Em Deus está a origem de todo amor: não somos nós que o amamos primeiro, mas foi Ele quem nos amou antes de tudo, gratuitamente. Essa verdade, central na fé cristã, ilumina também a maneira como compreendemos o Reino de Deus anunciado por Jesus. Se o amor é iniciativa divina, o Reino também é dom: precede nossos esforços e cresce em nós de forma silenciosa, paciente e misteriosa.
O Evangelho de Mateus organiza os ensinamentos de Jesus em cinco grandes discursos, que ajudam a compreender sua mensagem. Entre eles, o capítulo 13 ocupa um lugar especial: é o terceiro discurso, conhecido como o Discurso das Parábolas. Nele, Jesus utiliza imagens simples do cotidiano para revelar o mistério do Reino de Deus e sua ação no coração das pessoas. Jesus fala do Reino com exemplos simples do dia a dia: a semente lançada na terra, o fermento que faz a massa crescer, o pequeno grão de mostarda que se torna grande. Todas essas imagens mostram que o Reino cresce de um modo que não depende só do esforço humano, mas da ação de Deus.
Essa lógica do Reino dialoga diretamente com a experiência do amor de Deus em nossas vidas. Assim como a semente germina no escondimento da terra, o amor divino atua em nós antes mesmo de termos plena consciência dele. Somos amados antes de responder, escolhidos antes de compreender, alcançados pela graça antes de qualquer mérito. Esse amor primeiro é o fundamento da nossa identidade mais profunda.
Entretanto, muitas vezes vivemos como se precisássemos conquistar esse amor. Interiormente, carregamos vozes que nos acusam, diminuem ou fazem duvidar do nosso valor. São marcas de experiências, feridas e inseguranças que, pouco a pouco, vão moldando nossa maneira de nos relacionar com Deus e com os outros. Essas vozes geram medo, necessidade de aprovação e dificuldades concretas nos relacionamentos, especialmente na vida conjugal. Quando não nos reconhecemos como amados, passamos a exigir do outro aquilo que, no fundo, só Deus pode oferecer plenamente.
As parábolas de Mateus 13 chamam todos os seguidores e seguidoras de Jesus a confiar na ação de Deus. O semeador espalha a semente em vários tipos de terreno: nem todos acolhem, mas alguns dão frutos. O fermento age por dentro e transforma toda a massa, de modo simples e silencioso. O grão de mostarda, mesmo sendo pequeno, cresce e se torna grande. Assim é também o amor de Deus em nós: começa discretamente, mas tem força para transformar a vida inteira.
Reconhecer que Deus nos amou primeiro é permitir que essa semente encontre terra fértil em nossos corações. É acolher o Reino não como conquista, mas como dom. É abandonar a lógica do mérito para entrar na lógica da graça. A partir dessa experiência, tornamo-nos capazes de amar de forma mais livre, sem medo, sem a necessidade constante de provar valor ou buscar validação.
Na vida a dois, essa verdade ganha um significado ainda mais concreto. Um casal que se sabe amado por Deus não vive na lógica da cobrança, mas da gratuidade. Aprende a escutar com mais profundidade, a acolher com mais paciência e a crescer junto mesmo nas fragilidades. Sabe que o amor não precisa ser arrancado do outro, mas pode ser compartilhado como resposta a um amor maior que já foi recebido.
O amor que nos sustenta é o mesmo que faz o Reino crescer. Ele não se impõe nem aparece, mas vai agindo por dentro, de forma simples e constante. Nem sempre percebemos, mas é ele que pouco a pouco vai mudando nossos corações, nossas atitudes e nosso jeito de viver.
Como a semente na terra, o fermento na massa ou o pequeno grão que cresce, o amor de Deus segue seu caminho. Nem tudo acontece como gostaríamos, mas a vida vai sendo transformada. Cabe a nós acolher esse amor, confiar e deixar que ele dê frutos em nossa vida, alcançando também os outros.
Referência Bibliográfica
BROWN, Raymond E. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Paulinas, 2004.
FABRIS, Rinaldo; MAGGIONI, Bruno. Os evangelhos. São Paulo: Loyola, 1992.
PAGOLA, José Antonio. Jesus: aproximação histórica. Petrópolis: Vozes, 2010.