Iniciemos esse percurso com uma questão: Como compreender a imagem do Coração de Maria como lugar da escuta da Palavra de Deus? Para responder a esse tema proponho um itinerário que leve em consideração o olhar para Maria como a mulher escolhida por Deus Pai e que em sua vida procurou escutar a voz de Deus em seu coração de serva. Ela que buscou viver e testemunhar elementos fundamentais, frutos da escuta da Palavra que a agraciou, tais como: o discipulado, a obediência e o amor que brota da Palavra.
Assim, no olhar atento e terno voltado à Mãe de Jesus e nossa sob o título do seu Imaculado Coração, tem-se a oportunidade de aprender dela o significado do discipulado, da fé madura e comprometida com o sim ofertado a Deus por meio do anjo Gabriel: “faça-se em mim, segundo a tua palavra” (Lc 1,38). Maria Santíssima desde o início compreendeu esse modo de ser agraciado e por esse motivo se entregou por inteiro aos cuidados do Senhor. Ela soube escutar sua Palavra e se deixou guiar na vida e missão de discípula, serva obediente e mãe amorosa da Palavra e por isso, de certa forma, nos ensina a fazer o mesmo, pois também somos discípulos de Jesus Cristo.
Como discípulos missionários, todos, pelo batismo, são corresponsáveis pela construção do Reino dos céus. Um Reino de “justiça, paz e alegria no Espírito Santo” (Rm 14,17). Como discípulos de Jesus, Verbo encarnado (Jo 1,14), nascido no seio da Virgem de Nazaré, os crentes assumem um modo de ser em sociedade que tem relação direta com a fé que professam. Uma relação ético-moral nascida das páginas do Evangelho e dos ensinamentos da Igreja que se desdobra no cotidiano da vida social pelo testemunho.
O CORAÇÃO DE DISCÍPULA QUE ESCUTA
Sendo assim, a construção do Reino de Deus tem por base os ensinamentos do Evangelho de Cristo, tanto por palavras proferidas com autoridade e que chamavam atenção dos ouvintes (Mt 7,29), pois Ele mesmo é o fundamento (1Cor 3,11), a pedra angular (Ef 2,20) que direciona toda vida e comportamento de quem crê, como por sua práxis (prática) de vida junto aos seus, dando o exemplo de como deve se comportar àqueles que levam seu nome (Jo 13,13-14). É a partir desse olhar que desejo abordar o tema proposto: “O Coração de Maria, lugar da escuta da Palavra”. O Evangelho de Mateus apresenta uma sentença de Jesus para com seus discípulos no grande discurso do sermão da montanha, em que o Mestre de Nazaré deixa claro a seus ouvintes que “nem todo aquele que diz: Senhor, Senhor, entrará no Reino dos Céus, mas sim aquele que faz a vontade do Pai que está nos céus” (Mt 7,21).
Quando Maria é interpelada pelo anjo que seria a mãe do Senhor, parece ter entendido que não fora apenas es
colhida para uma função pontual nos planos de Deus. Parece que seu entendimento da grandiosidade da missão que acabara de receber, iria além do ser mãe biológica do Filho de Deus feito homem na graça do Espírito Santo. Ao dizer sim, estava se comprometendo em se tornar “serva do Senhor”, discípula, ouvinte da vontade de Deus. Estava se colocando aos cuidados de Deus e de todo seu projeto de salvação para a humanidade decaída pelo pecado de Eva (Gn 3,6).
Essa formação de pensamento que a Virgem começa a desenvolver, como se estivesse em uma longa escola de aprendizagem, fora possível porque Maria parou para escutar o anúncio angélico, a Palavra a ela dirigida. Escutar o que se desejava dela como escolhida pelo Criador. Escutar parece ser algo cada vez mais difícil em um mundo barulhento. O exemplo que ela dá é um gesto de atenção diante daquele que fala. O exercício da escuta ensina em primeiro lugar, o respeito. Em um diálogo entre pessoas, saber se posicionar é uma atitude respeitosa, transmitida no seio familiar e na escola dos relacionamentos socioeducacionais.
Quem não consegue escutar o outro tem dificuldade de compreender o assunto tratado. Sai atropelando a fala como se o outro não tivesse importância. Maria escuta tudo que o anjo diz e no momento certo, faz suas ponderações. Respeita e escuta a fala alheia com atenção, ternura e desejo de compreender a situação. No relacionamento com Deus, saber escutar é essencial. Como saber o que Ele deseja de nós, se somos incapazes de calar diante de sua Palavra?
