No centro do discurso escatológico (sobre a salvação) de Jesus no Evangelho de Mateus 24-25 encontra-se um ensinamento marcado pela esperança. A vida cristã, atravessada por períodos de incerteza e provação, é sustentada pela confiança nas promessas de Deus e não pelo medo, por isso, o Evangelho convida a olhar a história com lucidez, reconhecendo os riscos do engano sem perder de vista a fidelidade divina e a realização do Reino.
Logo no início do discurso, Jesus adverte sobre a presença de falsos messias e falsos profetas, capazes de produzir sinais que podem desorientar muitos – “Irão levantar-se muitos falsos profetas e seduzirão a muitos” (Mt 24,11) –, e acrescenta “Eis que estais prevenidos” (Mt 24,25). O objetivo desse alerta de forma alguma é o de provocar medo, mas despertar o discernimento. O discípulo é chamado a permanecer vigilante, sem se deixar seduzir por ilusões ou falsas seguranças.
Essa vigilância nasce de uma esperança que se traduz em compromisso concreto. A esperança cristã não afasta o fiel da realidade, mas lhe dá razões para agir dentro dela. Como afirma a Carta apostólica Tertio Millennio Adveniente, ela “encoraja o cristão a não perder de vista a meta final (…) e oferece razões sólidas para um compromisso cotidiano de transformação da realidade” (46). Assim, a expectativa do Reino não conduz à passividade, mas fortalece o empenho diário no bem e sustenta a caminhada rumo à plenitude prometida por Deus.
A vigilância consiste numa disposição espiritual de permanente atenção ao Senhor que vem. O Novo Testamento insiste nessa expectativa vigilante, exortando os discípulos a permanecerem despertos e prontos para acolher, a cada dia, a graça divina. Esperar Cristo não significa afastar-se do mundo, mas viver nele com responsabilidade, fidelidade e consciência.
O discurso atinge seu ponto culminante no relato do juízo final (cf. Mt 25), quando a fé é avaliada a partir do amor concretamente vivido. O critério apresentado por Jesus não se limita às palavras ou às práticas religiosas exteriores, mas se revela na relação com aqueles que sofrem. A doutrina social da Igreja recorda que Cristo se identifica com “os menores” entre os seres humanos e que o cuidado com os necessitados possui valor decisivo diante de Deus.
Reconhecer Cristo nos pobres e excluídos pertence ao núcleo do Evangelho. O Catecismo da Igreja Católica afirma que “É pelo que fizeram aos pobres que Jesus Cristo reconhecerá os seus escolhidos” (2443), acrescentando que quando “a Boa-Nova é anunciada aos pobres, manifesta-se a presença do próprio Cristo” (2443). A misericórdia, portanto, torna-se lugar concreto de encontro com Deus.
Nos evangelhos, a atuação de Jesus é marcada pela proximidade com aqueles que ocupavam os lugares menos valorizados de seu tempo: os doentes, os excluídos, os pecadores e todos os que experimentavam algum tipo de abandono. Neles se manifesta de modo particular o anúncio do Reino de Deus.
Essa perspectiva confere especial relevância à situação dos que sofrem as consequências da pobreza e da injustiça. A fé cristã não permite ignorar tais realidades. O modo como Jesus acolheu e acompanhou os mais vulneráveis tornou-se referência para a vida de seus discípulos, chamados a reconhecer a dignidade de cada pessoa e a responder com solidariedade às necessidades concretas dos irmãos.
Simultaneamente, o Evangelho repele qualquer hermenêutica reducionista ou estritamente atomizada da categoria “o menor”. A solicitude para com os desvalidos transcende a assistência direta ao indivíduo, exigindo o enfrentamento deliberado das estruturas sistêmicas de injustiça que engendram a desigualdade e a marginalização social.
Nessa perspectiva, a escatologia do juízo final desvela não apenas a responsabilidade ética subjetiva, mas também as patologias coletivas da indiferença institucionalizadas no tecido social. A caridade, portanto, consolida-se como um dever de justiça que demanda a transformação das dinâmicas de exclusão vigentes na pólis.
A esperança cristã, por sua vez, sustenta a caminhada humana porque se fundamenta na fidelidade de Deus e na promessa dos “novos Céus” e da “nova Terra” anunciados nas Escrituras. Assim, o discurso escatológico conduz a uma questão essencial: a espera pelo encontro definitivo com Cristo se manifesta concretamente na prática da misericórdia? Quando a vigilância se traduz em cuidado pelos pobres e sofredores, a esperança cristã deixa de permanecer apenas nas palavras e passa a orientar a própria vida.
O discurso escatológico, portanto, reúne dois movimentos inseparáveis: discernir para não ser enganado e amar concretamente para reconhecer Cristo no rosto dos irmãos mais necessitados. É nesse encontro entre vigilância e misericórdia que se revela, diante do Senhor, a verdade do coração humano.
Referências Bibliográficas:
FABRIS, Rinaldo. O Evangelho de Mateus. São Paulo: Loyola, 1996.
JOÃO PAULO II. Tertio Millennio Adveniente: carta apostólica sobre a preparação para o jubileu do ano 2000. São Paulo: Paulinas, 1994.
PONTIFÍCIO CONSELHO JUSTIÇA E PAZ. Compêndio da doutrina social da Igreja. 7ª ed. São Paulo: Paulinas, 2011.