço da encarnação, sendo sinal da verdadeira humanidade do Filho e, simultaneamente, testemunho de sua divindade (Pinho, 2017). Desse modo, ao gerar o Filho, Maria ultrapassa o âmbito biológico e insere-se de modo singular na economia da salvação, tornando-se o lugar concreto da irrupção de Deus na história.
Entretanto, essa maternidade não se realiza de forma passiva. Ela é precedida por um ato livre e consciente de adesão ao projeto divino. O fiat de Maria, “Faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1,38), expressa sua cooperação ativa na obra da salvação. Essa cooperação ultrapassa o momento da encarnação e encontra sua plenitude no mistério pascal. No relato joanino da crucifixão, “Mulher, eis o teu filho. Eis a tua mãe” (Jo 19,26-27), a maternidade de Maria abre-se a uma dimensão universal. A tradição vê nesse gesto a instituição de sua maternidade espiritual, pela qual ela se torna mãe de todos os discípulos na ordem da graça. Não se trata apenas de um vínculo afetivo, mas de uma participação contínua na vida da Igreja e na comunicação da graça divina.
A maternidade de Maria, nessa perspectiva, revela-se como realidade dinâmica, que se estende do plano biológico ao salvífico. De sua associação à obra da redenção emerge sua maternidade espiritual e universal (Carol, 1964), pela qual ela não apenas gera Cristo na história, mas continua, na ordem da graça, a comunicar vida em participação na obra redentora do Filho.
Essa compreensão estabelece uma ligação decisiva com a Igreja. Se Maria, em sua maternidade, torna-se mediação da presença de Cristo no mundo, sua experiência configura-se como paradigma da missão eclesial. A Igreja, chamada a prolongar a encarnação na história, encontra nela o modelo de uma maternidade que ultrapassa o ato de gerar e se concretiza no cuidado, no acompanhamento e na sustentação da vida. Assim, a maternidade mariana não apenas ilumina o mistério da salvação, mas inaugura uma forma de presença que a própria Igreja é chamada a assumir e continuar (cf. Redemptoris Mater, n. 26).
A maternidade como forma de ser Igreja
A reflexão sobre a maternidade de Maria conduz à compreensão da maternidade como dimensão constitutiva da própria Igreja. Não se trata de mera analogia devocional, mas de um dado enraizado na identidade e na missão eclesial. A tradição conciliar afirma que Maria é tipo e figura da Igreja na ordem da fé, da caridade e da união com Cristo (cf. Lumen Gentium, n. 63), indicando que seu modo de ser ilumina o modo de ser e de agir da comunidade eclesial.
Nesse horizonte, a maternidade torna-se chave hermenêutica da eclesiologia. Assim como Maria gerou Cristo na história, a Igreja é chamada a gerá-lo na vida dos fiéis, tornando-se espaço de nascimento, cuidado e amadurecimento da fé. Trata-se de um processo vital, no qual a fé é acolhida, cultivada e sustentada, configurando a Igreja como lugar de iniciação e crescimento na experiência cristã.
Além disso, a maternidade eclesial manifesta-se no cuidado concreto com a vida, sobretudo com a vida dos mais frágeis. Inspirada na experiência de Maria, ela desloca a ação pastoral de uma lógica funcional para uma lógica relacional, na qual o cuidado se torna expressão constitutiva da evangelização (Pinho, 2017). Assim, a Igreja não apenas anuncia o Evangelho, mas o encarna por meio de uma presença que acolhe, protege e sustenta a vida.
Essa dimensão implica também a capacidade de acompanhar processos. A maternidade supõe tempo, paciência e fidelidade. À semelhança do caminho de fé de Maria, a Igreja é chamada a respeitar os ritmos humanos, acompanhando cada pessoa em seu itinerário. Trata-se de uma pastoral que ultrapassa ações pontuais e se compromete com a continuidade da vida, sustentando o amadurecimento humano e espiritual.
A maternidade eclesial revela-se, assim, como uma realidade dinâmica que integra três dimensões inseparáveis: gerar, cuidar e sustentar. A Igreja gera a fé ao anunciar e testemunhar o Evangelho, cuida da vida ao acolher os mais frágeis e sustenta processos ao acompanhar, com paciência e fidelidade, o crescimento de seus membros. Não se trata de funções isoladas, mas de expressões de uma mesma identidade, que encontra em Maria seu paradigma.