Na oração, como lugar privilegiado de diálogo com Deus, exerce-se a escuta e a fala, pois, todo diálogo requer esses dois elementos estabelecidos como forma de relação saudável. Ao se colocar diante de Deus, por meio do anjo, Maria ensina como se deve comportar diante do sagrado, do transcendente, do Altíssimo. Ao mesmo tempo, ensina como se deve comportar uns para com os outros no trato social com irmãos, na família, na igreja, no trabalho etc. Ser discípulo implica entender o que Jesus deseja e espera dos seus. Sem esse entendimento corre-se o risco da deturpação da Palavra como fonte de inspiração e direcionamento correto para se chegar ao Reino proposto por Ele.
Nesse sentido, a busca pelo entendimento passa pela oração como lugar do encontro e do aprendizado como foi dito anteriormente. Anselm Grün afirma que “o encontro é um acontecimento que transforma aqueles que se encontram” (GRÜN, 2014, p. 24). De fato, no encontro da discípula escolhida com seu Senhor nota-se uma transformação positiva e permanente. É um acontecimento como afirma o autor. A aparição do anjo por si só é uma epifania impactante, reveladora e transformadora, um fato extraordinário, tudo que a oração faz e causa em quem se coloca nesse estado de contemplação.
Desta maneira, Maria não se corrompe pelo pecado da soberba, achando-se pronta e acabada porque fora escolhida por mãe de Jesus. Ela soube escutar, dia a dia, a vontade de Deus, de acordo com cada acontecimento e movimento histórico-cultural de sua época. Ela deixou-se conduzir pelo Espírito Santo que orava nela “cheia de graça”. Com seu coração de discípula, entendeu que seu ego, desejos e vontades deveriam ser colocados de lado em prol do projeto de Deus para a humanidade. Esse entendimento não fora adquirido exclusivamente por meio de uma graça especial (a ela foi dado o título de cheia de graça – Lc 1,28), de uma efusão do Espírito Santo, um dom sobrenatural.
Foi também, graças à sensibilidade de uma mulher que soube escutar a voz e a vontade do seu Senhor. Uma mulher que “pôs-se a pensar no que significaria semelhante saudação” (Lc 1,29), que procurou ouvir com atenção a proposta dirigida a ela, escolhida, “agraciada”. Por isso, ao se referir a Maria, a Igreja instrui que na vida pública de Jesus, Sua mãe aparece de uma maneira bem-marcada logo no princípio, quando, nas bodas de Caná, movida
de compaixão, levou Jesus Messias a dar início aos Seus milagres. Durante a pregação de Seu Filho, acolheu as palavras com que Ele, pondo o reino acima de todas as relações de parentesco, proclamou bem-aventurados todos os que ouvem a Palavra de Deus e a põem em prática (cf. Mc 3,35 e paralelos; Lc 11,27-28); coisa que ela fazia fielmente (cf. Lc 2,19 e 51). (LG, n. 58) A consciência da Virgem escolhida e aclamada “cheia de graça”, eleva cada um daqueles que escolhem uma vida em Cristo pelo batismo, à busca permanente da “escuta da Palavra de Deus”, como afirma o Concílio Vaticano II no texto acima.
Aqueles que buscam o exemplo de Nossa Senhora como modelo inspirador para sua relação com Deus são chamados a replicar em sua própria vida, a postura ética e coerente da Mãe do Senhor, principalmente no ato de obediência à vontade de Deus como discípulos que procuram escutar.
UM CORAÇÃO OBEDIENTE
Obedecer, de acordo com a raiz hebraica do termo, é um verbo ligado ao ato de ouvir e tem como significado “ouvir a expressão da vontade de outrem, corresponder a ela e executá-la” (BAUER, 1983, p. 759). Está ligado, segundo esse modo de pensar, a uma relação de alteridade e reconhecimento de um valor maior, exposto e proposto por alguém em vista de um bem superior, tanto do indivíduo como da coletividade. É uma ação contrária ao egocentrismo. Desse modo, pode-se dizer que a obediência é uma virtude que derrota a maledicência do pecado humano, principalmente da vaidade egoísta.
