A CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL (CNBB) COLOCA A MORADIA NO CENTRO DA VIVÊNCIA DA FÉ CRISTÃ E CONVOCA A IGREJA, A SOCIEDADE E O PODER PÚBLICO A ENFRENTAR UMA DAS MAIS GRAVES EXPRESSÕES DA DESIGUALDADE NO BRASIL
Na madrugada de 12 de janeiro de 2026, um incêndio atingiu um prédio ocupado por famílias sem teto na Vila Prudente, zona leste de São Paulo (SP). As chamas se espalharam rapidamente pela construção abandonada, transformada em moradia improvisada, e deixaram duas vítimas fatais: um bebê de apenas dois meses e um homem de 35 anos. Outras famílias perderam tudo o que tinham. O episódio revelou de forma trágica uma realidade que permanece invisível para grande parte da sociedade: milhares de pessoas vivem sem acesso a uma casa segura, digna e protegida.
A tragédia não é um fato isolado. Ela se insere em um cenário mais amplo de precariedade habitacional que marca os grandes centros urbanos brasileiros. Ocupações irregulares, moradias improvisadas, casas sem saneamento básico, localizadas em áreas de risco ou distantes de serviços públicos essenciais, compõem o cotidiano de milhões de famílias. A ausência de políticas públicas eficazes e contínuas agrava um quadro que fere diretamente a dignidade humana e compromete o acesso a outros direitos fundamentais.
É nesse contexto social, marcado por profundas desigualdades, que a Igreja no Brasil propõe uma reflexão que une fé, compromisso social e responsabilidade coletiva. No dia 7 de agosto de 2025, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) lançou o tema da Campanha da Fraternidade 2026, “Fraternidade e moradia”, acompanhado do lema bíblico “Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14). A iniciativa busca despertar a consciência sobre o direito à moradia digna como expressão concreta da fé cristã e como condição essencial para a vida plena.
Segundo o Padre Jean Poul Hansen, do Setor de Campanhas da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, a escolha do tema nasceu a partir de uma solicitação da Pastoral da Moradia e Favela, acolhida pelo Conselho Episcopal Pastoral. “A Campanha da Fraternidade é sempre um espaço de escuta da realidade. Neste caso, a Igreja percebeu que a questão da moradia se tornou ainda mais urgente e dramática no país”, explica.
O MISTÉRIO DA ENCARNAÇÃO E O SENTIDO DE MORAR
O lema da Campanha da Fraternidade 2026 remete diretamente ao núcleo da fé cristã, o mistério da encarnação. Ao afirmar que o Verbo “veio morar entre nós”, o Evangelho de João proclama que Deus escolheu habitar a condição humana em sua plenitude. Para o Padre Jean Poul Hansen, essa afirmação tem consequências profundas para a vida social: “Quando Deus assume a nossa condição, Ele confere dignidade a todas as realidades humanas. A moradia, nesse sentido, não é um luxo, mas uma necessidade essencial para a vida e para a dignidade da pessoa”, afirma.
A própria experiência de Jesus revela uma proximidade radical com os pobres e excluídos. O Evangelho de Lucas recorda que Ele nasceu em uma estrebaria, “porque não havia lugar para Ele” (2,7). Em outro momento, durante sua vida pública, Jesus afirma: “O Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça” (Lc 9,58). Essas passagens bíblicas, retomadas pela campanha, aproximam a figura de Cristo da realidade de milhões de pessoas que, ainda hoje, vivem sem teto ou em condições indignas.
“Cristo continua presente entre os últimos da sociedade”, ressalta o Padre Jean, em entrevista à reportagem da Revista Ave Maria. “Entre eles estão aqueles que sofrem com a ausência de moradia ou com a precariedade extrema de suas casas. Olhar para essa realidade é também um exercício de fé”, acrescentou ele.
A FACE HUMANA DA CRISE HABITACIONAL
O texto-base da Campanha da Fraternidade 2026 apresenta um diagnóstico claro da situação habitacional no Brasil. Atualmente, cerca de 6 milhões de famílias enfrentam o déficit habitacional, seja por viverem em moradias precárias, em coabitação forçada ou por comprometerem grande parte da renda com aluguéis elevados. Esse contingente representa aproximadamente 8,3% dos domicílios brasileiros. Além disso, 26 milhões de famílias vivem em condições habitacionais inadequadas, em áreas de risco ambiental, sem infraestrutura mínima ou distantes de equipamentos públicos essenciais como escolas, unidades de saúde e transporte coletivo. O país também registra mais de 300 mil pessoas em situação de rua, número que cresceu de forma expressiva na última década e revela o agravamento da exclusão social.
