“Quando a condescendência divina escolhe alguém para uma missão especial ou para um estado sublime, concede à pessoa escolhida todos os carismas que lhe são necessários para a sua realização… Eis quanto se realizou sobretudo no grande São José.”
O Evangelho chama José de homem justo, como eram chamados os antigos patriarcas de Israel. Ele, como aqueles, acreditava no amor de Deus para com o seu povo e a humanidade inteira e esperava pelo cumprimento da promessa da salvação, de uma salvação que viria do alto. Então se achava envolto em primeira pessoa nesta extraordinária aventura.
Os evangelhos de Mateus e de Lucas nos falam de José na medida em que os acontecimentos de sua vida estão relacionados com o nascimento e a infância de Cristo; eles não tiveram nenhuma intenção de escrever uma biografia de José. Mateus (1,1-16), querendo explicar a descendência davídica do Messias, escreve a genealogia de Jesus e conclui com estas palavras: “Jacó gerou José, o esposo de Maria, da qual nasceu Jesus chamado de Cristo” (16). Desse modo, o evangelista lhe assegurava a descendência de Davi, pois, para os hebreus, o que tinha valor era a paternidade legal.
Quanto a não haver nenhuma dúvida a respeito da concepção virginal de Cristo por obra do Espírito Santo, Mateus continua: “Eis como aconteceu o nascimento de Jesus Cristo: sua mãe Maria, sendo prometida a José, como esposa, antes de coabitarem, encontrou-se grávida por obra do Espírito Santo” (1-18). Quando José soube que Maria esperava um filho, concebido sem a sua participação, não sabia o que pensar. Maria, por sua, vez não podia explicar, pois era muito grande o mistério. Como para ela, também para seu esposo era necessária uma luz divina.
José, sendo um homem justo, não quis repudiar sua esposa e, antes de comunicar o acontecimento aos parentes de Maria, invocou a ajuda de Deus. Sua oração foi ouvida e ele escutou: “José, filho de Davi, não tenhas medo de receber Maria como tua esposa, porque aquele que foi gerado nela é obra do Espírito Santo. Eis que ela dará à luz um filho e tu o chamarás Jesus” (Mt 1,20-21). Nesse momento, em que o véu do mistério estava um pouco descoberto, os dois cônjuges puderam passar a viver juntos e toda a sua existência foi dirigida para uma terceira pessoa: o filho que, vindo do alto, tinha vindo morar entre nós.
O evangelista Lucas, depois de ter descrito a anunciação a Maria e sua visita a Isabel, narra-nos outros episódios da infância do Messias. Antes de tudo, o seu nascimento. Jesus nasceu em Belém, pois José, da casa de Davi, deveria se transferir com sua esposa para essa cidade para fazer o recenseamento ordenado pelos romanos. O menino nasceu em um ambiente pobre, recebeu homenagem de pastores simples e mais tarde de nobres reis magos. No oitavo dia foi circuncidado e José impôs-lhe o nome de Jesus, como Deus lhe havia ordenado. Foi levado também a Jerusalém, como ordenava a lei de Moisés, para ser apresentado ao templo. Nessa ocasião, tiveram a oportunidade de ver o regozijo do velho Simeão e da profetiza Ana, mas ouviram também a profecia que Simeão fez a respeito do menino: será sinal de contradição.
O evangelista conta que José cuidou do menino e de sua mãe e percebeu que não havia lugar para eles em Israel, por inspiração divina tomaram o caminho do exílio para o Egito. Retornaram para a pátria somente depois da morte do feroz Herodes, autor da matança dos inocentes. Não permaneceram na Judeia, onde reinava o filho de Herodes, que não era diferente do pai. Preferiram ir para a Galileia dos gentios, em Nazaré, onde como bom carpinteiro poderia ganhar o suficiente para manter a família.
O único episódio desse período, descrito no Novo Testamento, é o desaparecimento de Jesus em Jerusalém. Ele foi com seus pais para a festa da Páscoa. Depois de três dias de angústia de seus pais, ele foi encontrado entre os doutores da lei. Jesus disse aos seus pais: “Por que me procuráveis? Não sabíeis que devo me ocupar das coisas de meu Pai?” (Lc 2,49) Em seguida, o evangelista acrescenta: “Retornou a Nazaré e lhes era submisso” (Lc 2,51).
Nesse ponto o evangelista silencia. Nós não temos palavras humanas adequadas para descrever o que se passou com aquela família, onde a vida trinitária vivia a cada dia a experiência humana. Isso por trinta anos, durante os quais Jesus crescia em idade, sabedoria e graça. “Trinta anos dos quais quase nada se conhece. É um mistério. O mistério do amor. O mistério do amor divino e humano entre coração de carne, vestido de virgindade. Ninguém o compreendeu. Alguma coisa nós só saberemos no Paraíso, na proporção de quanto na Terra os tivermos amado e seguido.”
“Na família de Nazaré, Maria certamente educava, mas educava ouvindo a voz do Espírito Santo dentro dela, que estava em harmonia com o Filho de Deus, que estava diante dela. Educava também o seu filho, obedecendo-lhe. Por outra parte, Jesus Menino – Ele era o guia da família de Nazaré, porque era Deus – estava também submisso a Maria e a José, como diz a Escritura. José, por sua vez, chefe da família aos olhos dos outros, pois era tido como pai de Jesus, pois Jesus lhe obedecia e porque Maria sem dúvida lhe terá obedecido, era ao mesmo tempo submisso a Deus e à mãe de Deus. De tudo isto se vê que os três, de um ponto de vista, mandavam e os três, de um outro ponto de vista, obedeciam.”
Durante a vida pública de Jesus não se diz nada de José, somente no início, quando as pessoas, diante da sabedoria e da autoridade com que o jovem rabino ensinava e do seu poder de realizar milagres, perguntavam-se estupefatas: “Não é ele o filho de José?” (Lc 4,22). Mas José já havia cumprido sua missão e não parece que ainda estivesse vivo naquela terra.
Na linguagem que se tornou tradição, José é chamado o suposto pai de Jesus. Se de uma parte esse título salvaguarda a concepção virginal de Cristo, de outra não exprime plenamente a relação de paternidade existente entre José e o Salvador. Um autor medieval já tinha observado que “José foi o verdadeiro pai em ordem ao Matrimônio”, embora “suposto pai em ordem à geração corporal”. São Tomás de Aquino acrescentou: “José é ao mesmo tempo tanto pai de Cristo quanto esposo de Maria, não em virtude da união carnal, mas do vínculo matrimonial”.
Por causa dessa relação especial com Jesus e Maria, José sempre foi muito venerado na Igreja. Pio IX, resumindo a herança dessa longa tradição, proclamou-o patrono da Igreja Universal e Leão XIII o indicava como modelo de todas as famílias cristãs. Bento XV escreveu: “A casa divina, que José governou (…) continha os princípios da igreja nascente (…). Como consequência disso, o santo patriarca deve sentir como confiada a si, por essa especial razão, toda a multidão dos cristãos”. Pio XII o propôs como exemplo para todos os trabalhadores e fixou o dia 1º de maio como Festa de São José Trabalhador, que “enobreceu o trabalho humano, sustentado e animado pela convivência de Jesus e Maria” e “exercendo sua arte com empenho e virtude admiráveis, tornou-se o mestre de trabalho do Cristo Senhor que não desdenhou ser chamado filho do carpinteiro”.