Estimado(a) leitor(a) da Revista Ave Maria, o mês de maio é anunciado como tempo mariano, isto é, sinal de esperança para as famílias, sobretudo a partir da consagração a Nossa Senhora.
Deus deseja que o homem seja salvo e que venha a possuir a vida eterna após viver uma vida virtuosa. Todos nós, sem exceção, somos chamados à salvação, porém, os batizados são chamados a ir além, eles são chamados à santidade e, para isso, é necessário viver com fidelidade o Batismo recebido.
A santidade é o objetivo maior de nossas vidas e, nesse caminho, nós temos a oportunidade de encontrar meios que nos ajudam a caminhar. Na vida devota aos santos, encontramos exemplos que são verdadeiros atalhos para chegarmos à santidade, porém, encontramos ainda outra possibilidade, que é a de dedicarmo-nos de uma forma ainda mais intensa, oferecendo sacrifícios em vista desse objetivo maior: a consagração.
Não precisamos ter medo do termo “consagração”, muito utilizado em nosso cotidiano, por exemplo, quando falamos de uma mãe que consagrou sua vida em função de seus filhos, significando que essa ela colocou muitas coisas de lado e em segundo plano para se dedicar totalmente à uma missão. Essa doação de si, em função de um objetivo que está acima de interesses e prazeres pessoais, consiste em uma doação acima do que é ordinário e comum, exigindo, portanto, amor, paixão, tempo e esforço para realizá-la. No contexto religioso, o termo “consagração” possui o mesmo sentido de entrega e doação, porém, contendo outros dois sentidos: separado e pertença. Quando falamos de objetos consagrados (por exemplo, um cálice ou um altar), esses objetos são separados para uma determinada função e não poderão ser utilizados para outra finalidade pois, caso isso venha a acontecer, há uma profanação. Os objetos sagrados recebem uma unção ou bênção específica para se tornarem “objetos de Deus” ou “objetos consagrados”. Existe outro tipo de consagração que é fruto de palavras proferidas por um ministro instituído para esse fim, por exemplo, o sacerdote no momento da consagração da liturgia eucarística. Por fim, um último exemplo é o de pessoas que foram consagradas e que se tornaram “separadas” e “pertencentes” ao Senhor após a realização de uma oração consecratória, fórmula litúrgica central usada na Igreja Católica durante o Sacramento da Ordem, para a ordenação de diáconos, padres ou bispos para transmitir a graça do Espírito Santo.
Sendo assim, uma consagração pode ser definida como um dom de si mesmo sem reservas e que supõe, em consequência dessa mesma consagração, um despojar-se mais perfeito de si, sacrifícios por aquele ou aquilo a que nos consagramos, tornando-nos separados dos demais.
A consagração vai além da devoção, pois possui finalidade e consequências superiores. Enquanto a devoção pode significar uma admiração ou o seguimento de uma vida exemplar e de referência para a pessoa devota, a consagração tem por objetivo tornar-se separado, pertença de alguém, dedicar-se e ofertar-se inteiramente. A devoção não significa pertença, separação ou oferta de si: isso é importante para o crescimento e para alcançar a santidade que somos chamados a viver, porém há finalidades diferentes.
O ato de consagrar-se a Nossa Senhora é uma forma de confiar a ela tudo o que somos e temos e de confiar nossas vidas à proteção, à direção, ao cuidado e intercessão de Nossa Senhora, sem a intenção de substituir Nosso Senhor Jesus Cristo pela Virgem Maria. O ato de consagrar-se a Maria não pode ser interpretado como uma idolatria.
São Luís de Montfort apresenta, no Tratado da verdadeira devoção, alguns motivos pelos quais essa devoção é apropriada: por meio dela nos damos completamente a Deus; ela nos ajuda a imitar Cristo; ela obtém muitas bênçãos de Nossa Senhora; é um meio excelente de se dar glória a Deus; leva-nos à união com Nosso Senhor Jesus Cristo; dá-nos grande liberdade de espírito; é de grande ajuda ao próximo e é um meio maravilhoso de perseverança.
Mesmo que possam ser utilizados termos diferentes para expressar essa consagração (como servo ou escravo), eles têm por objetivo significar a consagração, explicando que aquele que se consagra possui uma alma que serve, que é escrava, ou seja, uma alma totalmente submissa àquela que é a serva/escrava de Deus.
Por ser Maria aquela que mais se conformou a Cristo, a perfeita consagração a Ele só se dá por meio da consagração à Santíssima Virgem. Essa devoção, de acordo com São Luís, consiste em se dar a Maria inteiramente, a fim de que pertençamos inteiramente a Jesus por meio dela, pois Nossa Senhora é o caminho mais seguro, fácil, curto e perfeito de abordar Jesus.
A consagração nos permite pertencer de maneira mais perfeita a Jesus, a fim de crescer cada vez mais na graça divina e alcançar a perfeita união com Cristo, não dispensando os nossos esforços para vencer as tentações e corresponder à vontade de Deus. A consagração é um caminho mais fácil e seguro para chegarmos à plena união com Cristo, por isso nós, os cristãos, devemos nos entregar de modo total a Maria, repetindo o que também foi o lema do pontificado de São João Paulo II: “Sou todo teu, Maria, e tudo o que é meu pertence a ti”. A exemplo de São João Paulo II, quando olharmos para os santos de nossa Igreja, veremos que não há um que não tenha Nossa Senhora como intercessora e mãe.
A consagração não é para aqueles que são dignos, mas para aqueles que dela precisam!