“Ó coração de Maria, frágua e instrumento de amor, inflamai-me no amor de Deus e do próximo!”
(Santo Antônio Maria Claret)
Em outubro, a Igreja celebra a memória de Santo Antônio Maria Claret, missionário que percorreu cidades, povoados, caminhos e mares anunciando a Palavra de Deus. Pregava, confessava, escrevia livros e folhetos, promovia missões populares e procurava alcançar as pessoas por todos os meios possíveis. No centro de toda essa atividade havia um coração profundamente unido a Jesus e formado pela presença materna de Maria.
Em sua Autobiografia, Claret recorda que, ainda criança, recebeu um rosário e o acolheu como se tivesse recebido o maior dos tesouros. Aprendeu a contemplar os mistérios, começou a conduzir a oração com os colegas da escola e, mais tarde, rezava enquanto trabalhava na fábrica de tecidos de sua família. Também visitava, com sua irmã Rosa, o Santuário de Nossa Senhora de Fusimanha. Ao avistar a capela de longe, seus olhos se enchiam de lágrimas e seu coração era tomado por uma profunda ternura.
Essas lembranças revelam uma devoção nascida dentro da vida cotidiana, entre a casa, a escola, o trabalho e os caminhos percorridos com a família. Maria tornou-se uma presença próxima, uma mãe com quem Claret conversava e diante de quem apresentava seus desejos e projetos. Ele mesmo escreveu que seu maior prazer era trabalhar, rezar, ler e pensar em Jesus e em Maria Santíssima.
Com o passar dos anos, aquela experiência amadureceu e passou a sustentar sua missão. Antes de iniciar suas pregações, Claret dirigia-se a Maria dizendo que era seu “filho e ministro, formado por vós mesma na frágua de vossa misericórdia e amor”. Em seguida, colocava-se nas mãos da mãe como uma flecha pronta para ser lançada na direção das realidades que necessitavam da luz do Evangelho.
A imagem da frágua possui uma força muito particular. Claret conhecia o trabalho das oficinas e sabia que o ferro precisava permanecer no fogo para ser moldado. Em sua experiência espiritual, o coração de Maria era essa frágua na qual sua vida recebia forma, calor e direção. Ali, o missionário aprendia a amar a Deus, a entregar-se ao próximo e a oferecer suas forças para a evangelização, por isso, em uma de suas orações mais conhecidas, Claret chama o coração de Maria de “frágua e instrumento de amor” e pede que ele o inflame no amor de Deus e do próximo. Quanto mais Claret se reconhecia filho de Maria, mais crescia nele o desejo de cuidar das pessoas, anunciar o Evangelho e consolar os que sofriam.
Esse amor fez dele um incansável propagador da devoção mariana. Durante suas missões, ensinava o povo a rezar o Rosário, promovia celebrações dedicadas à Virgem, escrevia orações, distribuía folhetos e convidava as famílias a recorrerem à proteção de Maria. A devoção que havia aquecido seu coração desde a infância tornou-se parte de sua maneira de evangelizar.
No dia 16 de julho de 1849, Claret reuniu em Vic cinco sacerdotes que partilhavam do mesmo espírito missionário e fundou a Congregação dos Missionários Filhos do Imaculado Coração de Maria, nome daqueles que hoje são conhecidos como missionários claretianos. A escolha expressava a experiência espiritual que ele desejava transmitir aos seus companheiros.
Ao recordar a fundação, Claret agradeceu a Maria por ter adotado aqueles missionários como filhos do seu imaculado coração e pediu que fossem humildes, fervorosos e zelosos. Em seguida, registrou uma das definições mais importantes da espiritualidade claretiana: “Um filho do imaculado coração de Maria é um homem que arde em caridade e abrasa por onde passa”. Esse filho procura inflamar o mundo no fogo do amor divino, seguindo Jesus Cristo e dedicando a própria vida à glória de Deus e ao bem das pessoas.
A filiação cordimariana recebida de Claret continua viva na congregação. Ser filho do imaculado coração de Maria constitui uma maneira de compreender a vocação, a comunidade e a missão. O coração materno de Maria torna-se uma escola onde os claretianos aprendem a escutar a Palavra, acolher a vontade de Deus, perceber as dores do povo e responder com generosidade às necessidades de cada tempo.
Essa espiritualidade acompanha os missionários nas paróquias, escolas, universidades, meios de comunicação, obras sociais e comunidades. Em cada lugar, o filho do coração de Maria é chamado a levar consigo a ternura de uma mãe e o ardor de um missionário. Sua presença deve comunicar proximidade, confiança e cuidado, fazendo com que a Palavra de Deus encontre espaço na vida das pessoas.
A celebração de Santo Antônio Maria Claret, no dia 24 de outubro, convida toda a Igreja a reencontrar esse coração missionário. Sua vida nos ensina que a devoção mariana conduz ao Evangelho, fortalece a missão e desperta o compromisso com o próximo. Maria acolheu a Palavra, guardou-a em seu coração e a entregou ao mundo em Jesus. Claret desejou seguir esse caminho e ensinar seus filhos a percorrê-lo.
Que o coração de Maria continue sendo a frágua onde nossas vidas sejam formadas no amor. Que Santo Antônio Maria Claret nos ajude a cultivar uma fé próxima das pessoas, sensível às dores do mundo e disponível para a missão. Que os Missionários Filhos do Imaculado Coração de Maria saibam corresponder ao nome que receberam, levando por onde passarem o fogo do amor de Deus e do cuidado com cada irmão e irmã. Amém.