O Mês da Bíblia de 2026, promovido pela Igreja Católica no Brasil, tem como tema o Livro de Daniel, iluminado pelo lema “Seu reino jamais será destruído” (Dn 7,14). A escolha convida as comunidades a relerem um dos escritos mais significativos do Antigo Testamento, cuja mensagem permanece atual diante das crises políticas, culturais e religiosas de cada época.
Redigido no século II a.C., durante a perseguição imposta por Antíoco IV Epífanes, o livro procura fortalecer a fé dos judeus submetidos à violência e à tentativa de apagar sua identidade religiosa. Embora ambientadas no exílio babilônico e tendo Daniel como protagonista, as narrativas respondem aos desafios enfrentados por uma geração posterior, reafirmando que a história continua nas mãos de Deus.
O livro apresenta duas grandes seções. Nos capítulos 1 a 6, encontram-se os relatos da corte da Babilônia: a recusa dos alimentos impuros, a libertação dos jovens da fornalha, a escrita misteriosa no palácio de Belsazar e Daniel na cova dos leões. Mais do que narrativas edificantes, esses episódios testemunham que a fidelidade a Deus independe das circunstâncias nem do lugar onde se vive. Os capítulos 7 a 12 introduzem o leitor na linguagem apocalíptica. Por meio de símbolos e visões, anunciam o fim dos impérios que dominam a história e proclamam a vitória definitiva do Reino de Deus.
O eixo da obra é a soberania divina. Os impérios se sucedem, os governantes exercem poder e parecem decidir o destino das nações, mas sua autoridade é transitória. Daniel recorda que “o Altíssimo tem domínio sobre o reino dos homens” (Dn 4,17). Em um tempo marcado pela absolutização da política, pela disputa de poder e pela insegurança diante do futuro, essa afirmação recorda aos que creem que a primeira e a última palavra pertencem a Deus.
A fidelidade diante das pressões culturais constitui outro traço marcante do livro. Daniel e seus companheiros recebem novos nomes, educação e costumes, numa tentativa de assimilação completa. Ainda assim, preservam a própria identidade religiosa. A resposta dos três jovens diante da ameaça da fornalha sintetiza essa confiança: “Se nosso Deus pode livrar-nos, Ele nos livrará. Mas, se não, não serviremos aos teus deuses” (Dn 3,17-18). A fidelidade não nasce da certeza do milagre, mas da certeza de quem é Deus.
A visão do “Filho do Homem” (Dn 7,13-14) amplia esse horizonte ao anunciar um Reino eterno, que não será destruído. A tradição cristã reconheceu nessa passagem um anúncio de Jesus Cristo, cuja missão inaugura o Reino definitivo prometido nas Escrituras.
Também para a vida da Igreja, Daniel permanece uma referência. Sua perseverança na oração, mesmo sob ameaça de morte, mostra que a intimidade com Deus sustenta a resistência diante das adversidades. Seu discernimento nasce da escuta da Palavra e sua caminhada ao lado de Ananias, Misael e Azarias recorda que a fidelidade é fortalecida na vida comunitária.
Essa espiritualidade continua presente na liturgia, especialmente no Cântico dos Três Jovens (cf. Dn 3,52-90), em que toda a criação é convidada a bendizer o Senhor. No Mês da Bíblia de 2026, a leitura de Daniel oferece às comunidades uma oportunidade de renovar a confiança naquele que conduz a história. Diante das mudanças e incertezas do presente, permanece atual a convicção que atravessa todo o livro: os reinos humanos passam, mas o Reino de Deus permanece para sempre.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
FERNANDES, Leonardo Agostini. Livro de Daniel: esperança em tempos de perseguição. Brasília: Edições CNBB, 2026.
GRENZER, Matthias. Daniel: esperança em meio à perseguição. São Paulo: Paulinas, 2025.