27 de maio
Bispo
(† ca. 604)
“O bispo Agostinho, nosso reverendíssimo irmão, foi formado na regra do mosteiro, conhece bem a Sagrada Escritura, pela graça de Deus é rico em boas obras, por isso tudo o que ele te aconselhar tu deverás escutar de bom grado, colocar em prática devotamente, conservar cuidadosamente na memória (…). Apega-te a ele de todo o coração no fervor da fé e ajuda-o em seus esforços com a capacidade que o Senhor te deu, para que ele te faça participante do seu reino. Aquele cuja fé tu fazes acolher e proteger no teu reino”: com esta carta o Papa Gregório Magno apresentava Agostinho a Etelberto, rei dos anglos.
Na realidade, a fé cristã havia chegado à ilha dos britânicos já nos primeiros séculos e eles já haviam tido mártires na perseguição de Diocleciano, mas, com as invasões dos anglos e dos saxões, nos séculos V e VI, precisaram abandonar a parte sul-oriental da ilha da Bretanha e retirar-se para a Cornualha e para Gales. Os novos senhores do país não eram cristãos e os britânicos, humilhados e oprimidos, nada haviam feito para a conversão deles.
UM APELO VINDO DA TERRA DOS ANGLOS
Etelberto, o rei dos anglos, conseguiu impor sua supremacia a todas as tribos anglo-saxônicas até o rio Humber. Durante uma visita ao continente, acabou se enamorando pela filha do rei de Paris, Berta. Ela aceitou desposá-lo e transferir-se para o além-mar sob uma condição: poder continuar a praticar sua fé cristã e levar consigo o bispo Liudardo.
Foi nesse período que o Papa Gregório Magno recebeu uma carta, talvez do bispo ou da rainha Berta, que implorava missionários para a conversão dos anglo-saxões. Gregório não pensou duas vezes, pois fazia tempo que andava desejoso de realizar esse sonho. Escolheu quarenta monges beneditinos do mosteiro de monte Célio, nomeou Agostinho para ser o abade e enviou-os à terra dos anglos.
Só nesse momento é que tomamos conhecimento da existência de Agostinho. Nada sabemos a respeito de seu passado, a não ser que havia se tornado monge e que devia ter também uma boa preparação e possuir excelentes qualidades para ter recebido do Papa uma missão tão importante.
O grupo dos monges, que tinha à sua frente Agostinho, que era sacerdote, compreendia camponeses, artesãos e escrivães. A ordem do Papa era bastante clara: eles deviam construir um mosteiro e implantar entre os anglos o melhor da vida cristã até aquele momento conhecida, a vida monástica. Como consequência, os pagãos, tendo contato com eles e constatando a beleza do seu estilo de vida, iriam se converter.
Os monges se encaminharam entusiasmados para a realização dessa meta, mas, enquanto atravessavam a Gália, receberam notícias desconcertantes a respeito da terra para onde se dirigiam e sobre o povo que a habitava. Todos diziam que os anglos eram bárbaros e muito perigosos, que havia chegado o fim deles e que jamais retornariam. O que aconteceu com Berta e com o bispo Liudardo? Talvez tivessem sido estrangulados. Se estivessem ainda vivos não teriam mandado notícias? Ir para tal lugar amaldiçoado era o mesmo que se suicidar.
Os pobres monges, que jamais tinham colocado os pés fora dos muros de Roma, começaram a ter saudades do mosteiro do monte Célio e obrigaram Agostinho a retornar para pedir ao Papa que desistisse daquela perigosa missão, destinando-os para um outro local.
Agostinho voltou para Roma e expôs a situação a Gregório que, diferentemente deles, era um homem bem viajado na vida. O Papa o encorajou e confirmou-o como abade com a ordem de levar adiante sem medo a missão já empreendida, porque essa era a vontade de Deus. Escreveu depois uma carta a Virgílio, bispo de Arles, então o único metropolita da Gália e também seu legado, e para os outros bispos e príncipes. Em nome de Deus pedia a eles que em vez de apavorar os monges com narrativas fantasiosas os encorajassem, ajudando-os materialmente, fornecendo-lhes sacerdotes que conhecessem a língua dos anglos e não deixando faltar nem mesmo uma escolta armada para protegê-los até chegarem à ilha dos anglos.
Gregório era muito meigo, mas também firme e decidido. Possuía na Gália propriedades de terras e autorizou o metropolita de Arles a providenciar o necessário para organizar bem a viagem dos monges. Parece que Virgílio, diante dessa sugestão do Papa, havia ordenado bispo a Agostinho antes que eles embarcassem.
OS PRIMEIROS PASSOS EM KENT
Finalmente, no início de 597 o navio desembarcou os missionários na ilha de Thanet, em terra do reino de Kent. De acordo com a ordem do Papa, a primeira coisa que fizeram foi avisar o rei Etelberto que haviam chegado. Ele quis conhecê-los, escutou atento o discurso de Agostinho e ficou contente, dando ordem, porém, que não colocassem os pés fora da pequena ilha antes que ele mantivesse consulta com seus pares. Enquanto isso, não lhes deixaria faltar nada que lhes fosse necessário para viver.
