Em seguida à grande Festa de Natal e sua oitava, temos a Solenidade da Epifania.
Essa festa, entre muitos e ricos elementos, sempre é lembrada pelas figuras dos três santos reis. Eles são mencionados apenas no Evangelho de São Mateus, mas não como reis e nem em seu número de três. Nas antigas pinturas, mesmo das catacumbas, eram representados de muitas formas e números variados. Chegavam a dizer que foram dezesseis ou 32, porém, antigos testemunhos nos trouxeram o número de três, tendo, porém, servos e escravos com eles (o que explicaria o número maior mencionado em certas fontes). A fé católica antiga, ao verificar que certos detalhes eram já profetizados, entendeu que neles estavam os três filhos de Noé. O Evangelho de São Mateus também menciona os três presentes, como a indicar tal quantia de reis. No monte Athos, na Grécia, diz-se que são conservados esses presentes do Menino Deus. Também conta-se que nesse local, quando São João Evangelista e a Santa Virgem em pessoa passaram sobre lá, teria sido abençoada essa localidade. O monte Athos, antes do Cisma Oriental, possuiu um mosteiro de regra beneditina.
Os três presentes possuem um significado precioso. Além de explicações que indicam a identidade do Menino, possuem um paralelo com o tabernáculo de Moisés, pois o lugar santo possuía três mobílias principais: o candelabro de ouro, o altar do incenso e a mesa dos pães da proposição. O candelabro de sete braços servia para iluminar, assim o ouro com seu brilho estava aí representado. O altar dos perfumes possuía brasas que serviam para queimar o incenso que conseguia penetrar o Santo dos Santos com a fumaça entrando além do véu. No altar dos pães da proposição, temos um particular: esses pães ficavam expostos ao incenso de mirra com sal (segundo a tradição judaica que explica a natureza do incenso colocado). Segundo a tradição rabínica, pães não apodreciam. Em resumo: no candelabro Jesus é Deus, no altar de incenso Jesus é o sacrifício, na mesa dos pães da proposição Jesus é a incorruptível ressurreição, que traz o pão imperecível da Eucaristia.
A tradição nos legou como reis e atentos à afirmação de São Mateus: na qualidade de magos, devemos entender não apenas como adivinhação pagã, mas estudiosos sinceros que chegaram a prever o Messias com suas qualidades esperado pelas nações.
Os corpos desses magos se encontram hoje na Catedral de Colônia, na Alemanha. Conta uma tradição que seus corpos foram trazidos por Santa Helena até Constantinopla no século IV. Uma biografia do século XII do Bispo Eustórgio I de Milão (343-349) relata que as relíquias foram transferidas por ele de Constantinopla para Milão ainda no século IV. Em Milão, os restos mortais foram guardados em um sarcófago do século Ill na Igreja de Sant’Eustorgio, nos arredores da cidade, até 1158. Quando o cerco de Milão por Frederico Barba Roxa ameaçou a cidade, as relíquias foram transferidas para a torre sineira da Igreja de San Giorgio al Palazzo, dentro das muralhas, para sua proteção (temporária). Ali permaneceram até que, após a destruição da cidade no fim de março de 1162, Frederico Barba Roxa as presenteou a seu conselheiro próximo, o Arcebispo Rainald de Dassel, de Colônia. A Catedral de Hildebold, nessa cidade – a predecessora da catedral gótica –, já havia sido mobiliada com relíquias valiosas, incluindo o cajado e as correntes de São Pedro, com as quais, segundo a tradição, o apóstolo foi preso e um relicário da cabeça de São Silvestre, Papa.
Foi então confeccionado o Santuário dos Três Reis Magos na Catedral de Colônia, que é um relicário de ourivesaria que data do fim do século XII. O santuário também contém as relíquias de São Gregório de Spoleto, bem como outros itens que não podem mais ser identificados, mas que foram por muito tempo atribuídos aos santos Félix e Nabor. No século XIX, o relicário foi aberto e foram reconhecidos os diferentes elementos, incluindo tecidos que foram datados como do I século da era cristã. Na década de 1920, exames identificaram os ossos como do fim do século I a.C. ao início do século I d.C.
O santuário é um grande sarcófago triplo dourado e decorado, situado acima e atrás do altar-mor da Catedral de Colônia, no oeste da Alemanha. Construído aproximadamente entre 1180 e 1225, é considerado o ápice da arte mosana por diversos historiadores e estudiosos e está entre os maiores relicários do mundo ocidental. As imagens dos três reis magos estão localizadas na parte inferior central do santuário, oferecendo presentes nesta ordem, de acordo com o Evangelho de Mateus: ouro, incenso e mirra a Maria, sentada no trono, que segura o menino Jesus. Os reis magos partiram do Oriente para Belém, onde Cristo nasceu, após verem uma estrela. As identidades deles estão na ordem em que aparecem no santuário como figuras douradas: Gaspar, Melquior e Baltazar. Melquior, representado no santuário com uma longa barba, é o mais velho dos três; ele era o rei da Pérsia e recebeu o ouro como presente para dar ao Menino Jesus. Baltazar, retratado como um homem idoso do Oriente Médio ou negro com traços africanos no santuário, era o rei da Arábia ou, às vezes, da Etiópia; ele ofereceu a mirra como presente ao Menino Jesus. Por fim, Gaspar era o mais jovem dos três e é representado com uma barba curta no santuário; ele recebeu o incenso como presente para dar ao Menino Jesus.
Podemos, enfim, dizer que durante séculos essas relíquias se tornaram para gerações de católicos uma verdadeira estrela que aponta para Jesus Cristo.