Na vivência dessa virtude, a Mãe do Senhor é exemplo fidedigno de humildade, uma vez que depois do anúncio angélico, saiu para ajudar sua prima Isabel no sexto mês de sua gestação. Ela pratica, a partir da ternura do seu coração de discípula e serva, a obediente Palavra de Deus, colocando-a em exercício (cf. Lc 1,39-45). Não apenas cumpre uma ordem, mas, acima de tudo, escuta a voz do Senhor que lhe fala ao coração de serva. Para o cristão, ouvir a Deus é o caminho irrefutável para se realizar sua vontade na vida. Não se pode querer ser de Deus, se consagrar a Ele, dizer-se discípulo de Cristo, levar o nome de cristão, se não se está disposto a ouvi-lo e pôr em prática seus ensinamentos.
O próprio Jesus ensina a seus discípulos: “nem todo aquele que me diz Senhor, Senhor, entrará no Reino dos Céus, mas sim aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus” (Mt 7,21). Nesse contexto, Santo Tomás de Aquino afirma que “como toda virtude, [a obediência] exige que a vontade esteja pronta para o seu objeto próprio, mas não para aquilo que lhe é repugnante” (STh, II-II, q. 104, art. 2), ou seja, por meio dessa virtude, orienta-se a vontade para uma finalidade que vai além do desejado, sonhado ou almejado. Coloca-se um sentido, um significado superior ao necessário e imputado a cada um de forma particular. Por essa virtude, deixa-se em segundo plano o “eu” para que a vontade de Deus fale de forma coletiva na vida da Igreja e em sociedade. Nesse aspecto, Nossa Senhora deu testemunho indiscutível colocando-se em segundo plano sua própria vida, para que a vontade de Deus jazesse em primeiro lugar.
Observando o exemplo de Maria, entende-se o quanto essa mulher foi capaz de mergulhar na vida divina. Ela compreendeu que ao dizer “sim”, toda sua vida se preenchia de sentido. A sensibilidade da mãe do Senhor em deixar-se conduzir pelo Espírito Santo, torna-se para a Igreja e para todo o mundo cristão, exemplo moral de compromisso e fé na palavra que salva.
Essa Palavra, à luz da história, pavimenta, orienta e compromete aqueles que se colocam a serviço de Cristo em vista de um bem maior: o Reino dos Céus e do cuidado de uns para outros de modo especial com os mais necessitados. Ao olhar para a imagem de Maria como serva obediente de Deus, não se pode deixar de perceber que, ao longo da história da salvação, Deus fala a seu povo e pede para escutá-Lo como sinal de obediência e fidelidade.
Desse modo, convém recordar de como Abraão, considerado o pai da fé, na prontidão de sua vida, foi obediente ao Senhor (Gn 12); Noé, que mesmo considerado por seus compatriotas louco, por construir uma arca, continuou fiel à vontade de Deus de modo incondicional (Gn 6); lembremos de Moisés que liderando a libertação dos hebreus em nome de Deus, fora obediente e submisso ao Senhor (Ex 3; 14; 19 e 40); de Daniel que não renegou ao seu Deus, mesmo sendo jogado na cova dos leões (Dn 6) ou ainda de Rute que obedecendo a sua sogra manteve-se fiel e confiante nos mistérios de Deus em meio ao sofrimento (Rute 1–4) e tantas outras personagens do Antigo Testamento, sem mencionar o Novo Testamento.
Fato é que Deus ao longo da história da salvação não apenas fala com seu povo, mas os chama a ouvi-lo e esta atitude marca o povo eleito e posteriormente os que serão chamados de cristãos, povo da nova aliança
ça pelo batismo. Neste caminho de entendimento, faz-se interessante a observação de quando se lê no livro do Deuteronômio a célebre frase do Senhor para Israel: “Ouve, Israel…”, nota-se que é a vontade de Deus que deve ser executada como sinal autêntico de fidelidade e responsabilidade para com Ele. Assim, descreve o texto bíblico:
“4Ouve, ó Israel! O Senhor, nosso Deus, é o único Senhor. 5Amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todas as tuas forças. 6Os mandamentos que hoje te dou serão gravados no teu coração. 7Tu os inculcarás a teus filhos e deles falarás, seja sentado em tua casa, seja andando pelo caminho, ao te deitares e ao te levantares.” (Dt 6,4-7).
O texto evidencia a relação entre “ouvir” e “obedecer”. Só é possível uma atitude de obediência consciente quando se escuta com o coração e não somente com os ouvidos.