À luz disso, a maternidade não é apenas uma imagem aplicada à Igreja, mas uma forma de ser que define sua fidelidade ao Evangelho. Quando essa dimensão se enfraquece, a Igreja corre o risco de se reduzir a uma estrutura funcional e despersonalizada. Ao contrário, quando assume seu rosto materno, torna-se sinal concreto do amor de Deus no mundo, manifestando uma presença que gera vida, cuida das fragilidades e sustenta a esperança.
Uma Igreja que cuida: a lógica do cuidado como missão
A compreensão da Igreja como realidade maternal encontra sua expressão mais concreta na lógica do cuidado, entendido não apenas como exigência ética, mas como categoria teológica fundamental. Não se trata de prática assistencial ou resposta pontual, mas de um modo próprio de participação na missão de Deus na história. O cuidado, assim, torna visível o agir divino, pois a missão não se reduz ao que o ser humano faz por Deus, mas ao que Deus realiza por meio de nós em favor da humanidade (García Paredes, 2019).
Essa perspectiva desloca a ação pastoral de um modelo funcional para uma lógica relacional. Quando reduzida à execução de atividades, a Igreja corre o risco de se tornar autorreferencial e burocrática, perdendo sua fecundidade. Ao assumir o cuidado como princípio estruturante, porém, reorienta sua prática a partir da centralidade da pessoa, reconhecendo em cada sujeito uma história, um processo e uma dignidade que exigem acolhimento e acompanhamento. Nesse horizonte, a mariologia, quando bem situada, oferece uma contribuição decisiva à evangelização, ao reconduzir a ação eclesial à sua dimensão humana, histórica e libertadora (Zanini, 2017).
A lógica do cuidado exige, portanto, a superação de uma pastoral centrada em estruturas, a fim de que se assuma uma pastoral de proximidade. Trata-se de uma proximidade que não é apenas geográfica, mas existencial, pois implica entrar na realidade do outro, reconhecer suas necessidades e responder por meio de uma presença comprometida. Essa dinâmica encontra em Maria seu paradigma: nela se revelam a sensibilidade que percebe o que falta, a proximidade que não se afasta das situações concretas e a disponibilidade que se traduz em mediação ativa.
O episódio das bodas de Caná (Jo 2,1-11) sintetiza essa atitude. Maria percebe uma necessidade concreta: “Não têm mais vinho” e, sem assumir protagonismo, intervém de forma discreta, orientando para Cristo: “Fazei tudo o que ele vos disser” (Jo 2,5). Nesse gesto, manifesta-se um cuidado que não domina nem substitui, mas acompanha e conduz, respeitando os processos e favorecendo o amadurecimento da fé. Assim, Maria apresenta-se como mediadora que inaugura a prática libertadora de Jesus, evidenciando que o cuidado está intrinsecamente ligado à promoção da vida e à manifestação do Reino (Velasco, 2008).
Além disso, o cuidado mariano caracteriza-se por sua inserção na realidade concreta dos pobres e vulneráveis. Maria não é uma figura distante, mas uma mulher historicamente situada, marcada pela fragilidade e pelas tensões de seu tempo, o que a torna referência para uma Igreja comprometida com a vida, sobretudo com a vida dos mais vulneráveis (Zanini, 2017).
No horizonte da espiritualidade missionária, essa lógica se aprofunda ao reconhecer que o cuidado nasce do coração. A missão brota do amor transformado pelo Espírito, de modo que toda ação evangelizadora desvinculada dessa fonte corre o risco de se esvaziar (García Paredes, 2019).
Assim, o cuidado configura-se como expressão concreta da evangelização: torna visível o amor de Deus antes mesmo do anúncio explícito, criando condições para que a Palavra seja acolhida ao responder às necessidades reais e gerar confiança, vínculo e abertura.
Uma Igreja que acompanha processos: pedagogia do tempo
A compreensão do Coração de Maria como lugar de escuta e discernimento conduz à pedagogia do tempo como dimensão essencial da vida eclesial. Nos relatos evangélicos, sua experiência não se define por uma compreensão imediata, mas por um processo progressivo de acolhimento e amadurecimento da fé. O próprio Lucas evidencia essa tensão ao afirmar que, diante de certos acontecimentos, “eles não compreenderam” (Lc 2,50), revelando que o itinerário de fé se constrói entre o mistério, a vida e a compreensão humana.
