“Bem-aventurados sois vós quando vos injuriarem, perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós, por minha causa” (Mt 5,11-16): esta frase desconfortável do Evangelho continua atual hoje, no terceiro milênio cristão.
A palavra “mártir” vem do grego “mártys”, que significa “testemunha”, aquele que anuncia, atesta e chora a alegria da ressurreição. Aquele que canta a vitória da vida sobre a morte, do amor sobre o ódio, da justiça sobre a arbitrariedade dos poderosos.
A grande manhã do martírio cristão foi com Santo Estêvão, humilde diácono das mesas dos Atos dos Apóstolos, a quem Lucas confia a “coroa do testemunho”. Por causa desse precioso testemunho, Estevão ganhou o título de “protomártir” da Igreja, um verdadeiro pilar da fé cristã católica.
O martírio é, portanto, por impulso, o anúncio evangélico, o esplendor de uma palavra que é uma boa notícia para os pobres, os oprimidos e os prisioneiros e que ninguém pode extinguir mesmo com a desfiguração, tortura e desprezo. Enquanto o martírio, de fato, marca a transparência da vida cristã, a fé bíblica não quer sacrifício; ao contrário, é expressa em mil casos contra ele. Assim diz Jesus no Evangelho de Mateus: “Ide aprender o que significa: quero misericórdia e não sacrifício” (9,13; 12,7), o que importa é o coração aberto a Deus e ao próximo. O sacrifício não serve para a salvação, porque a salvação é o dom do Senhor.
Os mártires são testemunhas de esperança e paz, são aqueles que, com sua extrema doação, testemunham a fidelidade ao Evangelho da cruz, um amor extremamente forte por Jesus Cristo e por seu Reino.
Tertuliano, um dos padres da Igreja, dizia que “o sangue dos mártires é a semente dos novos cristãos”. De fato, sem qualquer dúvida, essa semente produziu seus frutos ao longo da história da Igreja. As perseguições aos cristãos sempre foram uma realidade violenta e desafiadora, mas os arautos do Senhor nunca se intimidaram nem recuaram a responder com fidelidade ao Evangelho.
É precisamente esse sangue derramado no amor e por amor, pela própria fé que cria uma ponte entre todas as regiões do mundo. É o sangue de Cristo o elo entre as realidades, que ainda hoje se manifesta na pessoa de nossos irmãos e irmãs vítimas de perseguição, terrorismo em geral e terrorismo de grupos, de violência irracional e da intolerância religiosa.
A perseguição, portanto, está intrinsecamente presente na vida dos cristãos. Essa profecia, misteriosamente preservada em cada discípulo, é uma realidade tangível em todas as suas dimensões de violência contra os cristãos desde a Igreja nascente.
Os apóstolos se reuniam às escondidas e muitas vezes encontravam no silêncio e no anonimato a forma mais verdadeira de viver a fidelidade a Jesus Cristo, isso também era forma de martírio.
É triste quando nossas sociedades permitem que os idosos sejam descartados ou esquecidos. É repreensível quando os jovens são explorados pela atual escravidão do tráfico de pessoas. Se olharmos cuidadosamente para o mundo ao nosso redor, parece que em muitos lugares o egoísmo e a indiferença estão se espalhando.
Quantos de nossos irmãos e irmãs são vítimas da cultura “descartável” de hoje, que gera desconsideração especialmente para crianças não nascidas, jovens e idosos. É aqui que o testemunho dos mártires se manifesta concretamente por amor ao Evangelho, eles dão suas vidas sem nada querer em troca. É simplesmente por um amor apaixonado e desinteressado, um amor livre capaz de ir ao encontro dos irmãos, muitas vezes em países longínquos, que oferecem a si mesmo em favor dos outros, e assumem a cruz de Jesus Cristo na vida dos mais pobres e sofredores, em diversas partes do mundo.
O sangue dos mártires é o sangue da esperança que ao cair no chão traz frutos de nova vida para a vida do Reino. Não há amor maior que dá a vida pelos irmãos. Os mártires, ainda hoje, sem demora se oferecem para o anúncio de Cristo e do seu Evangelho.
Também nós queremos oferecer cotidianamente nosso “sim” ao Senhor e com fidelidade viver a graça do mesmo anúncio e testemunho da fé. Esse é verdadeiro kerigma da esperança e da vida em plenitude.
Com vidas de entrega total e sem reservas ao Senhor e ao seu Reino, os mártires são partícipes por excelência do amor de Jesus Cristo, Ele que dá tudo que é oferecendo a todos, sem limites para além das fronteiras humanas.
Assim são os mártires missionários ad gentes, que vão aonde ninguém quer ir. O testemunho cristão do martírio faz a Igreja brilhar em toda a sua beleza. Segue descobrindo e redescobrindo sua natureza e vocação no mundo.
Na vida do cristão, tudo deve se remeter a Deus, não há dimensão da vida do homem e muito menos do homem de fé que não tenha relação com Ele, isso significa que o homem livre e graças à luz interior pode discernir aquilo que o aproxima de Deus e aquilo que o leva para longe dele. A graça do martírio o faz estar muito próximo de Deus e do seu Reino.
Os mártires expressam essa liberdade da maneira mais elevada e, no dom de si aos outros, mostram a nós que é possível transcender os próprios interesses, erradicar em si toda forma de egoísmo. A Igreja reconhece o valor do martírio e sente-se fortalecida em sua missão quando contempla o testemunho dos mártires da fé.
O apóstolo São Paulo está ciente de que seu comportamento não é desprovido de valor para os que lhe são confiados. O seguimento de Cristo o envolve plenamente, obriga-o a ser coerente, para que não aconteça que ele mesmo seja um obstáculo para seus irmãos no caminho de Cristo, que ele não é um escândalo para aqueles que querem seguir a Jesus.
Todos os mártires cristãos são modelos para nós, vivendo coerentemente o mandato evangélico. Não apenas evitamos escândalos, mas nos tornamos proclamadores de Cristo, portadores da Boa-Nova para o mundo.
*Cardeal Orani João Tempesta, arcebispo da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro (RJ).