A misericórdia é o coração pulsante do Evangelho. Em Jesus Cristo, Deus não se apresenta como alguém distante, indiferente ou inacessível, mas como aquele que se aproxima, acolhe, cura, perdoa e reconduz. O anúncio querigmático nasce exatamente daí: Deus ama primeiro, ama sem excluir e chama cada pessoa pelo nome para voltar ao seu coração, por isso, a palavra de Jesus continua atual e pessoal: “Volta!”. Não se trata apenas de um convite moral, mas de um chamado de amor, capaz de devolver sentido, esperança e vida.
No Evangelho, a misericórdia não é um adorno da fé nem uma atitude secundária. Ela é a expressão concreta do modo como Deus age diante da fragilidade humana. Como nos recorda a Escritura, Deus é “rico em misericórdia” (cf. Ef 2,4) e, em Cristo, tomou sobre si nossas dores e misérias (cf. Mt 8,17). Onde há sofrimento, queda, culpa, medo, vazio ou desorientação, ali se manifesta a compaixão divina. O ser humano, com suas limitações e feridas, não é descartado por Deus; ao contrário, é justamente aí que experimenta mais profundamente o seu cuidado. A misericórdia revela um Deus que não se cansa de recomeçar com o homem, mesmo quando o homem se afasta de seu caminho.
O Papa Francisco recorda que a misericórdia de Deus é o coração do Evangelho e deve alcançar os corações e as mentes de todas as criaturas. Essa afirmação amplia nossa compreensão: a misericórdia não se limita ao espaço do templo, mas toca a vida real, concreta, ferida e complexa de cada dia. Ela alcança quem acorda cedo para trabalhar, quem sofre no trânsito, quem enfrenta o desemprego, quem carrega dívidas, dependências, inseguranças, solidão e dores escondidas. A misericórdia de Deus se faz presença no cotidiano, porque é ali que a vida acontece e onde tantos precisam recomeçar. Por esses motivos, não se pode falar de misericórdia sem falar de proximidade. Misericórdia é presença que consola, é cuidado que levanta, é ternura que não humilha. Não é uma bondade improvisada ou uma ação apenas emocional, é um modo de amar que se torna gesto, partilha e compromisso. Como nos ensina o próprio Senhor, “Tudo o que fizerdes a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim que o fizestes” (Mt 25,40). Dar de comer aos famintos, acolher peregrinos, cuidar dos enfermos, visitar os encarcerados, consolar os aflitos e vestir os nus são expressões desse amor em ação.
Na espiritualidade franciscana, essa verdade ganha força especial. São Francisco de Assis viveu a misericórdia como experiência concreta de encontro com Deus e com os irmãos. Ao aproximar-se dos leprosos, ele não apenas fez uma obra de caridade, ele entrou numa nova forma de ver o mundo, de ver o outro e de ver a si mesmo. Como recorda São Boaventura, Francisco era movido por uma “maravilhosa misericórdia e compaixão”, a ponto de considerar a dor do outro como sua própria dor. A misericórdia, para Francisco, não era teoria, mas conversão de vida, por isso ele ensinou que quem recebe autoridade deve agir com misericórdia, tratando o irmão como gostaria de ser tratado em situação semelhante. Em Francisco, a misericórdia se torna critério de fraternidade.
Também Santa Clara, na mesma inspiração, compreendeu que a misericórdia é parte essencial da vida fraterna. Não há verdadeira comunidade sem compaixão, sem cuidado mútuo, sem delicadeza no trato, sem atenção aos mais frágeis. A fraternidade franciscana não nasce de afinidades superficiais, mas de uma mesma fonte: o amor de Deus revelado em Jesus Cristo. Sendo assim, misericórdia e fraternidade caminham juntas. Onde há misericórdia, há lugar para o outro; onde falta misericórdia, a relação se endurece e a vida comunitária perde o seu sabor evangélico.
A misericórdia também tem uma dimensão social e histórica. Ela não pode ser reduzida a um sentimento privado, porque toca a realidade concreta das periferias existenciais e materiais. Há misericórdia quando se defende a dignidade humana, quando se promove justiça, saúde, educação, moradia, acolhida, paz e oportunidades reais de vida. Há misericórdia quando a Igreja sai de si e vai ao encontro das dores escondidas das pessoas. Não existe misericórdia autêntica quando a fé se fecha em si mesma, quando se torna discurso bonito sem compaixão concreta.
Nesse sentido, o Ano da Misericórdia recordou à Igreja que o tempo da graça é sempre tempo de retorno. Viver a misericórdia é ajudar a diminuir as lágrimas do mundo, é abrir caminhos de reconciliação, é reconstruir o que foi ferido. O Deus revelado em Jesus não se impõe pela dureza, mas atrai pela ternura. Seu poder se manifesta justamente no perdão, na paciência e na capacidade de reacender a esperança. Como lembra a tradição espiritual, um pouco de misericórdia já torna o mundo menos frio e mais justo.
Assim, podemos afirmar com convicção: a misericórdia de Deus não falha. Ela precede o pecado, acompanha o caminho e sustenta o retorno. Como diz o próprio Jesus, “Vinde a mim todos vós que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei” (Mt 11,28). Ele continua a chamar, acolher e recomeçar com cada pessoa. O seu convite permanece aberto: volta para perto dele. Volta para a casa do Pai. Volta para a vida em comunhão. Volta para a esperança. Quem experimenta essa misericórdia é chamado também a torná-la visível no mundo com obras, palavras e gestos que anunciam, sem medo, o Evangelho do Amor.
*Frei Augusto Luiz Gabriel, ofm é religioso franciscano da Ordem dos Frades Menores. Natural de Xaxim (SC), atualmente reside na Fraternidade São Pedro Apóstolo, em Pato Branco (PR). Presidente da Fundação Frei Rogério e vice-presidente da Rede Celinauta de Comunicação, atua na gestão de meios de rádio e televisão; além disso é guardião da fraternidade, animador das juventudes da Província da Imaculada Conceição do Brasil, responsável pelo Serviço de Animação Vocacional (SAV) local e vigário paroquial.