No Brasil, poucas paróquias e capelas carregam como padroeiros santidades negras. Na Arquidiocese de São Paulo, por exemplo, Santa Ifigênia é mais associada à famosa rua voltada ao comércio de eletroeletrônicos do que à própria santa e sua igreja. As razões pelas quais os santos negros não são conhecidos do grande público no país são históricas e raciais; entretanto, neste artigo, o âmago será a compreensão de tais problemáticas por um viés teológico.
O Papa Bento XIV criou no século XVIII a canonização equipolente, processo que dispensa a formalização investigativa circunspecta para o processo. Nela constam o culto imemorial, que tem como exemplo Santa Ifigênia, venerada desde o século I; a inclusão no martirológio romano, do qual Santo Elesbão e a própria Santa Ifigênia fazem parte, sendo o catálogo oficial dos santos da Igreja Católica, criado pelo Papa Gregório XIII em 1584; e o reconhecimento papal indireto, ocorrido com São Benedito pelo Papa Pio VII, em 1807, não passando pela beatificação e sendo diretamente canonizado.
Outro entrave para haver mais igrejas com nomes de santos negros, como Santa Bakhita, está no fato de que a maioria, como ela, está no que a Santa Igreja chama de memórias facultativas. Antes de 1969, os santos eram memorados em magote, fazendo com que, muitas vezes, o cunho do tempo litúrgico na santa Missa se tornasse secundário. Paulo VI criou a Carta apostólica Mysterii Paschalis e a liturgia ficou dividida entre solenidades (como Páscoa e Natal), festas (como o dia dos apóstolos), memórias obrigatórias (santos de relevância global, como Nossa Senhora de Lourdes e São Francisco de Assis) e as memórias facultativas, conectadas a santidades de devoções locais e específicas, sendo que cabe ao sacerdote aplicá-las ou não.
Exceto Nossa Senhora Aparecida, São Martinho de Lima e Carlos Lwanga e companheiros mártires, não há outras santidades negras com memórias obrigatórias. Boa parte da luta e resgate da memória ancestral vem com tentáculos das pastorais sociais, como a Pastoral Afro-brasileira, e da religiosidade popular afrocatólica, como as congadas e moçambiques, com festejos e celebrações inculturadas.
Além disso, há distorções nas iconografias dos santos, como nas imagens de São Maurício, Beata Nhá Chica e a própria Nossa Senhora Aparecida, retratadas com tez branca. Outrossim, como diz a Sagrada Escritura na profecia de Jeremias em sua pergunta retórica, “pode um negro mudar a cor de sua pele” (13,23)?
Luta racial é exegese teológica.
*Orlando Caldeira de Farias Junior é doutor pelo programa de Pós-graduação em Ciência da Religião pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), professor de Geografia e Ensino Religioso. Pesquisador do Grupo de Estudos Veredas – Imaginário Religioso Brasileiro (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo) e do Núcleo de Estudos Psicológicos da Religião (Numina), da Universidade São Paulo (USP). É idealizador do curso da Hagiografia dos Santos Negros da Escola de Ministérios Padre José Fernando de Brito e Instituto São Paulo de Estudos Superiores (ITESP).