O testemunho da infância de Jesus nos é fornecido por Maria. Há um enriquecimento dos pormenores da figura de Maria que provém do interesse de Lucas por ela como testemunha privilegiada não só da infância de Jesus, mas também do significado teológico dessa vida.
Lucas, autor do Evangelho com o mesmo nome e dos Atos dos Apóstolos, obedece a uma preocupação de fundo: apresentar a história com um olhar teológico, dando aos acontecimentos uma visão segundo a fé.
Esse texto faz parte do relato da anunciação (cf. Lc 1,26-38) e é um dos textos marianos narrados por Lucas mais importantes. As razões principais são:
- É o texto que traça de forma mais nítida o retrato humano e espiritual de Maria;
- É pleno de sentido mariológico, representando uma cena evangélica em que Maria está no centro, como protagonista;
- É o texto mariano mais usado na liturgia;
- É o texto mais citado pelos Padres da Igreja;
- Expressa a cena mariana mais pintada pelos artistas.
A saudação do Anjo Gabriel “Alegra-te, cheia de graça” retoma palavras do profeta Zacarias (2,14). O texto de Lucas 1,28 diz “Alegra-te, cheia de graça (…)”. Aqui temos duas expressões:
- “Alegra-te”: saudação grega. Entre os hebreus, a saudação é “shalom” (“paz”), convite dos profetas ao anunciarem a chegada dos tempos messiânicos (ex.: Sf 3,14-18);
- “Cheia de graça”: pode ser traduzida como “que recebeu a graça” ou “a quem a graça por excelência foi dada”. Em Lucas, essa expressão substitui o nome próprio de Maria, dando-lhe um novo nome.
No Antigo Testamento, Deus frequentemente dá novos nomes a personagens destinados a missões importantes: Abrão → Abraão (cf. Gn 17,5), Sarai → Sara (cf. Gn 17,15), Jacó → Israel (cf. Gn 32,28-30), Simão → Pedro (cf. Mc 3,16).
A melhor interpretação de “cheia de graça” seria “Alegra-te por teres sido transformada pela graça”, destacando o efeito da ação de Deus, por meio do Anjo Gabriel, em Maria.
Essa expressão tão nova e estranha deixa Maria perturbada e apreensiva, tornando-se marca da sua identidade mais profunda, objeto de benevolência e eleição.
Maria: “Eu sou a serva do Senhor” (Lc 1,38). A resposta de Maria ao Anjo Gabriel no relato da anunciação foi uma verdadeira profissão de fé. O seu “sim” fez dela a primeira discípula. É um “sim” plenamente livre, mostrando toda a misericórdia e graça pendentes nos lábios dessa jovem de Nazaré.
A santidade única com que Maria responde ao anjo, o seu “sim” – “Eu sou a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1,38) –, é a semente do dogma da imaculada conceição, celebrado no dia 8 de dezembro.
“A bendita entre todas as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre” (Lc 1,42): este texto faz parte da narrativa do encontro entre Maria e Isabel (cf. Lc 1,39-56). A visita de Maria produz frutos de bênçãos tanto para Isabel quanto para o menino.
A saudação a Maria encerra todas as profecias e prolonga a aclamação do anjo em Nazaré, reafirmando que a salvação é dada no “fruto” dela.
Esse elogio a Maria remete a casos do Antigo Testamento, em que mulheres corajosas e libertadoras do povo de Israel receberam destaque, como Jael (cf. Jz 5,24) e Judite (cf. Jud 13,18).
A expressão “Bendita entre” é uma forma hebraica do superlativo “Tu és a mais bendita”, mostrando Maria como a mulher mais excelsa entre todas.
O tema da maternidade na Sagrada Escritura é sempre uma bênção de Deus e uma felicidade para a mulher. No Novo Testamento, vários elogios a Maria aparecem, começando pelo Anjo Gabriel: “cheia de graça” (Lc 1,28), Isabel: “bendita entre todas as mulheres” e “bem-aventurada” (Lc 1,45) e uma mulher do povo: “Feliz o ventre que te trouxe e os seios que te amamentaram” (Lc 11,27).