Nesse horizonte, Maria revela-se mulher do tempo e da espera. Sua fidelidade não depende de clareza imediata, mas de uma confiança perseverante. Ao guardar e meditar os acontecimentos no coração, assume uma atitude de abertura ao processo, permitindo que a ação de Deus se desvele gradualmente. Trata-se de uma espiritualidade que integra incompreensão e esperança, silêncio e discernimento, configurando-se como paradigma de uma fé que amadurece no tempo (Orso, 2016).
Nesse sentido, Maria revela uma pedagogia profundamente humana e teológica: a pedagogia dos processos. Sua vida manifesta que a ação de Deus não se impõe de modo imediato, mas se desdobra na história, respeitando ritmos e caminhos. Tal compreensão converge com a perspectiva missionária que distingue “o que”, “como” e, sobretudo, “por que” se realiza a missão, indicando que a evangelização autêntica nasce de uma postura capaz de esperar, discernir e acompanhar.
À luz dessa experiência, a Igreja é chamada a assumir uma pastoral que respeite os ritmos humanos e valorize os processos de crescimento. Isso implica superar práticas imediatistas e normativas, adotando uma lógica de acompanhamento contínuo. Assim, a formação cristã não se reduz à transmissão de conteúdos, mas se configura como caminho gradual de experiência e amadurecimento da fé ao longo do tempo.
Essa perspectiva incide diretamente sobre o acompanhamento vocacional e a ação educativa. Uma Igreja que acompanha processos reconhece que cada vocação se constrói em etapas, exigindo escuta, paciência e discernimento. Tal abordagem converge com a proposta sinodal, que valoriza a caminhada conjunta, o diálogo e a escuta mútua como dimensões constitutivas da vida eclesial.
No horizonte da espiritualidade claretiana, essa pedagogia do tempo ganha densidade própria ao compreender a missão como processo formativo contínuo. O sujeito é chamado a crescer na fé e no compromisso, o que exige uma formação integral, atenta à pessoa em sua totalidade, que respeite seus ritmos e promova seu desenvolvimento humano e espiritual.
Uma Igreja que protege a vida: dimensão profética da maternidade
A maternidade de Maria não apenas ilumina o cuidado e o acompanhamento, mas revela uma dimensão profundamente profética: a defesa e a promoção da vida. Inserida em um contexto de vulnerabilidade e opressão, Maria apresenta-se como mulher concreta, participante das tensões e dos sofrimentos de sua realidade.
A narrativa evangélica evidencia essa condição em episódios como a fuga para o Egito (cf. Mt 2,13-15), que expõe a fragilidade da Sagrada Família diante da violência política. Maria experimenta o deslocamento, a insegurança e a ameaça à vida, aproximando-se das experiências de tantos que migram para sobreviver. Assim, configura-se como ícone de uma humanidade ferida, mas também resistente.
Além disso, sua presença junto à cruz (cf. Jo 19,25) revela uma maternidade fiel mesmo diante do sofrimento extremo. Maria não se afasta da dor, mas permanece de pé ao lado do Filho, manifestando uma força que não nega a vulnerabilidade, mas a transforma em lugar de esperança. Nesse sentido, a reflexão teológica reconhece que ela participa dos sofrimentos e da morte de Cristo, em íntima união com a obra redentora (Carol, 1964). A maternidade mariana integra fragilidade e força, sofrimento e resistência. Maria não é apenas destinatária da ação divina, mas participante ativa da história da salvação, assumindo em si as dores e os desafios de seu povo.
No horizonte latino-americano, essa leitura ganha maior densidade ao evidenciar Maria como mulher inserida na realidade dos pobres, marcada pela vulnerabilidade e pela opressão, o que a aproxima das situações de exclusão e sofrimento (Zanini, 2017).
À luz disso, a Igreja é chamada a assumir uma postura profética em defesa da vida, comprometendo-se concretamente com os pobres e vulneráveis. A maternidade eclesial, assim, ultrapassa o cuidado individual e projeta-se na dimensão social, promovendo a dignidade humana e denunciando estruturas de injustiça.
Essa postura exige uma espiritualidade encarnada, capaz de reconhecer Deus na história e responder às suas interpelações. Ao assumir essa missão, a Igreja torna-se sinal de esperança, manifestando uma presença que acolhe e transforma a realidade.