Só obedece aquele que escuta! Que se cala diante do mistério, do transcendente, do Altíssimo; aquele procura a voz terna de Deus que fala à alma, ao coração. Fora disso, evidencia-se o egocêntrico desobediente, que procura ancorar-se no nome de Deus, mas não deseja vivenciar seus ensinamentos. É o desobediente que age olhando para si abandonando as orientações do Senhor como se fosse algo irrelevante diante da sua vontade pessoal. Maria não foi assim, pelo contrário soube escutar buscando a Verdade. O contrário da obediência é a desobediência e a bíblia exemplifica com a história de Eva e Adão na criação. O livro do Gênesis conta como Eva, levada pela astúcia da serpente, se deixou tomar pela vaidade e pelo desejo de ver além daquilo que Deus lhe havia ordenado, solicitado (Gn 3).
Ao ouvir a serpente e desobedecer a Deus, cai no pecado e leva consigo Adão. Os filhos criados pelo amor generoso do Criador, perdem a possibilidade de uma vida plena na graça, por causa da desorientação dos próprios desejos e vontades. Preferiram ouvir e obedecer ao tentador, em vez de seu Criador o que gerou uma consequência pecaminosa, o afastamento da presença de Deus. Um distanciamento sombrio que reverbera em toda a história da criação. Assim, se pela desobediência de Eva a morte do pecado veio ao mundo, por Maria, Deus quis que a salvação chegasse até nós, em Jesus Cristo, Verbo feito carne (cf. Lc 1,26-38; Jo 1,14). Sua obediência restabelece o laço perdido por Eva (cf. LG, n.56).
A confiança de que é possível sim, mesmo que difícil, ser fiel ao Senhor. Maria Santíssima, é o exemplo imaculado dessa fidelidade. É interessante observar como o Evangelho apresenta a figura da Virgem Maria. A mulher do sim, a mãe do Senhor, do serviço, a discípula. Ela não vem em evidência, não é o astro das cenas bíblicas. Aparece em pouquíssimos trechos da Escritura porque não é ela a protagonista do enredo, é Jesus o salvador. Ela jaz no silêncio de quem aprendeu a ouvir, o que na prática pastoral deveria ser aprendido com ela por agentes e pastores.
Nas bodas de Caná, está atenta ao movimento dos serviçais do casamento e percebe a agonia pela falta do vinho. Sua intervenção junto a Jesus se dá pela convicção de que Ele não apenas pode ajudar no embaraço do momento, mas acima de tudo, pode
tudo sem dificuldades, pois tudo na vida procede do ordenamento divino. Ela acredita e chama outros a acreditar: “fazei tudo o que ele vos disser” (Jo 2,5). A escuta da Palavra tem essa força extraordinária, escutar e ajudar outros a fazer o mesmo, pois a Palavra é transformadora como foi o exemplo de fé da Mãe de Jesus na festa de casamento. São João Paulo II fala sobre o acontecimento de Caná dizendo que a partir da descrição dos fatos de Caná, esboça-se aquilo que se manifesta concretamente essa maternidade nova, segundo o espírito e não somente segundo a carne, ou seja, a solicitude de Maria pelos homens, o seu ir ao encontro deles, na vasta gama das suas carências e necessidades. […] Maria põe-se de permeio entre seu filho e os homens na realidade das suas privações, das suas indigências e dos seus sofrimentos (RM, n. 21).
Essa consciência obediente de Maria, aponta para o ato de fé no Filho amado. Ela sabia que aquele momento não era a hora do Filho se apresentar ao mundo como “O Messias salvador”, mas não poderia ficar passiva, inerte ou como espectadora diante da situação constrangedora dos noivos perante seus convidados. Obedecer é comprometer-se com a realidade que circunda a vida, o dia a dia, em vista do bem comum. Vai além da letra da lei, do executar ordens e obrigações, é uma expressão do cuidado de Deus para com seus filhos e filhas, pois reflete a fé feita obras.
Desse modo, pode-se afirmar que “a Mãe de Cristo se apresenta diante dos homens como porta-voz da vontade do Filho. […] Graças à intercessão de Maria e à obediência dos servos, Jesus dá início à ‘sua hora’” (RM, n. 21) e assim, cuida daquele momento festivo de Caná, oferecendo “o vinho melhor” da alegria salvadora de Deus aos presentes. Tudo isso foi possível porque Maria é mãe amorosa atenta aos acontecimentos que envolvem seus filhos e filhas no dia a dia.
