“Aproximou-se, enfaixou-lhe as feridas, derramando nelas vinho e óleo. Depois colocou-o sobre o seu próprio animal,
levou-o para uma hospedaria e cuidou dele.”
(Lc 10,34)
“Quem cuida escuta até o silêncio falar,
sabe quando é hora de rir ou de acalmar.
Quem cuida ensina sem precisar mandar,
mostra o caminho sem deixar de caminhar.
Família é isso – é raiz que sustém,
é abrigo na chuva, é calor que faz bem.”
(Cranon)
Há palavras que, de tão simples, correm o risco de perder a profundidade. “Cuidar” é uma delas. Vivemos dias em que muitos passam apressados pelos caminhos da vida, carregando as próprias urgências e esquecendo que a dor do outro também nos pertence. No entanto, o cuidado é a essência do Evangelho e o gesto mais próximo do coração de Deus. O cuidado não é um sentimento passageiro, mas uma forma de estar no mundo.
No Evangelho de Lucas (10,25-37), Jesus responde à pergunta de um doutor da lei que deseja saber quem é o próximo. Ele o faz contando a parábola do bom samaritano: um homem é atacado e deixado ferido à beira da estrada. Passam por ele um sacerdote e um levita, figuras religiosas que, talvez por medo ou por pressa, não se detêm. Então, chega um samaritano, estrangeiro e considerado impuro pelos judeus, que se comove, aproxima-se, enfaixa as feridas, carrega o homem e cuida dele.
Nesse gesto anônimo e silencioso está condensado o que é o amor cristão. O samaritano não faz perguntas, não mede merecimentos, não busca recompensa. Ele simplesmente vê e se aproxima. O verbo “ver” é essencial: ele não desvia o olhar. Quem cuida, antes de agir, reconhece no outro um reflexo de si mesmo. É esse olhar que rompe os muros da indiferença e inaugura o espaço da compaixão.
O cuidado é uma forma de presença. É o contrário da pressa e do descaso. É a disposição interior de se demorar junto à dor, de acompanhar o que sofre, de carregar um pouco do peso alheio. Jesus viveu assim: cuidando. Cuidou dos doentes, das crianças, dos pobres, dos pecadores, dos esquecidos. O cuidado é o rosto humano da ternura de Deus. É por meio dele que o Evangelho se torna concreto.
Em uma sociedade marcada pela indiferença e pela competição, cuidar é um ato revolucionário. Cuidar é resistir à cultura do descarte e afirmar que a vida do outro tem valor. Cuidar é renunciar ao egoísmo e deixar que o amor de Deus se expresse por meio de nós. Cada gesto de empatia, cada escuta paciente, cada palavra que consola é uma forma de tornar presente o Reino de Deus aqui e agora.
Cuidar também exige humildade. Exige reconhecer que todos nós, em algum momento, somos o ferido da estrada, necessitados do olhar e da ajuda de alguém. A espiritualidade do cuidado nos ensina que a salvação não se vive sozinha. Somos curados enquanto cuidamos, transformados enquanto nos inclinamos sobre o sofrimento do outro.
Senhor, ensina-nos a cuidar. Que eu não passe apressado pelos caminhos da vida. Que eu veja o que muitos não veem, que eu me aproxime onde outros se afastam. Que o meu coração aprenda a compaixão que transforma, a ternura que sustenta e o amor que não calcula. Que, em cada gesto de cuidado, eu possa reconhecer a tua presença viva no mundo. Amém.