O autor do segundo evangelho é Marcos, ou João Marcos, como era conhecido na Igreja primitiva. Pelo livro dos Atos dos Apóstolos, onde seu nome aparece diversas vezes, sabemos que sua mãe se chamava Maria e que os cristãos de Jerusalém tinham o costume de se reunir em sua casa. Era primo de Barnabé e foi colaborador de Paulo e de Pedro (At 12,12; 13,5; 15,36-39; Col 4,10; 2 Tm 4,11; 1 Pd 5,13).
A pedido dos cristãos de Roma, São Marcos resumiu, ao redor do ano 64, a pregação de Pedro, elaborando assim o evangelho que possuímos.
Indicam-se, a seguir, os temas específicos deste evangelho.
Marcos retrata como nenhum outro o ‘querigma’. Esta palavra de origem grega, que significa ‘anúncio’, indica o primeiro anúncio da fé cristã, que pode ser assim resumido: Jesus Cristo, Filho de Deus, morreu e ressuscitou para a nossa salvação. Ainda hoje, para nós, este evangelho conserva o sabor do primeiro anúncio e é capaz de nos renovar (1,1; 1,14-15).
Há, depois, o tema do temor diante da santidade de Deus que se manifesta em Jesus nas expulsões de demônios (1,21-28; 5,15), na autoridade e poder de Jesus (4,41), e diante do sepulcro vazio depois da ressurreição (16,8).
Há o tema do ‘Reino de Deus já’ (1,15). Para entender o que isso significa é preciso ler o evangelho e ver o que Jesus faz. É o reino que ele torna presente, por exemplo, na cura e libertação (1,29-31; 2,1-12; 5,25-43), no perdão dos pecados (2,5), no acolhimento dos excluídos (leproso 1,41; pecadores 2,17; crianças 10,14, e cego 10,49).
Outro tema interessante é o do ‘segredo messiânico’. Em Marcos os demônios expulsos percebem que Jesus é o Messias, mas ele proíbe que o tornem público (1,34; 3,11-12). Isso acontece também com os discípulos, depois da profissão de fé e da transfiguração (8,30; 9,9). De fato, é impossível entender em que sentido Jesus é o Messias e qual é o seu reino, sem que se considere seu dom da própria vida, na cruz, e sua ressurreição.
Por fim, há o tema do ‘Filho do Homem e Servo Sofredor’. Jesus não chama a si mesmo de Messias, mas de Filho do Homem, o enviado humano de Deus (8,31; 14,62; cf. Dn 7,13); e ele realiza essa sua missão doando sua vida por muitos (10,45; 14,24), como o Servo Sofredor de Is 53.
Considerando estes temas podemos acompanhar melhor o desenvolvimento do evangelho de Marcos.
Há uma introdução com sua primeira atividade em Cafarnaum (1,1-45). Em seguida aparece o ministério de Jesus na Galileia (2,1-9,50): vários episódios polèmicos (2,1-3,35), parábolas e milagres (4,1-5,43), ensinamento e incompreensões (6,1-8,26), a fé e a formação dos discípulos (8,27-9,50).
Jesus a caminho de Jerusalém (10,1-52). E, depois, em Jerusalém: ensinamento, discussões, dificuldades (11,1-13,37). Por fim: Paixão, morte e ressurreição (14,1-16,20).
A esta altura, repito a afirmação do biblista Carlo Maria Martini, que apresentou Marcos como o evangelista do catecúmeno. Neste sentido o catecúmeno é aquele que começa a refletir sobre a fé cristã. E, num ambiente em que muitos são apenas cristãos de IBGE, é importante entrar neste evangelho para seguir Jesus de verdade.