MARIA, UMA MÃE AMOROSA DA PALAVRA DE DEUS
A escuta da Palavra é caminho seguro para a ternura de Deus, pela intercessão amorosa da Mãe junto ao Filho Salvador, mediador único uma vez que “há um só Deus e há um só mediador entre Deus e os homens: Jesus Cristo” (1Tm 2,5).
Assim, todo filho exerce um carinho especial para com sua mãe. Ela é o berço perpétuo de segurança, o abraço terno e voz poderosa em meio ao barulho do mundo. Talvez por isso o próprio Deus desejou que Seu Filho amado passasse pela experiência humana da relação filial, pois, o amor de mãe é sempre curativo. Ao lançar um olhar para Maria, não se pode deixar de olhar para seu coração materno. O Coração de Maria é o lugar seguro da ternura colocada em ação para com aqueles que buscam em Jesus Cristo o alívio de suas angústias. Mostrando seu coração à humanidade, a mãe do Senhor revela seu desejo de presença e cuidado. A imagem do coração é, em muitas culturas, o símbolo do amor, do carinho como expõe o papa Francisco no capítulo um da encíclica Dilexit nos. Em Maria, amor e carinho são gestos de proximidade e atenção maternos. De orientação e formação para a vida de fé e vida social. Ela é mãe formadora de discípulos que escutam e põem em prática a vontade de Jesus Cristo.
O Evangelho de Lucas narra a anunciação do nascimento de Jesus, partindo do pressuposto da escolha de Maria como mãe (Lc 1,26-56). O texto do evangelista pode ser dividido em dois momentos importantes: o primeiro da anunciação do anjo (v. 26-38), o segundo do encontro com Isabel (v. 39-56). Para aquém de uma exegese bíblica, olhemos de modo geral alguns aspectos da narrativa de Lucas.
No primeiro trecho, a busca pela compreensão dos acontecimentos de Deus na vida faz Maria questionar o anjo, não na escolha, mas na execução da vontade salvífica, uma vez que era virgem: “como se fará isso, pois não conheço homem algum?” (v. 34). A pergunta é legítima e demonstra o nível de seu comprometimento com a vontade de Deus. Entende que sua resposta gerará uma onda de impacto presente e futuro na história. Por mais que não tivesse a dimensão de seu alcance, ela sabia que sua resposta seria um marco divisor em sua vida e na vida de todos a partir daquele momento. Depois de todo um diálogo de apresentação e exaltação daquela mulher como “cheia de graça”, ela escuta com
atenção a explicação do anjo e responde com total abertura ao projeto de Deus: “Eis aqui a serva do Senhor. Faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1,38). Seu coração torna-se plenamente disponível à Palavra. Não se trata apenas de aceitar uma missão, mas de acolher o próprio Deus em sua vida, permitindo que a Palavra se faça carne em seu ventre e em toda a sua existência.
No segundo momento da narrativa, Maria coloca-se imediatamente a caminho para visitar sua prima Isabel (Lc 1,39-56). A Palavra acolhida transforma-se em serviço. Quem escuta verdadeiramente Deus não permanece fechado em si mesmo, mas sai ao encontro do outro. O amor recebido torna-se amor oferecido.
Ao chegar à casa de Isabel, a saudação de Maria faz estremecer de alegria a criança no ventre da prima, e Isabel, cheia do Espírito Santo, proclama: “Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre!” (Lc 1,42). Maria responde com o cântico do Magnificat (Lc 1,46-55), reconhecendo que toda grandeza provém de Deus e não de seus próprios méritos.
Seu coração revela-se, assim, profundamente humilde. Ela não retém para si a glória da escolha recebida, mas aponta continuamente para Aquele que realizou maravilhas em sua vida. Toda a sua existência é um louvor à fidelidade de Deus.
Contemplar o Coração de Maria significa aprender essa mesma atitude interior. Significa permitir que a Palavra encontre espaço em nossa vida, seja meditada no silêncio, amadurecida no coração e transformada em gestos concretos de amor, serviço e compromisso com o Reino de Deus.
Como afirma o Concílio Vaticano II, Maria “conservava fielmente todas estas coisas, meditando-as em seu coração” (cf. Lc 2,19.51). Ela não apenas ouviu a Palavra; fez dela o critério permanente de sua existência. Seu coração tornou-se escola de escuta, de discernimento e de fidelidade.
