Um dos nomes de Deus é misericórdia, ou caridade, ou amor. A misericórdia não é algo “estranho” ao cristianismo, mas o centro da revelação de Jesus Cristo. Jesus é a própria misericórdia. Ele veio ao mundo para oferecer a sua misericórdia, por isso morreu na cruz. A cruz é símbolo de sua misericórdia. Ninguém está mais abandonado à própria sorte, pois nos foi revelado por Cristo que Deus é, antes de tudo, o Pai das Misericórdias. Antes de ser Juiz do Mundo, Ele é o Pai Misericordioso, apresentado a nós na parábola do filho pródigo (cf. Lc 15,11-32).
A santidade está intimamente ligada à misericórdia; como seremos santos sem que antes experimentemos e pratiquemos a misericórdia? A experiência da misericórdia nos leva a imitar Jesus, a viver a bem-aventurança do perdão e a superar os atos de vingança. No Antigo Testamento, a santidade de Deus era considerada como algo distante, transcendente e inatingível, porém, a santidade de Deus, revelada por Jesus, é acima de tudo a sua infinita misericórdia. A santidade de Deus está no seu amor perfeito, incondicional, que abraça a miséria humana. Ser perfeito no amor não é se afastar dos pecadores, mas reconhecer que a santidade está intimamente ligada à compaixão e à misericórdia. Deus é perfeito no amor, porque “faz o sol nascer sobre bons e maus” (Mt 5,45).
Na primeira Carta aos Coríntios, Paulo nos exorta a sermos seus imitadores, assim como ele imita a Cristo, o ícone perfeito da misericórdia do Pai. Jesus nos apresenta exemplo concretos de misericórdia: junto à mulher adúltera (cf. Jo 8,1-11) Jesus não a condena, mas a convida a não pecar mais. Aos leprosos e aos publicanos, Jesus não só dá a cura, mas lhes restaura a dignidade e a comunhão (Zaqueu, cf. Lc 19,1-10). Do alto da cruz, Jesus pede misericórdia para os seus algozes: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem” (Lc 23,34). Imitar a Cristo significa ver com os seus olhos, não vendo o outro somente por erros, mas pela sua dor e pela sua capacidade de redenção.
“Bem-aventurados os misericordiosos.” (Mt 5,7) A lógica do mundo não se parece com a lógica do Reino. Alcançarão misericórdia aqueles que agirem de forma misericordiosa. O Pai-Nosso que rezamos é a aplicação dessa lógica, “Perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tenha ofendido”.
A lei do mundo, olho por olho, dente por dente, parece ser justa, no entanto, pode gerar um ciclo vicioso de vingança e violência. O rancor nos aprisiona em nosso ódio. O perdão traz saúde ao espírito, liberdade e paz ao coração. Perdoar não é ser conivente com o erro, mas significa não deixar que o mal dirija nossas ações. É responder com o bem o mal que nos fizeram, quebrando a corrente de ódio.
O Sacramento da Reconciliação, que é tão propício neste Tempo Quaresmal, é lugar privilegiado para encontrar a misericórdia de Deus. É receber o abraço do Pai, como o filho pródigo, das mãos do sacerdote, que nos dá o perdão dos nossos pecados. Eu experimento a misericórdia divina quando me reconheço frágil, necessitado de amor, porque o perdão que dou é o mesmo que eu preciso. Ser misericordioso é uma tarefa grande demais, só com a graça de Deus é possível perdoar o outro. Para superar os rancores, devemos nos lembrar da regra de ouro, “Tudo quanto quereis que os homens vos façam, fazei o também a eles” (Mt 7,12). A decisão de perdoar é um ato de vontade, é uma graça derramada em nossos corações que transborda para o coração do próximo.
*Padre Adelmo Sérgio Gomes é sacerdote da Diocese de Divinópolis (MG). É também vice-postulador da causa de beatificação e canonização do Venerável Servo de Deus Padre Libério.