Os dados contrastam com outro dado igualmente alarmante: o Brasil possui 11,4 milhões de imóveis vazios, muitos deles localizados em áreas urbanas consolidadas. Essa contradição evidencia que a crise da moradia não se resume à falta de espaço, mas está profundamente relacionada à desigualdade, à especulação imobiliária e à ausência de políticas públicas voltadas ao direito à cidade.
Informações da Fundação João Pinheiro indicam que o déficit habitacional brasileiro alcançou 6,2 milhões de domicílios em 2022, um aumento de 4,2% em relação a 2019. O impacto recai, sobretudo, sobre famílias de baixa renda, lares chefiados por mulheres e a população negra, revelando que a questão da moradia também é atravessada por desigualdades de gênero e raça.
A falta de uma casa digna compromete muito mais do que as condições materiais de vida. Ela dificulta o acesso à saúde, à educação, ao trabalho e à participação comunitária, aprofundando ciclos de pobreza e exclusão. Sem endereço fixo, muitas pessoas sequer conseguem acessar políticas públicas básicas.
MORADIA É PERTENCIMENTO, VÍNCULO E DIREITO À CIDADE
A Pastoral da Moradia e Favela atua diretamente junto às comunidades mais afetadas pela crise habitacional e ajuda a dar rosto humano a esses números. Estruturada nacionalmente a partir da 6ª Semana Social Brasileira (2020-2023), a pastoral se orienta pelos eixos terra, teto e trabalho, compreendendo a moradia como um direito indissociável da dignidade humana.
Para o Frei Marcelo Toyansk Guimarães, frade franciscano capuchinho e coordenador nacional da Pastoral da Moradia e Favela, a discussão não pode se limitar à construção de casas: “A moradia é o lugar onde repomos as energias, onde nos situamos no mundo. Ter uma casa segura significa ter acesso a transporte, educação, saúde, lazer e saneamento. Tudo isso faz parte do que chamamos de moradia digna”, afirmou em entrevista à Revista Ave Maria.
Segundo Frei Marcelo, a crise habitacional se agravou significativamente nos últimos anos. O número de favelas no país praticamente dobrou na última década, passando de cerca de 6 mil para mais de 13 mil. A interrupção de programas habitacionais de grande alcance, aliada ao aumento da pobreza e da população em situação de rua, empurrou milhares de famílias para as periferias urbanas.
“Não se trata apenas de construir casas, mas de garantir que elas estejam integradas à cidade, próximas dos serviços públicos e inseridas em territórios onde haja segurança e vida comunitária”, destacou o religioso, que também atua como assessor da Comissão Justiça e Paz da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil Sul 1.
A pastoral defende que a moradia digna está diretamente ligada ao direito à cidade. Isso inclui a urbanização e a melhoria de favelas, a regularização fundiária, a prevenção de despejos forçados e o fortalecimento das comunidades já existentes. “Moradia é vínculo, identidade e pertencimento. É o espaço onde se constroem relações, celebra-se a vida e cria-se comunidade”, reforça Frei Marcelo.
FÉ QUE SE TRADUZ EM COMPROMISSO SOCIAL
A Campanha da Fraternidade 2026 se apoia no método ver, iluminar e agir, tradicional na ação pastoral da Igreja no Brasil. O primeiro passo é olhar com atenção a realidade marcada pelo déficit habitacional, pela segregação socioespacial e pelo crescimento da população em situação de rua. Em seguida, essa realidade é iluminada à luz da Palavra de Deus e da doutrina social da Igreja, que reafirma a moradia como direito humano fundamental. Por fim, a campanha convoca à ação concreta.
Para a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, a Campanha da Fraternidade vai além da denúncia, ela propõe uma conversão quaresmal com impacto social e estrutural, capaz de gerar transformações reais nas comunidades. Ao escolher o tema “Fraternidade e moradia”, a Igreja reafirma que a casa é mais do que um teto: é espaço de dignidade, esperança e cuidado com a vida.
A campanha convoca a Igreja à presença solidária nos territórios; a sociedade, ao compromisso com a justiça social; e o poder público, à formulação e execução de políticas habitacionais consistentes e eficazes. Garantir moradia digna é reconhecer no outro o rosto de Cristo que veio morar entre nós.
Por fim, a Campanha da Fraternidade 2026 reforça um chamado que ultrapassa o âmbito individual e religioso. Trata-se de um convite coletivo à construção de um país mais justo e fraterno, onde todas as pessoas tenham terra, teto e trabalho e possam viver com dignidade como filhas e filhos de Deus.