Também hoje, em meio ao excesso de informações, ao barulho das redes sociais, às inúmeras vozes que disputam nossa atenção e aos desafios da vida contemporânea, Maria continua indicando o caminho da verdadeira escuta. Seu Coração Imaculado permanece como espaço privilegiado para aprender a acolher a Palavra de Deus e deixá-la produzir frutos de conversão, esperança e caridade.
Quem contempla o Coração de Maria descobre que Deus continua falando ao coração humano. Cabe a cada discípulo cultivar o silêncio interior, abrir-se à ação do Espírito Santo e responder, como a Mãe do Senhor, com inteira disponibilidade: “Faça-se em mim segundo a tua palavra.”
à santificação e ao Reino de Deus. Como serva da Palavra, Verbo feito carne, Maria é exemplo de fidelidade apostólica a Jesus, mesmo antes de Seu nascimento. Ao aceitar as palavras do anjo, aceita a missão de acolhedora do Verbo Divino. Como Mãe e discípula, coloca em hierarquia de importância o discipulado da “serva do Senhor” (Lc 1,38), mais do que a missão de mãe.
O Papa Leão XIV, na nota doutrinal sobre os títulos marianos, expressa-se assim: Ela é ‘a primeira discípula, aquela que melhor aprendeu as coisas de Jesus’ Maria é a primeira daqueles que ‘escutam a Palavra de Deus e a põem em prática’ (Lc 11,28); é a primeira a colocar-se entre os humildes e pobres do Senhor para nos ensinar a esperar e receber, com confiança, a salvação que vem apenas de Deus. Deste modo, Maria ‘tornava-se, em certo sentido, a primeira “discípula” do seu Filho, a primeira a quem ele parecia dizer: “Segue-me”, mesmo antes de dirigir este chamamento aos Apóstolos ou a quaisquer outros (cf. Jo 1,43)’ (MPf, n. 75). Como discípula e serva, o testemunho da Virgem emana da Palavra que é o próprio Filho. Toda sua vida está voltada e tem sentido se orienta ao Cristo Salvador.
O papa Paulo VI afirmava: “na Virgem Maria, de fato, tudo é relativo a Cristo e dependente dele” (MC, n. 25). Não é possível amar, louvar, seguir o exemplo, suplicar a intercessão, aprender da Imaculada Virgem, se o fim último de nossa oração e confiança não for o próprio Jesus Cristo. Maria ensina isso em Caná da Galileia ao dizer “fazei tudo o que Ele vos disser” (Jo 2,5). Isso, como já dito, é um ensinamento direcional, orientativo e não um ato momentâneo. Tudo em Maria se direciona e direciona para Jesus. Desse modo, aprender de Maria a escutar a Palavra é deixar-se configurar a ela. A Palavra de Deus é o caminho reto que leva a uma prática de fé autêntica e segura.
Jesus ensinou aos seus discípulos a respeito do Reino de Deus, falou em parábolas, mostrou com sinais a presença salvadora de Deus. Assim, ao ensinar, levou cada uma das pessoas, inclusive sua mãe, a enxergar um Reino completamente diferente daquele que estava diante de seus olhos.
A Palavra transmitida entrava pelos ouvidos, mexia com a imaginação, modificava a consciência e fecundava o coração como uma cachoeira a derramar água transparente e fresca em um lago aberto e profundo. O papa Francisco assim ensinou a esse respeito: O Reino, já presente e crescente entre nós, nos envolve em todos os níveis do nosso ser e nos recorda o princípio do discernimento que o Papa Paulo VI aplicou ao verdadeiro desenvolvimento: ele deve dirigir-se a “todos os homens e ao homem por inteiro” (EG, n. 181).
Ao escutar a Palavra de Deus ao longo de toda sua vida, parece-nos que Maria foi aprendendo, a cada etapa existencial, a adaptar-se às circunstâncias: primeiro ouve a voz do anjo Gabriel (Lc 1,28.30-33); segundo ouve o louvor de sua prima Isabel (Lc 1,42-43.45); terceiro no nascimento de Jesus (Lc 2,10-12); depois na apresentação no templo (Lc 2,34-35); no episódio de Jerusalém aos doze anos (Lc 2,49); nas bodas de Caná (Jo 2,1-12); provavelmente quando Jesus proferiu o grande sermão da planície (Lc 6,20-49; Mt 5-7); enquanto estava na Galileia ela ouviu palavras fortes de Jesus (Lc 8,19-21); durante sua vida pública, acompanha em silêncio a missão do Filho na viagem a Jerusalém (Lc 9,51–19,28); durante o lava-pés escuta as palavras e vê a cena com atenção (Jo 13,1-20).
