Maio é o mês de Maria, por isso, neste mês queremos apresentar uma relíquia mariana .
A cidade de Chartres, ao sudeste da França, tem uma história que se funde com sua catedral, construída para abrigar uma rara relíquia da Virgem Maria: um véu que se liga aos mistérios da encarnação e do nascimento de Jesus.
O véu de Maria (sancta camisa) é um pedaço retangular de seda que, segundo a lenda, Maria usou durante o anúncio do nascimento de Jesus pelo Anjo Gabriel e para alguns durante o nascimento milagroso e virginal de Jesus.
A história documentada remonta ao rei Carlos, o Calvo, que ofereceu o véu à Catedral de Chartres em 876. Seu avô, Carlos Magno, havia recebido o véu como presente da imperatriz bizantina Irene. Constantinopla de fato abrigou inúmeras relíquias, muitas vezes salvas da ameaça de impérios como os dos persas e dos árabes (Islã). Quando analisado no século XX, o tecido continha pólen da Palestina do primeiro século.
Em O véu de Notre Dame, Yves Delaporte explica: “Foi durante o cerco de Chartres pelos normandos em 911 que a relíquia adquiriu sua notoriedade e entrou para a história. O bispo, à vista dos combatentes, exibiu no topo da Porte Neuve o véu da Virgem Maria. Quando viram a venerada relíquia, a coragem dos exércitos cristãos dobrou, enquanto os pagãos ficaram aterrorizados… Todos atribuíram a vitória à divina ajuda e intercessão da Virgem Maria”.
O véu de Maria foi colocado junto com outras relíquias em um relicário por volta do ano 1000 d.C. Tratava-se de um baú de madeira selado e revestido de ouro, geralmente situado no altar-mor do Oriente. Acreditava-se que o véu fosse uma espécie de túnica. Peregrinos vinham rezar perto dele. Como se acreditava que oferecia uma espécie de proteção divina, as túnicas daqueles que iam para a guerra, e mais tarde as túnicas oferecidas às rainhas da França quando estavam prestes a dar à luz, eram colocadas junto ao relicário. Eram então usadas ou guardadas por aqueles que buscavam proteção.
Quando grande parte da catedral foi severamente danificada por um incêndio em 1194, houve grande temor de que o véu tivesse sido destruído. Malcolm Miller explica: “A tragédia é narrada em Les miracles de Notre-Dame de Chartres, uma tradução de meados do século XIII feita por Jehan le Marchant de um texto latino anterior. A princípio, escreve o cronista, o povo se desesperou porque acreditava que a preciosa relíquia também havia sido queimada e, portanto, que a proteção de Maria sobre a cidade estava perdida, mas, no terceiro dia, uma procissão apareceu com a relíquia a salvo, aparentemente levada por sacerdotes para a cripta carolíngia sob o coro. O cardeal, então, declarou que esse era um sinal de Maria de que ela desejava uma igreja mais magnífica, e um grande entusiasmo foi imediatamente despertado para a reconstrução”.
No século XVII, o relicário foi aberto. Dentro dele havia um tecido exterior ornamentado (agora em exposição no Museu Municipal, no Jardim do Bispo) que protegia outro pedaço de tecido “muito fino e com um aspecto muito antigo, de seda. Este não tinha qualquer decoração ou cor. Estava danificado pela umidade e pela ação do tempo em alguns pontos” (Delaporte, 14).
Michel Bouttier descreve o que aconteceu mais tarde: “Durante a revolução, o relicário foi destruído. No entanto, o véu, cortado em vários pedaços, foi conservado por diversas pessoas que o devolveram em 1809 e 1819” (La Cathédrale de Chartres: sa construction. Paris: MB Editions, 1999, página 26).
Durante a Revolução Francesa, o véu foi cortado em pedaços. Alguns foram posteriormente devolvidos à catedral. Hoje, dois desses pedaços estão em exposição: o maior deles, guardado em um relicário do século XIX, encontra-se em uma capela no lado norte do deambulatório do coro; um pedaço menor está em exposição na Capela de Notre Dame Sous-Terre, na cripta.
É interessante esclarecermos que a doutrina de Santo Tomás de Aquino nos ensina que o milagre não nos concede a fé, mas, sim, a Palavra de Deus. As relíquias em si também não são fonte de nossa fé, mas, sim, o evento ou fato salvífico que funda essa fé e testemunhado na Palavra escrita. O que de fato desperta a fé de muitos é saber que Deus encarnou e nasceu como um homem.
A relíquia, mesmo se não fosse a original, liga-se a uma original que de fato existiu, esse é o efeito que vemos nas reproduções, porém, o estudo natural de determinado objeto e mesmo de um elemento arqueológico traz para nós um contato com o fato original. Ao tratarmos desses objetos de que muitas vezes temos apenas um testemunho muito antigo, parece que nos ligam a algo muito mais antigo, assim, é interessante sabermos que ainda hoje o véu da Virgem, como sinal de proteção, é amplamente venerado em ícones, milagres e aparições especialmente no Oriente e não só na ambiente católico, mas nas Igrejas Orientais separadas de Roma. A imagem e a relíquia tornam-se portadoras de uma mensagem. Essa relíquia, nos papéis que lhe são atribuídos, sendo a mais divulgada como o véu que acompanhou o nascimento de Jesus, traz uma mensagem de proteção e acolhida materna muito forte. A catedral em si também atrai por inúmeras interpretações, sendo a mais original e oficial que representa a mãe Igreja e no seu interior acolhe e gera os cristãos. Sua cripta, onde se venera uma imagem medieval da Virgem – não mais a original –, é ainda um tipo de representação do útero materno. Podemos comparar as vestes perdidas de Adão e Eva no Éden com as vestes milagrosas do Senhor e da Senhora (um registrado no Evangelho o outro guardado por piedosas tradições). As vestes de Cristo, sendo tocadas, foram suficientes para a mulher com fluxo de sangue ser curada. A experiência dessa mulher tem se repetido com as relíquias e outros meios que estabelecem um contato com o Senhor. Como no Evangelho, em vez de Jesus perguntar quem tocou seu manto, Ele afirma perguntando “Quem me tocou?” (Lc 8,45).
A fé numa relíquia não está em poderes mágicos que possui, mas na realidade viva de uma pessoa viva e presente, cujo maior segredo reside em tocá-la com nossa fé viva em Jesus.