A paz cristã não é apenas a ausência de conflito, é dom de Deus, presença de Cristo e missão da Igreja. Vivemos tempos marcados por guerras, instabilidade política, desigualdades e violências que ferem a dignidade humana, cenário em que anunciar e praticar a paz torna-se tarefa urgente para todo discípulo. Desde as primeiras comunidades cristãs, a paz é proclamada como um elemento constitutivo do Reino de Deus e tema central do Evangelho, como o texto clássico das bem-aventuranças: “Bem-aventurados os pacíficos, porque serão chamados filhos de Deus” (Mt 5,9), no qual a paz não é concebida como mera acomodação, mas como vocação e obra ativa, expressão de um modo de vida que reconcilia e transforma.
Se no medievo surgiram instituições da paz, como assembleias, tréguas e pactos para limitar a violência, proteger os vulneráveis e garantir justiça, práticas que tornavam concreto o ideal cristão da paz, hoje a missão permanece semelhante: promover meios, estruturas e decisões políticas que priorizem a vida e o bem comum. Como ontem, ainda hoje é necessário estabelecer caminhos regulados de convivência e discernimento que substituam a força bruta por responsabilidade e mediação.
O pontificado do Papa Leão XIV recoloca essa herança no centro do magistério. Desde sua primeira bênção Urbi et Orbi – quando saudou os fiéis com a expressão “A paz esteja com todos vós!” –, ele não apenas cumpriu uma formalidade litúrgica, mas lançou um programa pastoral. Esse eixo reaparece no tema escolhido para o 59º Dia Mundial da Paz: “A paz esteja com todos vós: rumo a uma paz desarmada e desarmante”, convocando à rejeição da lógica da violência e à adoção coerente de instrumentos de diálogo, reconciliação e justiça social. Insiste o Papa que a paz durável não nasce da imposição das armas, mas da conversão das relações, das escolhas políticas e das economias.
A tradição litúrgica ilumina essa proposta. O gesto do intercâmbio da paz na Eucaristia, que a tradição romana e os padres da Igreja descrevem como sinal de comunhão e responsabilidade, não é um cumprimento social, mas proclamação sacramental de um compromisso: o Cristo que dá a paz no altar envia os discípulos a levá-la ao mundo. Essa saudação nasce da imitação de Cristo e dos apóstolos e constitui um modo de proclamar o Evangelho com a vida.
Do ponto de vista comunitário, isso exige orientar a celebração litúrgica para que o intercâmbio da paz seja vivido com reverência e consciência, formar comunidades que preferem o diálogo e a negociação ao conflito, incentivar educação para mediação de conflitos e políticas públicas de paz e promover uma catequese social que integra fé e compromisso civil.
A espiritualidade franciscana e a teologia de São Boaventura ajudam a aprofundar essa visão. Para Francisco, a paz não é passividade, é sabedoria prática, “força interior” que brota de uma alma reconciliada e se traduz em gestos concretos. Em seus escritos é recorrente a orientação para “não deixar de possuir a paz interior por causa das perturbações externas”, indicando que a paz “adquire força para enfrentar os sofrimentos do mundo”. A saudação franciscana da paz não é cortesia, mas missão. É a paz “capaz de desarmar primeiro o coração humano e, depois, as estruturas de ódio”.
A oração atribuída a São Francisco “Senhor, fazei de mim um instrumento de vossa paz” resume esse caminho: serviço aos pobres, cuidado da criação, simplicidade, misericórdia e presença profética nas periferias são expressões de uma paz que nasce do Espírito e se torna ação histórica. É herança franciscana e eixo do magistério de Leão XIV.
O Papa convoca a Igreja a caminhar sinodalmente: construir pontes no diálogo ecumênico e inter-religioso, promover políticas que protegem os mais vulneráveis, insistir em mediações diplomáticas e iniciativas de reconciliação. Como ontem os pactos medievais de paz protegiam vidas e garantiam convivência, hoje a Igreja é chamada a fomentar espaços, decisões e alternativas que façam prevalecer o diálogo sobre a ameaça, a justiça sobre a violência e a reconciliação sobre a exclusão.
A paz que vem de Deus pede conversão pessoal e transformação estrutural. É dom recebido em Cristo e tarefa que exige coragem: desarmar o coração, derrubar muros de desconfiança e edificar ferramentas concretas de justiça. Vivida na liturgia, testemunhada na caridade e traduzida em ações políticas responsáveis, a paz se torna Evangelho vivido.
Que a saudação litúrgica “A paz esteja convosco” não seja apenas palavra, mas projeto de vida. Que nossas comunidades, com pequenos gestos e grandes escolhas, sejam sementes de uma paz que vem de Deus e quer se manifestar no mundo.