O rei, por prudência, quis aguardar, mas, escutando o parecer dos outros e sobretudo o de Berta, depois de um breve tempo permitiu aos monges estabelecerem-se na cidade real, em Cantuária, construindo o mosteiro próximo da antiga igrejinha de São Martinho, construída pelos cristãos antes da vinda dos anglos e usada até aquele momento pela rainha.
Houve uma grande operosidade em obras realizadas durante aqueles meses e o rei quase convivia com os monges. Em Pentecostes recebeu o Batismo, mas não forçou seus súditos a que seguissem o seu exemplo: havia aprendido dos seus catequistas que a fé não se pode impor, mas, no Natal do mesmo ano, mais de 7 mil anglos receberam espontaneamente o Batismo. Foi construído o mosteiro e nasceu contemporaneamente a comunidade cristã e com ela muitos novos problemas. Agostinho enviou a Roma dois monges, Lourenço e Pedro, para informar ao Papa a respeito de tudo o que estava acontecendo na missão e para ter orientações seguras de como organizar a vida da Igreja nascente. Infelizmente, eles só retornaram no ano 601 e o abade Agostinho precisou durante quase quatro anos agir unicamente guiado pelo seu bom senso que, por felicidade, não lhe faltava.
A LIGAÇÃO COM ROMA
Quando Lourenço e Pedro retornaram, a festa foi grande. O Papa mandava uma carta para Agostinho e outra para o rei; enviava-lhe também o pálio com o poder de ordenar outros bispos e mandava mais outro numeroso grupo de monges.
Beda recorda, com meticulosidade de monge, os vários quesitos postos ao Papa. Citamos apenas alguns. Deveria aplicar a liturgia romana ao pé da letra nesse país assim tão diferente de Roma? O Papa respondeu que, salvos os princípios da fé, o bispo podia escolher a melhor das tradições litúrgicas utilizadas em Roma, na Gália e até mesmo na religião tradicional dos anglos e preparar uma liturgia adaptada e compreensível para a mentalidade deles. Não deveria desdenhar nem mesmo que nas festas se matassem animais para comê-los: bastava explicar-lhes que não se imolavam aos ídolos, mas que serviam para a alegria dos filhos de Deus.
Citamos as palavras do grande pontífice a respeito da liturgia: “Conheces, irmão, o costume da Igreja de Roma, na qual bem sabes que foste educado. Mas sou do parecer que tu com solicitude deves escolher o que tiveres encontrado, seja na Igreja romana ou na Igreja de Gália, e em qualquer outra, que possa mais agradar a Deus onipotente, introduzindo e institucionalizando na Igreja dos anglos, que ainda é nova na fé, os costumes mais importantes que tiveres tomado de outras igrejas. De fato, não são apreciados os costumes pelo lugar de origem e sim os lugares de origem é que são apreciados pelos seus costumes, por isso, escolhe de cada Igreja os usos corretos, os piedosos, os religiosos e estes deposita-os, como recolhidos em um feixe, na mente dos anglos, para que se tornem um costume”.
Havia também perguntado ao Papa o que deveria dizer para aqueles casais que, tendo entre eles vínculos estreitos de parentesco que na tradição romana seria um impedimento legítimo para o Matrimônio, pediam o Batismo. O Papa recomendava gradualidade na aplicação da lei tradicional e sábia da mãe Igreja porque “é impossível cortar fora tudo em um só golpe de mentes incultas, como também quem quiser chegar ao topo da montanha tem de subir aos poucos, passo a passo, e não fazer tudo em um só golpe”.
Gregório pensava alto e expunha o seu plano a Agostinho: desejava reunir em uma só comunhão também os outros cristãos de tradição céltica, como os britânicos, e com a ajuda deles converter todos os não cristãos da ilha. Deveria, pois, constituir duas províncias eclesiásticas: uma com sede em Londres e outra com sede em York e cada uma com doze bispos sufragâneos. As duas províncias, por enquanto, ficariam sob o seu governo, mas depois se tornariam independentes entre elas e ligadas diretamente ao Papa.
Agostinho havia já dirigido uma pergunta ao Papa a respeito da constituição do clero: deveria ordenar sacerdotes e deixá-los sozinhos nas diversas comunidades ou deveria ordenar monges que continuassem a viver no mosteiro? O Papa optou pela segunda opção, autorizando, porém, a ordenação de homens casados para outros ministérios. Também o bispo deveria ter o seu mosteiro e conviver com os seus sacerdotes segundo a tradição de Agostinho de Hipona.
AGOSTINHO COLOCA AS BASES PARA O FUTURO
Agostinho conseguiu fundar três bispados: Cantuária, Londres e Rochester. Não conseguiu, porém, unir os bispos britânicos, devido a tensões culturais e históricas; mesmo assim, consolidou a fé entre os anglo-saxões.
Morreu por volta do ano 604 e é reconhecido como o apóstolo da Inglaterra, por ter dado novo impulso ao cristianismo na região.