Uma Igreja que gera comunhão: o coração como espaço de unidade
A trajetória teológica desenvolvida converge, assim, para a dimensão da comunhão. O Coração de Maria, lugar de escuta, cuidado e fidelidade, revela-se também como espaço gerador de unidade. Na tradição cristã, a comunhão não é fruto da organização, mas dom do Espírito, que integra a diversidade e sustenta a vida da Igreja.
O relato dos Atos dos Apóstolos expressa essa realidade ao apresentar Maria no cenáculo, perseverando em oração com os discípulos (cf. At 1,14). Sua presença é profundamente significativa: ela sustenta a unidade da comunidade nascente, reunida em torno da promessa do Espírito, tornando-se sinal de uma Igreja que nasce da comunhão e se fortalece na convivência fraterna.
A comunhão, portanto, não se reduz a um dado estrutural, mas se configura como experiência espiritual. O Espírito Santo, ao derramar o amor de Deus nos corações, torna possível uma vida comunitária marcada pela partilha, pela unidade e pela abertura ao outro (García Paredes, 2019). Assim, o coração, como centro da pessoa, torna-se também o lugar onde a comunhão se enraíza e se manifesta.
Nesse horizonte, a Igreja é chamada a ser mais do que uma instituição organizada: deve configurar-se como casa, espaço de pertença e acolhimento. Aqui, a dimensão materna encontra uma de suas expressões mais profundas, pois a maternidade gera vínculos, sustenta relações e promove a unidade. Ao assumir essa identidade, a Igreja torna-se lugar de pertença, onde as relações refletem o amor trinitário.
A presença de Maria no cenáculo revela, ainda, que a comunhão não elimina a diversidade, mas a integra. A comunidade apostólica é composta por diferentes sujeitos, com histórias e experiências distintas, mas encontra na ação do Espírito a força que os une. Tal realidade aponta para uma eclesiologia que valoriza a unidade na diversidade, reconhecendo que a riqueza da Igreja está precisamente na pluralidade de seus membros.
Considerações finais
A reflexão desenvolvida ao longo deste estudo partiu da constatação de uma crise profunda que atravessa o tempo presente: a fragilização dos vínculos, a fragmentação das relações e a crescente lógica do descarte, que atinge não apenas a sociedade, mas também, de modo indireto, a própria experiência eclesial. Nesse contexto, a Igreja vê-se desafiada a revisar suas práticas e a reencontrar o núcleo de sua identidade, evitando reduzir sua missão a estruturas funcionais que, embora necessárias, não são suficientes para responder às exigências humanas e espirituais da contemporaneidade.
É precisamente nesse horizonte que a figura de Maria se revela como chave interpretativa e horizonte inspirador. A tradição teológica reconhece nela não apenas um elemento constitutivo da fé, mas um verdadeiro paradigma eclesial. Maria ocupa um lugar central na compreensão da missão da Igreja, de tal modo que sua presença permite redescobrir o sentido mais profundo da evangelização, orientando-a para uma dimensão mais humana, encarnada e relacional (Zanini, 2017).
O Coração de Maria, compreendido como centro de sua interioridade e espaço de escuta, discernimento e fidelidade, oferece à Igreja um modelo de ação que integra cuidado, acompanhamento, defesa da vida e promoção da comunhão. Nele, a fé se manifesta não como abstração, mas como resposta concreta à ação de Deus na história. Tal dinâmica revela que a missão eclesial não se realiza apenas por meio de estratégias, mas por meio de uma presença que acolhe, sustenta e gera vida.
A partir dessa perspectiva, torna-se evidente a urgência pastoral de uma Igreja que recupere sua dimensão maternal. Isso implica assumir o cuidado como princípio, respeitar os processos de amadurecimento humano e espiritual, comprometer-se com a defesa da vida em todas as suas formas e promover uma comunhão que seja expressão do amor trinitário. Trata-se de uma mudança de paradigma que exige não apenas reformulações estruturais, mas, sobretudo, uma conversão do coração.
No horizonte da espiritualidade missionária, essa transformação encontra seu fundamento no amor que sustenta a missão. O coração da missão não está no que a Igreja faz por Deus, mas no que Deus realiza por meio dela em favor da humanidade. Assim, a eficácia da ação evangelizadora não depende, primordialmente, de sua organização, mas da profundidade da experiência que a sustenta.
Referências
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