Nesse caminho, como discípula, deve ter escutado as palavras de despedida do Filho (Jo 13,31-38); mais que escutar, viveu a angústia da paixão de Jesus, no silêncio obediente da fé (Mc 14-15); ouviu as últimas palavras do Filho crucificado (Jo 19,26); ouviu o silêncio de Deus na morte do Filho amado (Jo 19,38-42); sem sombra de dúvida ela escuta os rumores das aparições do ressuscitado (Mt 28; Mc 16; Lc 24; Jo 20–21) na alegria, ouve do próprio Filho Ressuscitado que aquele grupo que ele formou ao longo do tempo, sua Igreja, receberá o Espírito Santo (At 1,8). Maria, como no princípio de toda sua vida, depois de ser fiel à Palavra ao longo do tempo, recebe o Espírito Santo junto com os Apóstolos, como discípula fiel, serva e modelo de testemunha de Cristo Jesus (At 1,14; 2,1-13). Daí em diante, acompanha o florescer da Igreja na intercessão pelos filhos de Deus até os dias de hoje.
Do mesmo modo, “a Igreja que contempla a sua santidade misteriosa e imita a sua caridade, cumprindo fielmente a vontade do Pai, torna-se também, ela própria, mãe, pela fiel recepção da Palavra de Deus” (LG, n. 64). E assim, olhando e aprendendo do Coração de Maria como lugar da escuta da Palavra, também nós, seus filhos e filhas, devemos obediência, serviço e comportamento de discípulos para bem testemunhar os méritos de Jesus e levar com verdade o nome de cristãos. Diante de tantos barulhos no mundo de hoje, nunca nos esqueçamos que, para nós católicos, três elementos orientam nossa escuta doutrinal de fé: “as Sagradas Escrituras, a Tradição e o Magistério da Igreja” (CIC, n. 81 e 85; DV, n. 10), sem eles não vamos a lugar algum, a não ser a nosso próprio egoísmo.
Como diria Santo Antônio Maria Claret: o egoísmo “procura com todo empenho, a independência de toda a autoridade divina e humana; conspira e maquina a insubordinação perceberão que cada palavra das Escrituras é uma dádiva antes de ser uma exigência” (EG, n. 142).
Percorrido o caminho de meditação e observação de Maria, sob o título de Imaculado Coração como lugar da escuta da Palavra, propus um olhar baseado em três aspectos – dos inúmeros que podem ser abordados sobre a Mãe do Senhor – para nossa reflexão: o discipulado, a obediência e o amor que nasce da Palavra.
Vimos que a Mãe de Deus nos testemunha com o silêncio de sua vida, como ser discípulos(as) missionários de seu Filho Jesus e como devemos responder ao chamado de Deus, na prontidão do acolhimento de sua Palavra. Acolher a palavra do Senhor é um ato livre que deve nos levar à compreensão de que somos responsáveis pelas mudanças em nosso meio, sociais e religiosas, mediante as escolhas que fazemos, reguladas nas Escrituras como fonte e instrumento de orientação e salvação, junto com a Tradição e o Magistério da Igreja, porto seguro de nossa fé.
Maria Santíssima nos ensina, de certa forma, que na vida cristã, não basta ouvir a palavra, ler as Escrituras, frequentar o templo, é necessário pôr em prática a vontade Daquele que nos chama à santidade de vida. Pela escuta/leitura diária da Palavra de Deus somos moldados segundo sua vontade e isso nos ajuda a modificar nossa forma de pensar e viver em sociedade. Para que nosso mundo seja melhor, é preciso melhorar nosso testemunho cristão e católico no mundo ainda mais especialmente em tempos de irracionalidade egoísta que gera guerras, desigualdade, violência e agressões, seja em escala global ou mesmo no seio familiar e na própria Igreja. Nosso testemunho pode ser uma luz poderosa em meio à escuridão dos conflitos.
Cuidemos, pois, a Santíssima Virgem, sob o título de seu Imaculado Coração nos deu o exemplo de fidelidade e escuta da Palavra que se fez carne e habitou entre nós.